Por que provavelmente a Greve Geral não fará governo Temer recuar
Sexta-feira, 28 de abril de 2017

Por que provavelmente a Greve Geral não fará governo Temer recuar

Com protestos presos na narrativa de sempre, dificilmente haverá alguma alteração sensível nos planos políticos e econômicos

Foto: Mídia Ninja

Impossível não acompanhar pessoas envolvidas e empolgadas com a greve geral contra as absurdas reformas trabalhista e da previdência. Posso estar errado, mas digo agora para refletir no futuro porque não consegui dividir o mesmo sentimento de esperança de que a Greve Geral barrará alguma dessas reformas.

Vale dizer que é provável que um evento dessa magnitute possa reverter em um posicionamento oficial, na revisão de dois ou três artigos do projeto de lei, ou ainda na postergação da aprovação dos projetos, enquanto o governo espera a poeira abaixar. O ponto do texto, contudo, é que não haverá nenhuma alteração drástica nos planos da elite política e econômica brasileira, por uma série de fatores que envolvem o modelo de manifestação atual:

1) O Governo de Michel Temer não possui compromisso com o voto e, portanto, com a população. Por mais que governos eleitos tomem decisões contrárias aos interesses de seus eleitores, alguma ações são feitas para agradar ao cabo eleitoral, mantendo-o minimamente satisfeito. Temer não tem esse compromisso e, portanto, não é atingido pelo povo.

2) Esse modelo de manifestação, de colocar gente na rua, foi criminalizado quando rompeu com absoluto pacifismo. Forçado a ser dessa forma, a manifestação pacífica se mostrou insuficiente para o impeachment, PEC 55 e outras pautas. Ou seja, mobilizações em massa como essa são superadas com mais ou menos facilidade pela estrutura que legitima Temer no poder.

3) As manifestações em massa podem – principalmente se houver repressão – produzir excelentes fotos que denunciam o absurdo que estamos vivendo aqui. Essas fotos servem muito se há interesse internacional em denunciá-las. Não há esse interesse de Estados estrangeiros e ficamos a depender apenas do voluntarismo da cobertura internacional das mídias, que não fazem verão se não houver interesse institucional das nações estrangeiras em pressionar o governo a atender as demandas.

4) O que pode surgir de efeito numa eventual repressão seria a elevação da revolta de quem foi atingido e a possibilidade de reflexão dessa pessoa então não querer mais passar por isso sem necessidade e buscar outras formas de reação que sejam mais diretas, algo desestimulado em larga escala pela estrutura do estado, social e midiática, simplesmente por ser forma de manifestação diferente da aceita pelo senso comum. Portanto, pode acontecer, mas é improvável.

5) A mídia brasileira de massa cumpre seu papel na maior cobertura sobre trânsito da história. Faz questão de desinformar e fugir do tema. Por mais que as mídias alternativas tentem fazer algo contra a dificuldade imposta pelo governo, há a dificuldade da mídia que não foi democratizada. Tem gente que sequer possui acesso à internet para acompanhar mídia alternativa, que é limitada até um ponto.

6) Temer governa para 1% e enquanto 99% mantiver uma postura dócil com seu governo, ou ainda no auge da resistência for apenas capaz de reunir pessoas pacificamente que, no máximo, rebelam-se contra vidraças e soldados da PM, vale a pena pagar o custo político do desgaste de passar por uma greve geral sem atender nenhuma pauta. Pacifismo atual só é excepcionado para manifestante se contrapor a peão, ao invés de se contrapor a quem tem, de fato, o poder. O Congresso do 1% precisa apenas dessa legislatura para fazer o que quer e nas próximas eleições conta com a desinformação e compra da vaga parlamentar pelo desequilíbrio financeiro.

7) Facebook, Twitter, Google e afins são plataformas que funcionam na base do ego. Isso significa que quem capitalizou com massagem no ego do curtir, amei e tantos comentários quando comemorou o impeachment ou foi nos protestos do pato, em geral não vai voltar atrás, pois para isso teria que haver uma auto-crítica, algo muito raro nos tempos de hoje. Ou seja, uma vez pato, sempre pato.

8) A autocrítica é algo tão raro que o simples apontamento de que precisa haver o rompimento do modo “oficial” de se manifestar gera críticas como “não é a hora de falar sobre”, “criticar não adianta nada”, “precisamos mobilizar e estimular”, como se o diagnóstico e apontamento em si não fossem algo positivo para melhoramento dos impactos da manifestação. Se há alguma hora para falar sobre, essa é a hora. Precisamos mobilizar e estimular as pessoas a agirem, mas de forma a romper com o status quo e não fortalecê-lo.

9) Por isso, enquanto for essa forma de manifestação pacífica sem autocrítica e a revolta não for pessoalmente contra quem está decidindo com apoio do estrangeiro por essas reformas, e enquanto ela não se libertar da mídia de massa, é realmente improvável que haja algum êxito, que não seja a capitalização política dos organizadores do protesto tão somente, sem qualquer reforma estrutural. Lembre-se, por último, que grupos autônomos que percebem essa limitação são pequenos e sem força política suficiente para elaborar algo em escala suficiente para repercutir no plano do poder.

Entender que há limites não significa que concorde nem discorde da manifestação. É a constatação de uma limitação, apenas. A greve é tudo que temos no momento e as pessoas que desejam ir têm todo direito e dever de assim agirem, pois, em regra, não têm relação ou influência com quem mobiliza o ato apostando no modelo pacifista. A massa das pessoas faz o que pode dentro do limite estabelecido pela esquerda organizada.

Por outro lado, ao perceber a limitação, quem tem o poder de mobilizar e tomar decisões vitais para os protestos de massa também tem a oportunidade de melhorar. Mas, enquanto isso não ocorre, não desmotivo quem está na gana de ir nos atos. Quem quiser ir que vá, que seja um sucesso e que, quem sabe por um milagre, o tirano com 4% de aprovação caia. Entendo que quanto mais gente for, quanto mais vezes as pessoas forem, mais perceberão a necessidade de transcender o que está posto como padrão na forma de reivindicar os direitos. Ir e manifestar-se pacificamente é insuficiente para produzir efeitos drásticos, mas essa reflexão final trabalha com o deserto do real. 

Sinceramente, estou na torcida por quem está no ato, mas com receio e certeza de nada de sensível será alcançado a não ser que o “protesto pacífico” seja superado. Outro modelo, menos pacífico e indireto não só é possível, como também é necessário.

Brenno Tardelli é diretor de redação do Justificando.

Sexta-feira, 28 de abril de 2017
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