A era dos memes na crise política atual
Quarta-feira, 7 de junho de 2017

A era dos memes na crise política atual

Seria cômico, se não fosse trágico, o estado de irreverência do brasileiro frente à crise em que o país encontra-se imerso. A nossa capacidade de fazer piada de nós mesmos e da acentuada crise político-econômica atual, nos instiga a refletir se estamos “jogando a toalha” ou se este é apenas um “jeitinho brasileiro” de encarar a realidade.

A criatividade de produzir piadas, memes e áudios engraçados expõe um certo tipo de estratégia do brasileiro para lidar com situações de conflito .

“Tira a Dilma. Tira o Aécio. Tira o Cunha. Tira o Temer. Tira a calça jeans e bota um fio dental, morena você é tão sensual”.

Eis uma das milhares piadas que circulam nas redes sociais e que, de forma irreverente, estimulam o debate. Não há aquele que não se divirta com essa piada ou outra congênere; que não gargalhe diante dos diversos textos engraçados que circulam por meio de postagens ou mensagens de celular, independentemente do grau de escolaridade de quem compartilha. 

Eis uma forma distinta de fazer a crítica social ao caos instituído. Seja por meio do deboche e do riso, seja com a testa franzida e o dedo em riste, é de “notório saber” que todas as classes estão conscientes da gravidade da situação e que, por conseguinte, concordam que medidas enérgicas precisam ser tomadas. A diferença está na forma ideologicamente defendida para a tomada de medidas: uns defendem intervenção militar, outros eleições diretas e outros eleições indiretas. 

A “memecrítica” vem como um dispositivo cultural de grande potencialidade político-discursiva, nos processos de interlocução entre pessoas. Essa é uma categoria de crítica social que tem causado desconforto nos políticos e membros dos poderes judiciários e executivos, estimulando, inclusive, tentativas frustradas de mapeamento e controle do uso da internet por parte dos internautas. Aliás, ressaltemos que o Brasil é um dos campeões em produção e veiculação de memes em meio às mídias virtuais.

Foto: Reprodução do site Sensacionalista

 É válido evidenciar que esse tipo de reação irreverente ou manifestação popular sarcástica não é exclusivo dos tempos pós-modernos. Ao fazermos um resgate das narrativas e/ou memórias de períodos históricos de outrora, lembremo-nos do regime militar (entre os anos 60 e 70 do século passado), em que diversos artistas veiculavam músicas e textos poéticos debochados, para fins de protesto e manifestação de indignação contra a censura, as torturas e as mortes ocorridas durante o referido regime.            

Resgatemos, igualmente, que, nas últimas décadas, o uso da irreverência para protestos é alvo de polêmica vivenciada pelo Movimento LGBT brasileiro. Há questionamentos sobre a legitimidade das paradas da diversidade enquanto ato político, em virtude de seu caráter irreverente, ao som de trios elétricos e vestimentas e acessórios multicoloridos.

Essa é uma discussão ainda em disputa no segmento, contudo, não deslegitima um das maiores manifestações de rua do país, e muito menos descaracteriza a seriedade das pautas em prol da livre orientação afetivo-sexual e combate à homofobia. A forma debochada é um caminho para externar descontentamento.

Por outro lado, questionar as contradições presentes apenas por meio da piada, em certo aspecto politizada, não garante mudanças sociais de grande impacto. Sequer se constitui elementar para romper com o status quo; são discursos de resistência, mas não de enfrentamento potencializador de mudanças.

Esses manifestos e/ ou críticas de forma isoladas (ou uníssonas) podem, mesmo sem intenção, relegar aos cidadãos brasileiros um estado de inércia, uma condição de estado permanente de sonolência eterna em “berço esplêndido”. Essa seria uma forma política e não alienada de fazer política, contudo conveniente para aqueles que buscam permanecer na zona de conforto, sem grandes riscos e atitudes mais radicais.

Os manifestos, protestos e/ou passeatas nas ruas e demais enfrentamentos em espaços de poder instituídos ainda são os mecanismos mais eloquentes e potenciais para contrapor discursos e práticas opressoras que contribuem para o caos social. O descrédito com sujeitos políticos não pode ser um estímulo para a neutralidade e/ou passividade política.

O estar neutro para evitar “dores de cabeça” é escolher lado, lado esse que pode ser cúmplice daqueles que oprimem ou exploram. É preciso o tête à tête, o diálogo crítico e reflexivo em casa, na comunidade e demais ambientes socioculturais. Entretanto, um diálogo respeitoso, cordial, que busca a alteridade. Que apresente discordâncias, entretanto respeite a opinião divergente, sem abrir mão da ética e do respeito aos direitos humanos.

Luciano Freitas Filho é doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Membro da Comissão Dom Helder Câmara de Direitos Humanos da UFPE.

Quarta-feira, 7 de junho de 2017
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