Guerra às drogas: reprodução e manutenção da desigualdade sócio-racial brasileira
Quarta-feira, 21 de junho de 2017

Guerra às drogas: reprodução e manutenção da desigualdade sócio-racial brasileira

Foto: Reprodução Agência Brasil 

A atual política de drogas que proíbe apenas determinadas substâncias é conhecida na sociedade pela sua violência, todo mundo concorda que o tráfico de drogas é responsável por grande parte dos homicídios no país. Mas para além da sua produção de violência, a política de drogas tem um alcance muito mais amplo do que retirar vidas, ela reproduz e mantém a desigualdade sócio-racial brasileira, prejudicando o acesso e a qualidade da oferta de serviços como saúde e educação aos trabalhadores, e principalmente para o setor mais necessitado (pobres e negros).

Pois quando acontece um tiroteio que obriga o posto de saúde a fechar as portas em um bairro da periferia de Salvador ou no Rio de Janeiro, são os trabalhadores que ficam sem acessar um direito social.

Os investimentos em saúde pública feito pelo governo brasileiro está abaixo da média mundialO governo destina R$3,80 por habitante a cada dia, ao ano chega a ser de 1.419,84 R$. A média mundial é de US$ 2.800 dólares, (R$ 9.240,00), a cidade de Salvador, por exemplo, investe R$ 0,59 centavos por pessoa ao dia, é a capital que menos investe no país.

No ano de 2012, o jornal A Tarde de Salvador publicou uma matéria em que no bairro de Paripe, os moradores estavam encontrando a Unidade de Saúde da Família fechada em alguns dias, por causa da disputa pelo controle do tráfico de drogas.

Em Abril de 2016 o bairro de Alto de Coutos, também na região do subúrbio, teve o comércio e o posto de saúde fechados após um toque de recolher, dado por traficantes em disputa.

Na cidade do Rio de Janeiro entre os meses de Janeiro e Outubro de 2016, 77 postos de saúde, 32% dos postos da rede de saúde pública, fecharam as portas em algum momento por causa dos tiroteios. O prejuízo acontece ao bem estar da população, porque houveram 380 paralisações, reduzindo o acesso ao serviço, como também um prejuízo econômico, pois o custo por dia para manter um posto funcionado é de 32 mil reais, que dá uma estimativa de 12 milhões de reais.  A união entre baixo investimento em saúde pública e a paralisação do serviço, contribui para piorar ainda mais a sua qualidade.

A educação pública também é atingida pela política de drogas. Uma operação policial na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, levou a suspensão das aulas, atingindo 8 mil alunos. A cidade também teve suspensão de aulas no Complexo do Alemão e no Complexo da Maré, onde 29 instituições fecharam as portas, deixando sem aulas 7 mil estudantes. O que reforça ainda mais a oferta desigual de educação, aumentando a precariedade da educação pública.

Esse ano nós tivemos o caso da adolescente Maria Eduarda, que foi alvejada e morta dentro da Escola Municipal por três tiros enquanto realizava aula de Educação Física, em meio uma ação policial contra o tráfico de drogas na Zona Norte do Rio de Janeiro.

No dia 17 de Maio foi publicado um levantamento feito pela Secretaria Municipal de Educação, em que dizia que até aquela data, nos 65 dias letivos de aula, apenas em 6 dias todas as Escolas tiveram aula. E assim se constrói a meritocracia brasileira, se as crianças pobres conseguiram desviarem das balas, quem sabe elas vão estar preparadas para disputar uma vaga na universidade pública ou no mercado de trabalho.

No perfil do facebook chamado “Maré Vive” foi postada uma foto de uma criança com a farda da Escola Municipal, junto com o texto que era o desabafo do pai dela, demonstrando como a criança fica revoltada quando ouve tiroteio na favela, porque sabe que não terá aula.

E a barbárie provocada pela guerra às drogas está sendo tão naturalizada, que 40 professores que atuam em Escolas situadas em regiões de conflito receberão treinamento de proteção em zona de guerra, por um programa do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

No mês de Maio de 2016 as Escolas Municipais do bairro da Mata Escura, aqui em Salvador, também foram fechadas por causa de um toque de recolher, após uma operação policial que acabou com a morte de um traficante.

O sistema de transporte público na cidade de Salvador sofreu com as consequências da política de drogas, em vários bairros os trabalhadores foram prejudicados, não tiveram acesso ao direito de ir e vir ou ele foi reduzido, com os ônibus deixando de rodar nos bairros ou fazendo um trajeto menor. O que é ruim para as condições de vida daqueles que estão voltando de uma jornada de trabalho, e que ainda enfrentam um trânsito que fazem as pessoas perderem horas da sua vida.

Os bairros do IAPI, Santa Cruz que por duas vezes em 2016 ficou sem serviço de ônibus, Mata EscuraPero VazValériaParipe, os moradores do bairro do São Gonçalo do Retiro, no Cabula, protestaram por causa da suspensão da circulação dos ônibus, depois da morte de um jovem em uma ação policial.

Na televisão os jornais da Rede Bahia deram importância a quantidade de ônibus que foram queimados na cidade nesse ano de 2016, dando ênfase de como isso causava um prejuízo financeiro aos empresários, e prejudicava a população com a redução dos ônibus, mas não abordava que por detrás dessas ações, estava uma reação da população da periferia de Salvador à violência Policial, sobretudo das ações de combate ao tráfico de drogas.

A política de guerra às drogas promove uma verdadeira negação de direitos!

Henrique Oliveira é graduado em História e mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

Quarta-feira, 21 de junho de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend