A Bela e a Fera: uma breve análise criminológica e social
Segunda-feira, 17 de abril de 2017

A Bela e a Fera: uma breve análise criminológica e social

A Bela e a Fera, refilmagem do clássico da Disney de 1991, atingiu recentemente a marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria[1], conseguindo somente no Brasil mais de 7 milhões de espectadores[2]. Após ir ao cinema, reviver uma história de minha infância, algumas cenas me chamaram a atenção. Assim, procurarei fazer uma rápida análise sobre o filme, ressaltando tais pontos que julguei interessantes. Vamos lá.

Bela é uma antiprincesa[3]. Assídua leitora, a única, inclusive, na região onde mora, não se sente à vontade com seus pares. É vista como uma outsider pela população dali (na canção inicial, repete-se o coro de que ela é “muito estranha”), sendo constantemente repreendida, e até ameaçada de punição, por ensinar garotas a lerem (isso mesmo, você ouviu bem!). Inteligente, é inventora juntamente com seu pai de projetos científicos e tecnológicos, e deseja uma vida muito maior do que a de uma simples dona de casa. Sim, Bela é uma revolucionária!

Diferentemente de Aurora, Branca de Neve e Cinderela, Bela recusa o “príncipe encantado”, que, nesse caso, se arrasta aos seus pés. Gaston, aliás, é o estereótipo perfeito. Branco, forte, machão, arrogante, machista, é o solteiro mais cobiçado daquele condado da França, acreditando que pode casar com Bela quando quiser, sendo que bastaria apenas insistir (afinal, o “não” da mulher não existe, é só um charme). Intimida-a constantemente, assediando-a em cena que na versão animada não perde em nada para as recentes protagonizadas por Marcos no BBB17, ou por qualquer outro homem que acredita seriamente existir a mulher somente para lhe servir, como um objeto sexual, ou para ser colocada em sua prateleira, como um troféu[4].

Bela, no entanto, que não depende de nenhum homem (e jamais se mostra preocupada com isso), em ato de extrema bravura, encara a Fera e aceita tornar-se sua prisioneira perpétua, libertando seu pai. Destemida, ameaça, até mesmo, fugir pela janela da alta torre do castelo. Ainda, depois de conhecer melhor o “ser repugnante”, a “besta selvagem”, e iniciar um debate de Literatura com ela[5], Bela, ao contrário de outras princesas, desconsidera o exterior e começa a sentir algum afeto pelo conteúdo daquele que lhe é apresentado (novamente, recusando os traços do estereótipo “príncipe encantado”, que estão todos em Gaston).

Ao ter conhecimento do atual estado de seu pai, prestes a ser internado involuntariamente (nos moldes da política higienista de alguns de nossos governantes), ela sai à sua procura. Retornando para o povoado, confirma a versão de seu pai sobre a existência da Fera, mostrando-a a todos através do espelho mágico. Nesse momento, Gaston, típico cidadão de bem, coroa sua participação com um discurso de “Lei e Ordem” mais atual que nunca, de fazer inveja a Bolsonaro, que não faria melhor. Inicia-se uma fala cheia de ódio, repleta de afirmações falaciosas (mas sedutoras), enquanto Bela (calada por ele constantemente, no melhor estilo manterrupting[6]) tenta explicar que aquela “barata”[7], o inimigo da vez, o “outro”, não é nada daquilo que aparenta, e que o verdadeiro monstro seria Gaston. Nesse momento, o bravo guerreiro se utiliza do velho discurso fascista: “Se não está com nós, então está contra nós!”, e ordena que Bela também seja internada. O que é feito imediatamente, sem nenhuma objeção.

Essa cena é realmente chocante, pois os ânimos à flor da pele inflamam toda a população, que de uma hora para outra (após um devido processo legal apurado na velocidade da luz) chega a um veredito unânime, o de matar o criminoso. Aquele que jamais havia aparecido em lugar nenhum, que ninguém nunca havia ouvido falar, mas que certamente iria “aterrorizar a todos”, “comer os seus filhos”, “massacrar a aldeia” etc., e que somente com o seu extermínio “a paz voltaria a reinar e tudo voltaria ao normal”[8]. Impressiona-se, portanto, a real semelhança com os atuais discursos de defesa social proferidos por Datena´s e Marcelo Rezende´s diariamente em rede nacional, e a sua pronta aceitação por grande parte da população. Discursos, aliás, invariavelmente feitos contra o criminoso em si, e raramente contra as reais causas da criminalidade e da violência.

Ressalta-se que Bela também se posiciona corajosamente em defesa da Fera, exercendo o famoso papel da defesa do “um contra todos”[9], brilhantemente explanado por Amilton Bueno de Carvalho, quando leciona sobre o papel do advogado ou do defensor público no processo penal. Depois de toda a multidão marchar em prol da aniquilação do monstro, Bela consegue fugir, chegar ao castelo e, ao fim, demonstrar amor por aquele que todos só tinham ódio.

Assim, destaca-se o conto clássico infantil, em minha opinião, por muitos pontos progressistas. Foge do padrão ao apresentar uma protagonista ousada que encoraja meninas a buscarem ser o que quiserem[10], e, principalmente, ao mostrar um príncipe que possui aparentemente as características de um vilão, e um vilão que possui as características de um príncipe. O vilão, nesse caso, não é uma bruxa má, um mago maligno, ou mesmo um tio que mata o irmão e põe a culpa no sobrinho, o vilão aqui é o bonitão, cidadão de bem, cheio das “brincadeiras” machistas, idolatrado, e que escreveria no face #Bolsomito. Que fique a lição!

Philipe Arapian é assistente jurídico da Promotoria de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público de São Paulo e aprovado no II concurso para Defensor Público de Goiás


[1] Somente outros 13 filmes alcançaram tal feito. Link para reportagem: http://oglobo.globo.com/cultura/filmes/a-bela-a-fera-atinge-marca-de-us-1-bilhao-em-bilheteria-21206648

[2] https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2017/04/10/a-bela-e-a-fera-supera-logan-e-vira-a-maior-bilheteria-do-ano.htm

[3] Bela, na versão live action, chega a afirmar expressamente em uma cena que “não é uma princesa”.

[4] Gaston afirma várias vezes que deseja casar com Bela simplesmente pelo fato de ela ser a mais bonita do vilarejo.

[5] Tal cena só existe na refilmagem. Lembra-se que Bela, na versão original, reclama por não possuir ninguém para conversar.

[6] A palavra é uma junção de man (homem) e interrupting (e interrupção). Em tradução livre, manterrupting significa “homens que interrompem”. Este é um comportamento muito comum em reuniões e palestras mistas, quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor. Link: http://thinkolga.com/2015/04/09/o-machismo-tambem-mora-nos-detalhes/

[7] Recomenda-se veementemente assistir ao 5º episódio da 3ª temporada da série Black Mirror: “Engenharia Reversa”.

[8] As frases são muitas e todas nesse naipe, inclusive, tal cena introduz um dos atos musicais do filme. Link da versão animada: https://www.youtube.com/watch?v=uiaIwLx2C18

[9] http://emporiododireito.com.br/a-protecao-do-um-contra-todos/

[10] Sabe-se da crítica feita pelo fato de Bela, ao final, se casar com um príncipe. Porém, ressalva-se que se trata de um conto de fadas; dessa maneira, acredito que, mesmo com essa crítica (e outras), há muitos pontos positivos para serem ressaltados por tudo que a história apresenta.

Segunda-feira, 17 de abril de 2017
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