Uma sociedade (que se diz) cristã e a vingança
Segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma sociedade (que se diz) cristã e a vingança

Foto: Reprodução 

Imagine você se todas as coisas erradas que você já fez na vida fossem tatuadas em sua testa. 

Imagine você, jovem (a galera do meu tempo, em especial), ter tatuado na testa todas as vezes que furtou bala e chiclete – ou figurinhas do campeonato brasileiro – e etc – de algum supermercado ou barraca de revistas. Imagine tatuado na testa cada vez que você bateu na sua mulher, sonegou imposto, dirigiu bêbado, pagou propina, usou drogas… – a lista é infinita.

Imagine isso na testa, para sempre, mesmo depois de ser transformado, pelo rumo natural da natureza e da vida, quando se tem oportunidades, numa pessoa melhor.

Hoje, século XXI, retornam o discurso de “olho por olho e dente por dente”. Jesus, há milhares de anos, já havia revogado essa estupidez quando disse: 

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau […]” (Mateus 5:38,39)

Não resistir ao mau é não agir com os instrumentos do mau para causar o bem. Nenhuma árvore ruim dá fruto bom, da mesma forma que nenhuma prática má dá resultados favoráveis.

Imagine você ter tatuado na testa todas as merdas que fez na vida. 

Enquanto querem a punição eterna, o texto bíblico de Jeremias 31:34 conta-nos algo totalmente diferente:

“Diz o Senhor: lhes perdoarei a sua maldade e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”. (Jeremias 31:34)

Os tatuadores não quiseram dar uma lição de moral para o jovem, queriam se vingar, exibir-se, extravasar o ranço ruim da alma. Lembro-me de uma história que o Slavoj Zizek conta. Diz ele:

Um antropólogo chegou numa aldeia e perguntou:

– Aqui tem canibal?

E o chefe da aldeia respondeu:

– Não temos mais canibais. O último comemos ontem.

E é assim que funciona essa vingança privada: comemos os canibais para acabar com o canibalismo. Funciona? Claro que não.

Todo mundo dá um mole na vida – e para alcançar a maturidade e a mudança de comportamento é preciso dar tempo ao tempo. Deus tem paciência; alguns cristãos, não.

Wagner Francesco é Teólogo com pesquisa em áreas de Direito Penal e Processual Penal.

Segunda-feira, 12 de junho de 2017
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