Aos medíocres, é ameaçador que alguém lhes desafie o lugar-comum onde passam a vida
Sexta-feira, 23 de junho de 2017

Aos medíocres, é ameaçador que alguém lhes desafie o lugar-comum onde passam a vida

Foto: Ministério Público de São Paulo. Reprodução/Google Maps

Quarta-feira, pouco mais de 19h. 22 de junho. Neste momento, em uma sessão de julgamento, estou sob um massacre jurídico-moral. O Procurador de Justiça, a quem sempre tratei com lhaneza (tinha-o na conta de um homem educado), me “bateu” muito.

Ele é efetivamente educado, até que ocupa a cadeira de Procurador de Justiça, que o torna um predador, um homem estupido e que se move com preconceitos e chavões de pequeno-burgueses. A ele, no seu mundo interno, não lhe atinge nenhuma função legal, estabelecida num concerto republicano. No âmbito de seu mundo interior ele seria um vingador, embora não saiba exatamente de que ou de quem, mas, certamente, experimenta a delícia vulgar naquilo que diz e fala sem exatamente se ter de que serviria.

Nada acresce, mas lanceta. Está protegido, blindado e inatingível, além de poder ofender e xingar, pode também fazer o que bem entender, como aqueles meninos que ofendem seus amiguinhos, escondidos sob a saia protetora da mãe.

Quando está fora desta vetusta sala, precisa ter educação, porque deve intuir que, ao igualar-se as pessoas comuns, pode estar sujeito a reações tão comuns quanto. Pode ser confrontado, algo que o desestruturaria, uma vez que se acostumou ao quentinho da proteção da função pública que exerce. Acostumou-se à guarnição dos policiais que o cercam, à civilidade que recebe e que, em geral, não compartilha. Afinal, poucas vezes precisou devolver a civilidade que recebe.

Nunca escreveu nada, não se sabe o que pensa, nem se pensa, nem se pode se dar à descoberta de Descartes, cogito ergo sunt; a ele pareceria uma aventura irresponsável. Não pensar o protege da vida. Aprendeu a repetir lugares-comuns, que lhe rendem elogios dos não-pensantes. Existiria uma confraria dos não-pensantes, onde ele parece ter lugar assegurado. No banquete dos não-pensantes lhe sobra um osso, sempre que se comporta adequadamente à mesa. Um ou outro lhe permitiriam bater palmas, quando chegasse a sobremesa.

Enfim, um homem médio, que se orgulha de sua mediocridade, uma espécie de Bráz Cubas, o anti-herói machadiano. Ele pediu que se condenasse duramente o réu e me admoestou de cenho franzido, afinal, cometi a indelicadeza de questionar a lisura da atuação do Ministério Público, a quem, disse ele, eu deveria admirar incondicionalmente, em função dos mais de trinta anos que o integrei, algo de que muito me orgulho. Aos medíocres, é ameaçador que alguém lhes desafie o lugar-comum onde passam a vida, sem incomodar e sem ser incomodado.

Drummond tentou decifrá-los, sem êxito: “como pode existir um ser, que no existir, põe tamanha anulação de existência?”

Pode, poeta, pode.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway.

Sexta-feira, 23 de junho de 2017
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