Tortura com tatuagem a jovem causa repulsa: “imagine se seus erros fossem tatuados?”
Segunda-feira, 12 de junho de 2017

Tortura com tatuagem a jovem causa repulsa: “imagine se seus erros fossem tatuados?”

“Imagine você ter tatuado na testa todas as merdas que fez na vida. Enquanto querem a punição eterna, o texto bíblico de Jeremias 31:34 conta-nos algo totalmente diferente: “diz o Senhor: lhes perdoarei a sua maldade e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”. Todo mundo dá um mole na vida – e para alcançar a maturidade e a mudança de comportamento é preciso dar tempo ao tempo. Deus tem paciência; alguns cristãos, não” – afirmou em suas redes sociais Wagner Francesco, teólogo com pesquisas em Direito Penal e Processual Penal.

A reflexão de Francesco foi parte de ampla comoção em repúdio à tortura de um jovem por dois homens, que foram presos em São Bernardo do Campo, após divulgarem na internet um vídeo em que eles tatuavam a inscrição “eu sou ladrão e vacilão” na testa da vítima de 17 anos acusada por eles de ter furtado uma bicicleta. Além disso, cortaram o cabelo para assegurar que a frase ficasse exposta. O jovem foi encontrado dias depois. Ele nega o crime e a família contou de seus problemas com a dependência química.

No âmbito jurídico a comoção foi grande, uma vez que é muito comum lidar na advocacia com pessoas de várias classes sociais acusadas de terem cometido crimes. O Advogado e Professor Livre Docente de Processo Penal da Faculdade de Direito da USP, Gustavo Badaró, fez uma reflexão que repercutiu nas redes. O Professor imaginou como seria se cada conduta moralmente reprovada feita vez ou outra por pessoas de classe econômica mais favorecida fosse tatuada na testa e concluiu: no meu caso, diria: para mim ia faltar testa!

Para a ativista do movimento negro Stephanie Ribeiro, violências como essa sempre aconteceram, mas a diferença é que as pessoas se sentem mais à vontade para tornar pública a barbárie nas redes como forma de demonstrar poder e ideias – “O Brasil já tem em média um linchamento por dia, já estamos no topo dos índices de violência doméstica e temos dados que apontam que para cada 100 assassinatos 70 das vítimas são negras, comprovando o genocídio. Já vivemos a barbárie, agora as pessoas só tornam público como uma forma de demonstrar seu poder e ideias”.

“É assustador ver que um menino menor de idade foi torturado por suposto roubo de a bicicleta. É assustador a raiva nos comentários da vakinha feita para auxiliar esse jovem na remoção da tatuagem. É assustador como o fascismo ganha forças em cima da vulnerabilidade de negros, pobres, doentes mentais, deficientes físicos, mulheres, e as pessoas defendem como sendo liberdade de expressão” – completou Stephanie, que atuou intensamente para arrecadar verba para a “vaquinha”.

Organizada pela página Afroguerrilha no final de semana, a arrecadação coletiva conseguiu arrecadar verba para custear um procedimento para retirada da tatuagem na testa e também no tratamento psicológico dele. Em nota, o grupo fez o questionamento inevitável – “como disse aquele Jesus que muitos aí dizem seguir: ‘Quem nunca cometeu um erro, que atire a primeira pedra… Amai o outro como a ti mesmo’. Esse amor era um que transformava, não um que condenava. Você gostaria de ser torturado e ter seus (supostos) erros tatuados na sua testa?”.

Segunda-feira, 12 de junho de 2017
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