A falsa mudança de quem propõe o retrocesso
Terça-feira, 6 de junho de 2017

A falsa mudança de quem propõe o retrocesso

Por: Grazielle Albuquerque

Nesta semana, que tem como grande evento o início do julgamento, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da cassação da chapa Dilma Roussef (PT-RS) e Michel Temer (PMDB-SP), a Folha de São Paulo trouxe no seu editorial de domingo (4), com expresso “desalento”, o apoio à cassação da referida chapa. A defesa do afastamento de Temer segue ainda a seguinte recomendação: “por ora, o mais importante, com ou sem Temer, é que governo e o Congresso persistam neste rumo, único capaz de nos livrar da recessão e preparar um futuro mais próspero e promissor”. Não há como ser mais explícito. A modernidade nos exige sacrifícios, não importa quem toque o projeto, desde que a empreitada ande e, é claro, os sacrificados sejam os mesmos de sempre.

Contudo, sem entrar no conteúdo das reformas, o ponto em questão é perceber como esse valor da modernidade, atrelado à correção de rumos, à saída da crise e às reformas, tem uma curiosa sensação de revival. Há muito se compara Temer a Sarney, numa espécie de reedição da crise dos anos 80, do mal do vice, daquilo que é anacrônico e deve ser expurgado. Ou seja, anacrônico mesmo é o jeitão de mordomo de Temer, suportável apenas pela sua agenda reformista. Visto de perto em seu discurso sobre o papel da mulher, da família e seja lá mais o que for, Temer, o breve, sempre foi a síntese de um antagonismo que divide sua base de apoio: os liberais do Estado mínimo e os conservadores, em especial a bancada evangélica, que, tendo uma base política mais popular, não podem aderir tanto à cartilha do laissez-faire. Vista sob esse ângulo, talvez nem mesmo a modernidade positivista desse conta de tal arranjo. Ordem e progresso, lembremos o lema!

Os paradoxos não param: Temer é um homem de 76 anos, com histórico de depoimentos conservadores na mídia, que passa a imagem de homem tradicional, mas que queria trazer a modernidade para o Brasil. Essa é outra inconsistência sem par. O discurso de Temer no dia das mulheres era realmente um petardo da modernidade se tivéssemos como baliza a República Velha. Assim, tal qual na política dos governadores, a grande transformação consiste em mudar para permanecer igual, para preservar privilégios e, de forma mais incisiva, retroceder em direitos e conquistas. São reformas atreladas ao status quo. Contudo, as críticas nas redes sociais e os memes são outros elementos a mostrar como essa pretensão “modernizadora” não se sustenta de pé sem uma piada, uma montagem, uma metáfora.

O fato é que agora, envolto em denúncias (que novidade!), Temer deve ser tirado do jogo em troca de alguém mais palatável para terminar a construção da tal “ponte para o futuro”. Vejamos aí a modernidade a ser alcançada. É claro que os conceitos sofrem influência das conjunturas, mas chega a ser irônico que a porta-voz da modernidade seja justamente uma imprensa em meio a uma crise basilar no seu modelo de negócio e em sua credibilidade, em plena era da pós-verdade. Em outros termos: quem nos sinaliza o caminho da salvação precisa antes se salvar.

Na cobertura massiva da crise, quando o governo começou a afundar, há quem tenha voltado seu fogo pesado contra Temer (como as organizações Globo, com a coluna de Lauro Jardim divulgando a gravação de Joesley Batista) e a quem tenha contemporizado até a última semana (como a Folha e o perito que refutava a gravação). Porém, ambos endossam a necessidade das reformas para alavancar o país. Precisamos corrigir os rumos, mudar, nos modernizar. Na verdade, um discurso antiquíssimo que está lá no subtexto da pauta reformista.

Nesse déjà vu, ecoa o recado de que “bom e moderno” é um Estado liberal. Seja lá como for e a que custo for. Uma reinvenção do conceito. O liberalismo na marra, tal qual o general Figueiredo dizendo que prendia e arrebentava quem fosse contra a abertura. Assim, estamos nós de volta ao que não foi e ao que não pode ser pela total falta de compatibilidade entre conceito e prática.

Com uma agenda midiática com pautas que contêm termos como impeachment, “diretas já” e crise econômica, não são de se espantar as brincadeiras e análises que remontem aos anos 80 e aos anos 90 (vejam vocês, tivemos até o Dunga na seleção). Porém, no grande imbróglio que comparações como essa podem gerar, convém lembrar algumas diferenças que falam muito sobre o momento que vivemos. Para citar uma essencial: Temer não é Sarney e não foi uma morte que o alçou à chefia do Executivo. Além disso, tampouco pode se ver algum pudor em diversos setores da sociedade, inclusive de sua base, em sacá-lo do poder em nome das reformas.

Fora toda a sorte de concessões e acordos que promoveu, Sarney tinha em seu background um país em suspenso, preocupado em garantir a abertura democrática. As questões postas agora são outras e, ao contrário, dizem respeito a uma recente ruptura democrática com sérios efeitos para todos (ou quase todos), mesmo para os que insistem em não ver os danos. Há diversas mudanças no tabuleiro: o FMI tem feito declarações públicas revendo sua política recessiva como o necessário e salvador remédio amargo; não estamos na iminência de uma abertura democrática na América Latina; surgiu uma enigmática classe “C” no mercado interno… O cenário é outro, mas o discurso das mudanças parece conter o mesmo subtexto “moderninho”, mesmo diante de um retrocesso institucional imenso.

O curioso é que, de todas as analogias que podemos fazer nessa nossa despretensiosa visita ao passado, a mais deslocada é, ironicamente, a força dos jornais, em especial do impresso, ou do jornalismo no modelo que se costumava seguir. A tiragem dos jornalões minguam, a cobertura com um tom mais crítico fica por conta dos veículos estrangeiros como El País, BBC, Deutsche Welle ou de veículos com formato de coletivos ou pequenos grupos de comunicação como Nexo, Justificando e Jota. Vale lembrar que a mesma imprensa porta-voz das reformas liberalizantes move uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5613), capitaneada pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ), junto ao Supremo Tribunal Federal com o objetivo de restringir os portais de notícias, com capital estrangeiro, de atuarem no mercado brasileiro. Seria uma versão “moderna” da reserva de mercado?

Se folhearmos as páginas da revista Veja durante a campanha presidencial de 1989, não faltarão elementos que façam apelo à juventude de Collor e do Brasil (destaque-se que a eleição de 1989, além de ser a primeira direta após anos de Ditadura Militar, também foi a primeira em que jovens de 16 puderam votar), ao mito da modernidade, ao mercado que deveria se abrir etc. Mas na época o próprio jornalismo era exaltado como uma novidade, um valor da democracia. Junto às propagandas dos bens de consumo da época (o famoso computador Expert, o 3 em 1 Gradiente, o novo modelo do Monza) nas páginas de Veja, Manchete e Isto É Senhor, estavam também rostos como os de Eliakim Araújo, Leila Cordeiro, Sérgio Chapelin, Cid Moreira e outros âncoras sorridentes em suas bancadas. Essa não parece ser mais a realidade da era digital, em que o jornalismo se reinventa diante da pós-verdade. Assim, o mais interessante nessa “volta ao passado” é que ela mais parece uma charada na qual se vende como “novo” um gigantesco retrocesso ao desafio que achávamos ter transposto: o de solidificar a democracia. Aliás, vale repetir: quem enuncia o caminho da modernidade precisa antes se reinventar.

Grazielle Albuquerque é jornalista, pesquisadora do Sistema de Justiça e doutoranda em Ciência Política pela Unicamp.

Terça-feira, 6 de junho de 2017
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