Baleia azul: considerações à luz da Psicologia Junguiana
Quinta-feira, 27 de abril de 2017

Baleia azul: considerações à luz da Psicologia Junguiana

A baleia é um símbolo do inconsciente. Quando, na Bíblia, lemos que Jonas foi engolido pela baleia e lá permaneceu durante três dias e três noites – números também profundamente simbólicos –, é necessário compreender a metáfora. Três dias e três noites no ventre da baleia é imagem que simboliza um profundo mergulho no inconsciente. Jonas, no relato bíblico, tentara fugir da luz. Como consequência, mergulhou no sombrio fundo do oceano e no ainda mais sombrio ventre da baleia, aonde nenhuma luz pode chegar.

O azul é uma cor misteriosa. No céu claro, parece a cor da vida. Mas frequentemente é associada à tristeza e à morte. No mundo da informática, fala-se na “tela azul da morte” para fazer referência a um grave erro de sistemas operacionais. Em inglês, quem está profundamente triste diz que está se sentindo blue, azul.

A baleia azul é uma imagem que une esses dois pontos. Simboliza o profundo inconsciente humano, aonde nenhuma luz pode chegar. E simboliza também a tristeza absoluta, onde não há qualquer alegria. É uma forte imagem que se aplica a quem se vê em estado depressivo: um mergulho profundo no inconsciente sem qualquer alegria, qualquer luz, qualquer ânimo.

Curiosamente, as teorias de Carl Jung nos ensinam que os abismos profundos escondem silenciosas promessas de gloriosas redenções. O inconsciente traz tesouros ocultos, Jung diz. As maiores árvores só alcançarão os céus paradisíacos se suas raízes mergulharem profundamente até as regiões infernais. O herói é o que desce, mas depois consegue subir. O herói é aquele capaz de encontrar a redenção onde não parece haver qualquer esperança.

É a jornada de Cristo, que passa pela infernal via crucis, mergulha na morte e, depois, ressuscita gloriosamente. É a jornada de Jonas, que desaparece também por três dias e três noites para, depois, chegar a Nínive e cumprir sua missão. Foi a história do próprio Jung, que por três vezes mergulhou profundamente no próprio inconsciente, flertou com a loucura, para, ao final, ressurgir e construir uma das mais belas teorias que a humanidade já conheceu.

Não é fácil voltar. O jogo da baleia azul é uma mão que faz o possível para que Jonas jamais retorna à superfície. É a vitória da loucura. É a vitória da morte. São as tantas vidas que sucumbem ao inconsciente, sem conhecer a glória da redenção.

Treze razões, culpados e redenções

Digo desde logo: é importantíssimo que as condutas terríveis, o bullying, os abusos e tudo aquilo que deixa marcar profundas demais, no corpo e na alma, sejam devidamente denunciados e repudiados. O valor de apontar culpados está aqui. E é, sem dúvida, grande o valor.

Mas, se voltarmos os olhos ao indivíduo sugado para dentro do ventre da baleia, me sinto muito tentado a dizer que, ao menos em um aspecto, o macabro jogo da baleia azul e a eleição de treze ou trezentas razões se assemelham. Pois, em ambos os casos, a responsabilidade sai das mãos do indivíduo. E isso solapa qualquer possibilidade de redenção.

O jogo e a eleição de culpados ou razões tentam dizer que a redenção é impossível. As garras do jogo macabro prometem jamais libertar o jogador, até – literalmente – a morte. A eleição de culpas parece querer justificar o pior desfecho possível. Um desfecho trágico de uma história trágica. Mas se ignora que mesmo a mais trágica das histórias pode ter um fim glorioso.

Viktor Frankl, psicólogo judeu do último século, encontrou a resposta para suas mais profundas questões vitais quando vivia em Auschwitz, já certo de sua morte. O mais profundo dos abismos. O inferno terrível. A escuridão do ventre da mais azul das baleias. E lá encontrou seu heroísmo. Claro: raros são como Frankl. Mas ainda mais raros serão como Frankl se acreditarmos que casos como o de Frankl são absolutamente raros.

Nas profundidades insondáveis dos abismos mais profundos, é possível descobrir que se esconde uma promessa insuspeita. Pois todo fim parece esconder a semente de um novo começo.

Sim: que seriados e discussões sirvam a cada um de nós, para que repensemos nossas posturas diante do outro, do diferente, daquele que nos confronta. Mas que seriados e discussões não prestem um desserviço a quem está, hoje, no ventre da baleia.

As tragédias que temos já são suficientes, e não precisamos fomentar outras tantas mais. Em casos extremos, a redenção é, sim, possível, mas para isso é necessário que se acredite que a redenção é possível. É o ato do herói que todos carregamos nos abismos insondáveis do próprio coração. Abismos insondáveis que escondem promessas insuspeitas.

No mais trágico dos solos, a árvore de uma vida absolutamente nova pode brotar. E é assim, e apenas assim, que Jonas retorna à superfície, a genialidade do herói que se reinventa supera a loucura da desintegração, a vida vence a morte e a glória da redenção faz possível ver que o ventre da baleia era, surpreendentemente, uma bênção. Heróis não são aqueles que culpam a vida e sucumbem à morte. Heróis são aqueles que retornam para contar sua história.

Bruno Amabile Bracco é Defensor público do Estado de SP, mestre e doutor em Criminologia pela USP e autor dos livros “Carl Jung e o Direito Penal” e “A Gnose de Sofia”.

Quinta-feira, 27 de abril de 2017
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