Quando a caminhada é dura, os duros morrem no meio do caminho
Sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando a caminhada é dura, os duros morrem no meio do caminho

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“O que é, o que é? Clara e salgada. Cabe em um olho e pesa uma tonelada.

Tem sabor de mar. Pode ser discreta. Inquilina da dor, morada predileta.

Na calada ela vem. Refém da vingança. Irmã do desespero. Rival da Esperança.

Pode ser causada por vermes e mundanas, e o espinho da flor cruel que você ama.

Amante do drama. Vem pra minha cama por querer. Sem me perguntar me fez sofrer.

E eu que me julguei forte! Eu que me senti! Serei um fraco quando outras delas vir.

Se o barato é louco e o processo é lento, no momento, deixa eu caminhar contra o vento.

O que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável? O vento não! Ele é suave, mas é frio e implacável.

É quente! Borrou a letra triste do poeta. Só. Correu no rosto pardo do profeta.

Verme, sai da reta. A lágrima de um homem vai cair. Esse é o seu B.O. pra eternidade.”

(Racionais MC’s – Jesus Chorou)

Esse mês completo dois anos de visitas constantes ao sistema prisional fluminense. Se eu te contar, dos lugares onde andei e das coisas que eu vi, porra. [Porra vagabundo, ó vou te falar, tô chapando. Eita mundo bom de acabar]. Ao entrar nessa empreitada, minha maior preocupação era como não endurecer, como manter minha sensibilidade. Missão cumprida. Mas a que custo?

Não escrevia sobre isso desde agosto de 2015. Me adaptei. Não acuso mais o golpe, mas não consigo naturalizar nenhuma das atrocidades que presenciei nos últimos dois anos. Sensível sempre, frágil jamais. Porém, abandonei a filosofia Rocky Balboa de vida. Não tem a ver com o quanto você consegue apanhar e seguir em frente. Seguir em frente é inevitável, apanhar pode ser opcional na maioria das vezes. E assim vim me esquivando de todas as porradas que o sistema aplicou, mas como dizia outro filósofo do nobre esporte bretão: todo mundo tem um plano até levar um soco na cara. E sexta feira passada, em 26 de maio, eu levei um direto, bem colocado no meio da cara.

Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho. Unidade de regime semiaberto do Complexo Penitenciário de Gericinó. A essa altura, já acreditava estar preparado para qualquer coisa que eu pudesse ver em mais um campo de concentração de Bangu e até um mês após a visita ao Plácido, essa crença seguia forte. 1699 vagas, 3430 presos. A estrutura precária de sempre. A inexistência de qualquer assistência, também vista em todas as outras unidades de cumprimento de pena. Sujeira, umidade, doenças, tristeza e a aterradora sensação de solidão num ambiente superlotado. [Tá abalado, por que veio? Nego, é desse jeito] Um terreno imenso, por onde corpos podiam ser vistos deitados, dormindo sob o sol o merecido sono, tarefa impossível de ser realizada à noite quando recolhidos ao interior das celas lotadas e apodrecidas.

Assim que começamos a falar com os presos do Instituto, na área externa onde ficam até pouco antes do sol ir iluminar o outro lado do globo, o primeiro impacto. Aquela multidão, falando enlouquecidamente, solitários, carentes, abandonados. Apontando feridas. Narrando verdadeiras epopeias trágicas daquilo que deveria ter sido uma vida tranquila e plena, do tipo que ninguém tem mas alguns podem ao menos sonhar. [Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia]

Não que eu tenha me acostumado, mas aprendi a escutar, a viver essa experiência que pode parecer horrível, mas é mais real do que qualquer outra coisa que já vivenciei.

Em meio a esse cenário, comecei a andar pelo terreno assim que me vi livre dos olhares e da companhia dos guardas, eram tão poucos que não poderiam dar conta de acompanhar todos nós. Nesse momento que conseguimos as melhores informações. Nesse momento que tenho as conversas mais honestas. Nesse momento que tenho as experiências mais intensas.

Ao entrar em uma das celas, conduzido pelo braço por um rapaz jovem, com cara de assustado que só me dizia que eu precisava ver o estado do seu companheiro de cela, a preocupação e o medo em seu olhar, eram assustadoramente genuínos. Entrei na cela, andei por entre as comarcas desgastadas, saltando por sobre pedaços de espuma e papelão, que lá são conhecidos como camas, e no meio da cela eu vi Leonardo. Seu corpo era um fiapo, as coxas tinham a mesma espessura das canelas dando um bizarro destaque aos seus joelhos que pareciam pertencer a outra pessoa. No abdômen, marcas vermelhas que só não eram coçadas por falta de forças. O tórax envolto em uma atadura suja que segurava o curativo do dreno pulmonar aberto, em meio aquela nojeira de lugar. Sobre o travesseiro com a fronha manchada de sangue, um rosto apagado e de olhos afundados que não esboçava qualquer reação.

Quando me aproximei, tentou se sentar na cama. Percebi a dificuldade e me abaixei. Ainda não era o bastante. De tão fraco, só conseguia sussurrar. Me sentei no chão, ao lado de sua cama, com uma das pernas esticadas por baixo dela para chegar o mais próximo que me fosse possível. Com o rosto a poucos centímetros do seu, olhando fixo para seus lábios pálidos e ressecados na esperança de conseguir entender o que era dito por leitura labial, eu escutei: Socorro. Por favor. Me ajuda. [Mundo em decomposição, por um triz. Transforma um irmão meu num verme infeliz]

Com paciência e tentando ao máximo demonstrar qualquer sentimento que pudesse fazer aquele homem compreender que eu realmente me importava com ele, escutei toda a sua saga. Pneumonia e tuberculose. Foi para o hospital, recebeu um dreno pulmonar e algum tratamento. Longe de estar curado recebeu alta. Voltou pra cadeia, sentiu-se mal, foi mandado novamente ao hospital para escutar da mesma médica que havia dado alta que não iria interná-lo novamente. E por meses estava deitado naquela cama, definhando, enfraquecendo, acabando. Como uma vela que chegou ao fim, a vida naquele corpo estava se apagando diante dos meus olhos.

Após ouvir e entender sua situação, consternado escuto ele me perguntar: você promete que vai me ajudar? Promete que vai me salvar? [O que fazer quando a fortaleza tremeu e quase tudo ao seu redor, melhor, se corrompeu?]. Se teve uma coisa que jamais consegui fazer nesses dois anos, foi mentir para uma pessoa presa. Especialmente ali, frente a frente, olhando no olho. Que tipo de pessoa eu seria se alimentasse falsas esperanças naquele poço sem fundo de desesperança que é a cadeia? Não consigo. Acho crueldade. Fui sincero. Falei que faria o que estivesse ao meu alcance, mobilizaria o que me fosse possível, mas o alertei da dificuldade que é demandar humanidade de um ente abstrato que se fosse humano seria dos mais mentalmente comprometidos. Estou falando do Estado, para que fique claro. Enquanto explicava isso, mesmo na situação que estava, Leonardo me estendeu a mão.

Esse foi outro aprendizado importante: gente presa, sente cheiro de baboseira e valoriza muito o papo reto. Segurei sua mão com cuidado, pois parecia realmente que eu poderia quebrá-la se não fosse delicado. Usei as duas mãos enquanto olhava fixo naqueles olhos vazios e fundos e antes de me levantar ele me agradeceu. Prontamente falei que não tinha nada que me agradecer pois só estava fazendo o meu trabalho. Leonardo apertou minha mão com a força de uma pluma e fez questão de sussurrar, a muito custo, que estava agradecendo pela atenção e principalmente pela honestidade. Durma com um barulho desses.

A visita foi longa. Exatamente às 17h, naquele campo aberto imenso em Gericinó escutei um grito: Vai fechar a cadeia! Enquanto via aqueles homens se dirigindo pesadamente para suas celas, me encaminhava para a porta mais visada daquele local, a de saída. Voltei pra minha casa. E nos 17 dias que se seguiram mergulhei de cabeça para produzir o relatório desta visita. Havia um prazo apertado, o relatório seria usado numa audiência pública na Costa Rica. Revivi por mais de duas semanas as experiências e transformando em palavras, da forma mais técnica que me foi possível, a descrição de um campo de concentração ativo em 2017. Trabalho realizado! Relatório entregue, bola pra frente que o jogo é de campeonato!

Como muitos outros eventos do último biênio, a imagem do Leonardo ficou na minha cabeça, figurando inclusive num pesadelo que me levou de volta ao Plácido de Sá. Nenhum sentimento novo nisso. Quantas vezes não me choquei, não me frustrei, não me enchi de ódio e de tristeza, não tive pesadelos em diversas unidades, com diversas pessoas reais, revivendo sofrimentos reais nos últimos dois anos? Eu ficaria bem, certo?

Sexta feira passada, recebi uma mensagem que informava o falecimento de Leonardo. Um mês depois de ter sentado com ele e tido essa conversa, ele morreu. Um trem passou por dentro e por cima de mim ao mesmo tempo. Fiquei despedaçado.

Todo mundo tem um plano, até levar um soco na cara. Nunca me senti tão mal por ter razão. Eu sabia que ele estava morrendo.

Eu sabia que por mais que todas as pessoas as quais pedi ajuda tivessem se mobilizado, não haveria tempo de salvá-lo. Mas somente ao receber a notícia de sua morte, que tudo isso que eu já sabia se tornou real, palpável, tangível, ao ponto de me atropelar, de me atravessar.

Ontem, o Leonardo apareceu mais uma vez em um sonho meu. [Durmo mal, sonho quase a noite inteira. Acordo tenso, tonto e com olheira] Dessa vez, estávamos só nós dois naquela mesma cela, ele deitado na cama, eu sentado no chão ao seu lado. Ele sussurrava por socorro e quando eu tentava responder era como se alguém tivesse dobrado um daqueles colchões velhos e podres e enfiado na minha goela. Não conseguia falar. Ele ia pedindo ajuda, socorro, misericórdia, enquanto eu tentava falar qualquer coisa e, além de não conseguir ainda sentia meu pescoço se esmagando enquanto eu sufocava sozinho. Acordei sem ar, aos prantos e sozinho. [Cadê meu sorriso? Onde tá? Quem roubou? Humanidade é má e até Jesus Chorou].

Os últimos dias têm sido de insônia e emoção à flor da pele.

Já foram mais duas visitas depois do Plácido, mas eu tô inteiro, ou pelo menos catei todos os pedaços e tô colando. Sensível sim, frágil jamais. Não é como se eu fosse uma pessoa triste e arrasada a todo o momento. Mas aquilo que presenciei por ter tido a chance de conhecer e conversar com o Leonardo, quebrou alguma coisa dentro de mim que não tem conserto. É como se mais uma cortina tivesse sido posta entre meu olhar e a luz no fim do túnel. Estou a dois passos, do niilismo?

Queria ter conhecido melhor o Leonardo, ele tinha 31 anos, nem sei qual crime o levou para a prisão, mas antes disso preferia saber que músicas ele gosta, qual o seu prato preferido, para qual time ele torce… Não deu tempo. Não tive essa oportunidade. Tive que conhecer o lado trágico da vida através da história dele. Nem sei se ele era mesmo um cara legal ou se era um babaca. E nem vou saber. Mas vou levar como uma tatuagem no meu cérebro aquele olhar vazio e triste e aquele agradecimento sofrido e sincero.

É preciso estar atento e forte, mas sem endurecer. Quando a caminhada é dura, os duros morrem no meio do caminho. Onde quer que você esteja, Leonardo, que seu sofrimento tenha acabado. O nosso por aqui segue. Espero que você agora possa rir. Nós aqui ainda não podemos. Pros que ficam, chora agora, ri depois. Ai, Jesus chorou.

Joao Marcelo Dias da Silva é Estagiário do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro.

Sexta-feira, 23 de junho de 2017
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