Greve Geral: devemos nos preocupar com os dias que se seguirão a partir de agora
Terça-feira, 2 de maio de 2017

Greve Geral: devemos nos preocupar com os dias que se seguirão a partir de agora

Foto: Mídia Ninja

A Greve Geral de 28 de Abril pode recolocar na ordem do dia a necessidade da transformação radical e demonstrar a potência dos afetos ainda mal compreendidos pela esquerda e que circulam de modo disperso no espaço social.  Mas isso é apenas uma hipótese, uma possibilidade; a Greve Geral não apresenta condições de efetividade para uma mudança da política – ou, poderíamos até dizer com maior precisão, para um retorno da política – mas apenas condições de possibilidade. Porque, depois do flagrante sucesso da Greve Geral, o que deve nos preocupar não é apenas se uma manifestação de sucesso é possível ou não, se ela é politicamente efetiva ou não, quantos milhões aderiram ou não, mas sim o que acontecerá nos dias seguintes a ela.

Não à toa essa preocupação é ressoada por Slavoj Žižek, filósofo e psicanalista esloveno contemporâneo bastante conhecido no Brasil. Para ele, o problema não é a revolução em si, mas o dia seguinte à revolução. Tudo bem. Fizemos a revolução, derrubamos o Estado opressor, libertamos as pessoas dos fetiches do Capital e seus grilhões, enfim, das estruturas abstratas de dominação que os submetem.

E agora? O que substituirá o capitalismo? Žižek nos lembra, em algumas de suas inúmeras palestras e livros, do movimento de Maio de 68. Mas também nos adverte sobre sua falência, afinal de contas, Maio de 68, para aqueles que participaram, goza Žižek, restou somente na memória, como um brado pueril de juventude, algo que os franceses hoje relembram sentados em cafés com ar nostálgico, como uma transgressão infantil e inocente, quase idêntica àquela das crianças que, alertadas pelos pais para que não façam algo, o fazem mesmo assim, sob o semblante de uma face desafiadora e trocista de quem quer apenas brincar com fogo, e nada mais. “Nada mudou, mas ao menos nos rebelamos. Enfim, vamos às compras?”

Não podemos repetir os mesmos erros do passado; não podemos ir às ruas, violentar a ordem simbólica do presente e voltarmos às nossas casas para relaxarmos em nossos sofás, televisões, computadores, tablets e celulares; postarmos fotos e vídeos de nossas presenças nas manifestações, frases de efeito e de evocação da importância da luta; incitarmos o ódio e insatisfação enraivecedora dos nossos companheiros (e “inimigos”), para, então, no dia seguinte voltarmos ao nosso ciclo de repetição zumbificante.

Devemos nos preocupar com os dias que se seguirão a partir de agora. Devemos nos indagar se é possível e como construir uma nova narrativa da esquerda que produza e concentre novas forças utópicas. Devemos, urgentemente, recolocar a palavra utopia como o problema e a solução para a concepção de novas ideias. Pois quando reivindicamos mudanças radicais, quando bradamos por rupturas estruturais, quando gritamos pelo fim da desigualdade, da exploração e da colonização da vida pelo Capital, a primeira acusação que disparam em nossa direção é a de que isso tudo é utopia. Como se utopia fosse sinônimo de absurdo ou de impossibilidade absoluta.

Inobstante, as poucas conquistas que tivemos ao longo da história não eram desde o princípio utópicas? E não poupo preciosismo ao usar a palavra utopia num sentido bastante preciso: a ausência de lugar ou o não-lugar de alguma coisa. Mas onde há esta correlação, há tanto uma negação quanto uma afirmação: a ausência é um lugar; o lugar do sem-lugar. Ela é, portanto, um lugar, que aparece em seu sinal invertido, como aquilo que está enquanto não inscrito em seu lugar. A operação de dar lugar a uma ausência não é nada impossível; aliás, a política hoje é justamente isso: a divisão dos lugares e dos não-lugares, um regime de visibilidade dos modos de ser e de fazer e, portanto, de não-ser e de não-fazer. Omnis negatio est determinatio (toda negação é uma determinação), nos revelou Espinoza.

Para toda ausência de lugar, há uma possibilidade infinita de inscrição. A utopia é, antes, um horizonte de infinitas possibilidade, onde a necessidade da contingência reina absoluta. É preciso que façamos disso uma dialética, reconhecendo o que foi inscrito e o que deixou de se inscrever, o que pode se inscrever e o que pode deixar de ser inscrito. A utopia é esse horizonte de expectativas onde tudo e nada é possível. Nesse não-lugar da utopia, no reino da contingência absoluta, o amanhã é incapturável por definição, e cada dia que nasce abre a possibilidade de inscrição desse não-lugar num lugar. E o amanhã não é a continuação de hoje, mas de todos os “ontem” que lhe precederam; não se criam mundos de um dia para o outro.

Sem luta e luto, sem um pouco de esperança, ainda que desesperançosa, sem a assunção da postura catastrófica de que “o pior já aconteceu”, o que vai nos restar é inconformação sem propósito, alienação do mundo e de si e medo do amanhã. Se temos somente isso, então a vida é já a própria morte que não se sabe enquanto tal. É difícil, sim, pensar e esperar um lugar onde a utopia deixe de ser apenas ausência e possa se tornar a luz da presença do dia – e, por definição, deixe de ser utopia. Mas, afinal, quais grandes feitos da história não foram sofridos, difíceis e aparentemente impossíveis?

Avante, sempre. Agir, necessário. Mas antes de agir, também pensemos.

Diogo Mariano Carvalho de Oliveira é mestrando no Programa de Mestrado em Ciência Jurídica da Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, graduado em Direito na Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, graduando em Filosofia na Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP, bolsista de mestrado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e militante do coletivo Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia – CEII.

Terça-feira, 2 de maio de 2017
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