Bolsomito e o Brasil mítico da ditadura
Sexta-feira, 9 de junho de 2017

Bolsomito e o Brasil mítico da ditadura

Foto: Reprodução/Agência Brasil 

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ganhou de seus fãs e seguidores o conhecido epíteto “Bolsomito”. O termo “mito” é empregado em alguns contextos diversos entre si na linguagem cotidiana: pode ser usado para adjetivar pessoas pelos seus feitos, a título de enaltecê-las e conferir-lhes certa grandeza histórica, como ocorre por vezes com alguns atletas, e sentido imprimido – creio eu – ao deputado pelo seu fã-clube.

Aliás, é curiosa a apropriação do substantivo “mito” para ser transformado em verbo – “mitar”, termo empregado para identificar feitos considerados grandiosos (o que, em tempos de redes sociais, podem corresponder simplesmente a textões e memes postados com timing preciso). Em outras situações, também se utiliza a palavra “mito” como sinônimo de versão fantasiosa de algo, ainda que popularmente aceita – é o uso que se vê em listas do tipo “mitos e verdades sobre (…)”.

Mas a palavra pode ainda fazer referência a uma forma específica de produção das culturas dos diversos povos: por meio de sua mitologia (do grego mythos – fábula, e logos – tratado, estudo), os grupos humanos ao redor do planeta e ao longo dos séculos vêm elaborando narrativas simbólicas, permeadas de elementos mágicos, sobrenaturais e/ou sagrados, por meio das quais procuram expressar sua interpretação sobre como as coisas do mundo são, e o porquê de serem assim. 

A origem dos seres, da natureza, as razões da vida e da morte são explicados pelas narrativas míticas para perpetuar “fatos” que, embora tenham sido, em tese, perdidos pela memória cronológica, poderiam ser resgatados de um tempo mítico – um tempo em que “o mundo era diferente”, e que não está nem no passado e nem no futuro – e transmitidos pela tradição.

Mitos de povos indígenas que narram histórias para explicar o porquê de sua ligação ancestral com determinada porção de terra, mitos gregos que buscam a compreensão das relações humanas, mitos bíblicos que explicam a origem do mundo na criação do universo, de um homem e de uma mulher um deus único e onipresente são só alguns exemplos da riqueza cultural produzida pela mente humana em sua tentativa de compreender o mundo e organizar seus elementos em uma determinada ordem que faça sentido para aquele grupo. E esse sentido depende, evidentemente, dos valores orientadores vigentes naquela sociedade.

É por isso que os mitos são uma referência cultural tão forte: as narrativas míticas possibilitam transformar as ideias abstratas contidas nos valores morais/culturais do grupo em personagens, situações e lugares, de maior concretude e por isso mais facilmente apreendidas pelo grupo, criando uma noção de identidade pelo compartilhamento desse conhecimento.

No mesmo sentido, colonizações (eufemismo para invasão cultural) sempre tiveram a possibilidade de tirar partido da disseminação (e imposição) de mitos, seja na catequese dos índios na América do Sul, seja no Papai Noel da Coca-Cola (alguém nessas nossas terras tropicais consegue pensar em um natal sem neve e sem decoração vermelha e branca?).

O compartilhamento dos mitos como “verdades que explicam o mundo” conferem uma sensação de pertencimento, de dividir com o seu “semelhante” o conhecimento das coisas “como elas são”- e, em contrapartida, facilita identificar “o outro” que não pertence a esse grupo. Diferentes crenças decorrem de diferentes narrativas míticas, e esse talvez tenha sido um dos principais fatores dos conflitos humanos.

Bolsonaro é um mito

E é aqui que lanço minha reflexão da coluna de hoje: de todas as possíveis acepções para a palavra “mito”, aquela que a descreve como a narrativa simbólica de explicação do mundo e que encerra uma verdade para determinado grupo me parece ser a mais adequada para afirmar (não sem antes manifestar um temor sincero do que direi a seguir) que sim, Bolsonaro é um mito. Exaltar o bolsomito implica a crença maniqueísta em uma narrativa que simboliza a Esquerda e o Comunismo como a Representação do Grande Mal a ser combatido pelo Militarismo, pela imposição da “Ordem” que possibilitará o “Progresso”.

Essa narrativa, para os exaltadores do bolsomito, possui até mesmo um lugar e um tempo míticos: o Brasil do Regime Militar – que, como todo mito, apresenta mínimas variações de versão, tais como afirmar que não havia ditadura, mas sim um Estado de Direito (pois o Congresso “funcionava”), ainda que não democrático (pois não havia eleições) – se em mitos cabem serpentes falantes oferecendo maçãs pecaminosas, por que não caberia um Estado de Direito não Democrático, não é mesmo?Outras variações das narrativas do Tempo Mítico do Regime Militar negam peremptoriamente que tenha havido torturas e desaparecimentos forçados – tudo “invenção dos Comunistas”, esses Cavaleiros do Mal -, enquanto outras versões não negam sua existência, ao mesmo tempo em que insistem na necessidade e na justiça de sua prática.

Mas, independentemente das variantes, há elementos comuns a todas elas: o Brasil Mítico do Regime Militar é quase uma Pasárgada de Caserna, um lugar sem Corrupção, em que reinava a Paz, a Ordem e o Progresso, a Segurança, a Moral, os Bons Costumes. O País do Futebol, a Pátria de Chuteiras conquistando o Tri, a “democracia racial” unindo brancos, negros e “mulatos”(impossível empregar outro termo neste contexto mítico) no mesmo grito de gol. 

 A narrativa mítica, qualquer que seja, depende mais de crença do que de conhecimento, pois conhecer traz o senso crítico que possibilita desconstruir o mito: conhecer o processo de rotação da Terra tira um pouco o encanto das histórias de deuses-sol e deusas-lua, e uma boa meia-dúzia de argumentos de Darwin complicam aquela versão de que Ele descansou no sétimo dia depois de criar O Mundo todo.

Talvez para o Brasil o 7 x 1 em 2014 tenha sido o golpe (opa!) de realidade que acabou de solapar o mito do País do Futebol – não tinha mais grito de gol pra unir ninguém. Mas alguns se uniram em torno da camisa amarela e foram pras ruas com novas versões de narrativas míticas, explicando porque o Brasil era “daquele jeito”, e como “deveria ser”. Para certas vertentes dos grupos que envergaram aquela outrora conhecida como Camisa Canarinho, a narrativa do Brasil Mítico do Regime Militar ganhou força, e se corporificou no personagem de Bolsonaro – aqui, mais bolsomito do que nunca.

O curioso (ou apavorante) dessa canhestra produção cultural é o quanto os valores que organizam os fatos e o mundo dessa forma, que torna a direita política sinônimo de repressão e violência, e que endeusam uma certa “Ordem e Progresso” na defesa dos “Bons” Costumes , ainda que a custo de vidas humanas e da própria democracia, imprimem sentido para jovens que nasceram depois do tetra – quiçá do penta! -, que cresceram no auge do sucesso do Plano Real, sem terem a mais pálida ideia do que foi vivenciar a inflação que mudava de um dia pro outro o preço do lanche na cantina da escola,  e menos ainda do que era ir ao cinema e dar de cara com o formulário datilografado da Censura Federal na tela grande antes da exibição de cada filme. Que não foram obrigados a cantar o Hino Nacional no pátio do colégio sem ter ideia do porquê daquilo ser feito, e nem viam o cotidiano de João Figueiredo na vinheta “Semana do Presidente” no SBT.

Sendo a minha infância contemporânea da Lei de Anistia e das Diretas Já (as de 1984, bien entendu), não vivenciei os anos mais pesados da repressão militar, mas essas remanescências dos meus primeiros dez anos de vida, somados a algum estudo de História do Brasil permitiram (a mim e a boa parte de parceiros geracionais) não mitificar uma realidade que não existiu.

O bolsomito parece justamente ganhar força entre esses jovens que jamais viram o Brasil ganhar uma Copa do Mundo (ou pouco se lembram disso). Pesquisa recente mostrou que os potenciais eleitores de Bolsonaro tem entre 16 e 24 anos. E se o mito de Ulisses e a Guerra de Tróia encontraram na “Ilíada” de  Homero seu registro, o bolsomito  vem sendo registrado no chamado “rap reaça”, movimento musical autodeclarado “de direita”, e em defesa da “ordem” e dos “bons costumes”.

Um de seus expoentes, Luiz, O Visitante, de 22 anos consagra esta narrativa mítica em letras de músicas como “Bolsonaro, o Messias” – e é interessante notar aqui que não falta sequer a alusão ao sagrado – e “#Ustra Vive (um rap reaça)”, em que Luiz exalta expressamente o Coronel Ustra, um dos homens sobre os quais recaem talvez as mais pesadas denúncias de tortura realizadas na ditadura militar, e ergue odes de aclamação ao regime militar.

“Bolsonaro, o Messias”:

“#Ustra Vive (um rap reaça)”:

Não encontro respostas – vislumbro, no máximo, indícios – do porquê pessoas tão jovens se sentem tão mobilizadas e identificadas com personagens, narrativas e valores tão violentos e autoritários, embora continue a acreditar (e cada um com sua crença) que o conhecimento histórico e o debate crítico sejam capazes de apontar as fissuras, incoerências e incompletudes dos mitos, quaisquer que sejam eles.

Mas o processo de desmitificação traz o questionamento e o poder da crítica – não é coincidência que entre tantos exaltadores do bolsomito haja engajados no projeto “Escola Sem Partido”. A continuar a consolidação dessa versão sobre o mundo, temo viver pra ver o slogan “2018: Bolsonaro Presidente e o Hexa na Copa”. Mito ou profecia?

Maíra Zapater é Doutora em Direito pela USP e graduada em Ciências Sociais pela FFLCH-USP. É especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo, Professora e pesquisadora. Autora do blog deunatv.

Sexta-feira, 9 de junho de 2017
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