102 anos do Genocídio Armênio e o ódio às minorias
Segunda-feira, 24 de abril de 2017

102 anos do Genocídio Armênio e o ódio às minorias

Foto: Reprodução 

Em 24 de abril de 2017 o mundo relembra 102 anos do 1º Genocídio do século XX[1]. O Genocídio Armênio, um dos maiores de toda a História, perpetrado pelo Império Turco-Otomano, vitimou mais de 1 milhão e meio de armênios, sacrificados unicamente pelo fato de existirem. Inúmeros países do mundo já o reconheceram oficialmente[2], no entanto, Brasil, EUA e a própria Turquia insistem em negar a verdade, insistindo no falacioso (e cansativo) discurso de que milhares de mortes ocorreram sim, mas em uma guerra, sem a configuração de um extermínio. Tal discurso acaba por revitimizar todos os armênios do mundo, os seus descendentes e todos aqueles que aspiram por um mundo mais pacífico, justo e solidário.

A cada ano, mais registros são documentados, mais fotos e relatos são encontrados e mais países se juntam à causa[3], restando cada vez mais inverossímil a dissimulada teoria turca. Obviamente que o motivo da negação também é conhecido, uma iminente indenização vultosa e uma possível devolução de quase um terço do seu atual território (parte leste), além do fato de ter que admitir que o nascimento de sua atual nação se deu sob o sangue de milhões de seres humanos[4]. O afamado patriotismo turco certamente ficaria muito abalado.

Além disso, assusta o fato de o Brasil não o reconhecer oficialmente[5], já que seus vizinhos Argentina, Uruguai, Chile, Venezuela e Bolívia assim o fazem (sendo que, com exceção dos dois primeiros, nenhum deles chega perto do número de imigrantes armênios que temos no Brasil). Ligações políticas entre Brasil e Turquia ajudam (e muito!) para que não haja o reconhecimento do Genocídio, vez que uma tomada de decisão nesse sentido poderia significar uma quebra de confiança na relação entre os dois países. No entanto, além desse fato, questiona-se qual seria a razão primordial para que não haja uma real indignação coletiva no país pelo massacre de uma minoria.

Talvez a resposta esteja mais próxima do que se possa imaginar. Há poucos dias, um cidadão folclórico de nome Jair Messias Bolsonaro foi convidado para palestrar no clube Hebraica do Rio de Janeiro. Aliás, convite esse cogitado pela Hebraica São Paulo, mas posteriormente descartado, após grande protesto da comunidade judaica reunindo milhares de assinaturas em uma petição. Embora muita polêmica tenha se formado, a filial carioca abriu suas portas para o deputado, e o resultado foi mais um de seus lamentáveis discursos.

Ressalta-se que ao lado de fora da instituição, respeitável e significativa pressão ocorreu por manifestantes judeus incrédulos pela cena que estava ocorrendo. Um fascista discursando no lar das principais vítimas do nazismo. Incrível mesmo! A instituição se pronunciou posteriormente alegando que preza pela democracia e pela liberdade de expressão, porém a pergunta que não calou foi a seguinte: será que o mesmo convite seria feito a Hitler caso este ainda estivesse vivo?

Das tantas asneiras proferidas por aquele que morre de saudades da Ditadura (e da tortura), e que tem sempre uma “piada” homofóbica, misógina e racista na manga, algumas se destacaram: “Se eu chegar lá, não vai ter 1 centímetro demarcado pra reserva indígena ou quilombola. (…) [Quilombolas] não fazem nada, mais de 1 bilhão de reais por ano gastos com eles. (…) Onde tem uma reserva indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso aí!”. Façamos uma experiência rápida, troquemos as palavras indígenas e quilombolas por judeus e armênios. [Pausa para releitura]. Assustador, não é mesmo?

Os armênios foram vítimas de um Império que chegou em suas terras, invadindo o que não era – nem nunca foi – deles, e que decidiu, por razões extremamente semelhantes às desse discurso, exterminar esse povo. Os argumentos são muito parecidos, direcionando-se sempre aos nacionais que anseiam por melhoras em sua qualidade de vida, e colocando como alvo as minorias, já oprimidas. Os armênios eram uma das minorias, dentro de um Estado que decidiu se voltar somente à maioria. Aproveita-se para relembrar outra famosa fala de Bolsonaro: “Transformaremos o Brasil em um Estado Cristão, e para as maiorias. (…) As minorias se adéquam, ou simplesmente desaparecem”. Mas, então, o que leva parte de armênios ou judeus a gritar “Mito!”, quando esse repete o discurso que matou seus avós e bisavós?

Aquele que não sofre mais nenhum tipo de opressão por sem quem é, ou seja, que exerce livremente sua identidade, cultura e religião, algumas vezes não consegue ter a empatia necessária com os vulneráveis que agora ocupam o lugar que já foi dele. O discurso de ódio, infelizmente, é sedutor, principalmente quando não se está na posição de reprimido. Reprimido, aliás, que ontem foi o armênio, hoje é o índio, o quilombola e o refugiado, e amanhã pode ser você!

Ainda, os armênios são brancos e cristãos, dessa forma, ganham a simpatia daqueles que despejam a sua ira contra negros e muçulmanos, por exemplo. Assim, impossível simpatizar com o discurso de apoio aos armênios proferido há dois anos pelo pastor Marcos Feliciano, se ele repetidamente profere discursos de ódio contra homossexuais, muçulmanos e outras minorias. Que Direitos Humanos é esse, que escolhe com qual ser humano quer simpatizar? Repudia-se tal fala, vez que, no mesmo molde de Talaat Pasha e Hitler, ela se direciona somente para o “cidadão de bem”, aquele que, no local onde se encontra, não sofre opressão por ser quem é.

Empatia é uma capacidade rara e difícil, mas essencial na busca de um mundo com mais amor e respeito às diversas formas de opinião e de identidade. O genocídio armênio ocorreu no passado, mas quantos não ocorrem hoje com a nossa conivência e indiferença, vez que só nos importamos com aquilo que nos é mais próximo? Rechaçar o discurso de Bolsonaro é necessário, não só pelas minorias atingidas por ele (como normalmente ocorre), mas pela maioria para quem ele tanto fala. É preciso entender que somente quando nos solidarizarmos realmente com o “outro” é que poderemos, quem sabe, começar a caminhar em direção a um mundo melhor. Até lá, repetiremos esse discurso tão clichê, selecionando apenas determinadas pessoas que estarão autorizadas a participar deste mundo.

Philipe Arapian é assistente jurídico da Promotoria de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público de São Paulo e aprovado no II concurso para Defensor Público de Goiás


[1] Para maior conhecimento sobre o que foi o Genocídio Armênio: http://www.justificando.com/2015/04/23/genocidio-armenio-mais-um-genocidio-que-o-brasil-finge-nao-ver-2/

[2]Países que já reconheceram o genocídio armênio: Alemanha, Argentina, Armênia, Bélgica, Bolívia, Canadá, Chile, Chipre, Curdistão, Escócia, Eslováquia, França, Grécia, Holanda, Itália, Líbano, Lituânia, País Basco, Polônia, Rússia, Suécia, Suíça, Uruguai, Vaticano e Venezuela. Vale ressaltar que, embora os EUA não o reconheçam, 43 dos 50 estados americanos o reconhecem. Além disso, dentro do Brasil, os estados de São Paulo, Paraná e Fortaleza também já reconheceram. E, por fim, há uma lista enorme também de organismos internacionais que já o fizeram, como o Tribunal Permanente dos Povos, o Parlamento Europeu e o Mercosul (para acessar a lista completa: http://www.genocide-museum.am/eng/international_organisations.php).

[3] Recentemente, a Alemanha em 2016 reconheceu oficialmente o Genocídio Armênio. Link para reportagem: https://noticias.terra.com.br/alemanha-reconhece-genocidio-armenio-e-irrita-turquia,ed6faafee551a77eb19b88c55268627cmsoxqtt9.html

[4] Impossível se esquecer dos milhares de assírios e gregos que também sofreram demasiadamente nas mãos do Império Turco-Otomano.

[5] Em 2015, o Senado brasileiro aprovou um voto de solidariedade ao povo armênio; contudo, nada que indique um reconhecimento oficial por parte do Estado brasileiro. Link da reportagem: http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/06/02/senado-aprova-voto-de-solidariedade-ao-povo-armenio-no-centenario-de-genocidio

Segunda-feira, 24 de abril de 2017
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