Stonewall Inn Reparos: uma história da luta trans
Quarta-feira, 28 de junho de 2017

Stonewall Inn Reparos: uma história da luta trans

Penso em fazê-las renascer há dias. São muitas e, mesmo que não saibam ou que não tenham chegado até aqui com vida, somariam, minimamente, 48 anos.

Os dias de junho estão se despedindo mais uma vez, mas há promessas de que julho será devotado a uma grandiosa divindade das águas. Enquanto ela não se apresenta, pego o escafandro e mergulho nas possíveis origens narrativas que me permitiram ser quem eu sou sem medo de ser.

No primeiro encontro, uma mulher me arrebata.

Marsha é negra e exuberante. Nascera Malcolm, na cidade de Elizabeth, Nova Jersey. Aos 18 anos passou a morar nas ruas de Nova Iorque e apenas em 1966, aos 22 anos, tornou-se legalmente Marsha P. Johnson. Quando perguntei sobre o P., a resposta parecia atacar subliminarmente ao capital e às cobranças binárias de identidade de gênero. Disse-me que o P. do seu nome era de Pay it no mind. Construía suas próprias roupas e seus próprios adornos. Não saia sem eles.

Foto: Reprodução do documentário “Pay it no mind”.

A esta altura, já estamos em 1969 e Greenwich Village está em festa. Marsha fará 25 anos. Ela me apresenta Sylvia Rivera. Sua presença latina dá ainda mais ritmo ao sonho. Ela tem ascendentes na Venezuela e em Porto Rico. A sua história também se transformara através das ruas que ocupou desde os 11 anos, eram o abrigo das muitas que como ela não encontravam amparo em casa. Ali chegavam sem família e, muitas vezes, ainda sem sentido, à margem de qualquer política de assistência e inclusão. Uma falta de tudo que as nutria infinitamente e abria espaço ao acolhimento de cada nova velha história que ali chegava. Receberam a criança e ela foi ‘batizada’ Sylvia.

Foto: Reprodução

Madrugada de 28 de junho de 2017. Alternâncias temporais e espaciais. Escrevo nas primeiras horas desse dia para em breve compor uma coluna de palavras e pensamentos. Ainda estão desconexos.

Volto a 1969, nas mesmas primeiras horas do dia 28 de junho. Errante na cidade de Nova Iorque, cheguei ao número 53 da Rua Christopher e elas estão lá. Marshas, Sylvias e muitas outras. O tumulto era indiciário de que haveria mais uma das batidas policiais rotineiras no Stonewall Inn.[1]

As leis de Nova Iorque e de outras localidades autorizavam a prisão das pessoas que não estivessem com, pelo menos, três peças de roupas apropriadas ao seu ‘gênero’. Não deveriam se ‘travestir’. Essa era uma das muitas ‘condutas’ homossexuais criminalizadas.

Naquela noite seria diferente, não as prenderiam. Os policiais foram cercados dentro de Stonewall e contra eles foram lançadas pedras, lixeiras e garrafas. O muro encarcerou o opressor e em volta dele, as ruas foram ocupadas por Marshas e Sylvias, a quem são atribuídos os primeiros conclames de Gay Power associados ao Civil Rights.

Nos dias que se seguiram, a rede de ocupação dos espaços públicos em torno de Stonewall se ampliou e a série de protestos e de atos de desobediência civil se manteve abastecida. Houve ressonância nas demais lutas em pauta, especialmente no movimento negro e nos apelos pelo fim da guerra do Vietnã.

Rapidamente fomos a 28 de junho de 1970 e já eram organizadas as primeiras marchas em celebração ao aniversário dos protestos de Stonewall. Nos anos que se seguiram passaram a acontecer em muitas cidades dos EUA e em vários países do ocidente nessa mesma época do ano.

Foto: Reprodução

O Fluminense (p. 6), que circulou no Rio de Janeiro em 29 de junho de 1976, noticiava um “Desfile Festivo de Travestis” em Nova Iorque:

Os homossexuais de um e outro sexo abandonaram, domingo, o célebre bairro boêmio novaiorquino de Greenwich Village, para celebrar, por assim dizer, sua “festa nacional”, na luxuosa Quinta Avenida. Seguindo um rito velho, já de sete anos, os homossexuais do litoral Este norte-americano comemoram em tal data um aniversário simbólico: o de primeira manifestação pública do “gay power”, vasto movimento de luta contra a discriminação que está afetando os invertidos estadunidenses. Acham-se presentes no desfile todos os elementos interessados: militares de esquerda, que tentam inserir o direito à liberdade sexual em um programa revolucionário, pessoal docente, os pais de homossexuais, os “homos” disfarçados e mascarados sobre carroças carnavalescas e, inclusive, o ‘campesinato’ homossexual, pois numerosos invertidos se organizam em comunidades agrícolas.

Quase me divirto com a notícia do “campesinato homossexual”, mas não posso abandonar meu propósito.

As horas passam em 2017 e me impõem o arranjo de palavras a ser articulado ainda hoje.

Revisito então Marsha e Sylvia. Voltamos a 1970. Elas estão juntas na STARStreet Transvestite Action Revolutionaries. Não há dúvida de que são estrelas de primeira grandeza. Penso em Judy Garland confirmando a hipótese, enquanto cantarola Somewhere, over the rainbow.[2]

Ouvindo-as cantarem juntas, sigo recolhendo referências variadas dos enfrentamentos que se perpetuaram ao longo dos anos. Marsha e Sylvia passaram a disputar espaços de luta também dentro do próprio movimento. Com agendas distintas e por vezes binárias, incompatíveis às demandas transgênero, as explosões de Stonewall não seriam aproveitadas às que deram o primeiro passo e incendiaram os pavios na linha de frente. Os espaços de fala preponderaram no L e no G do movimento LGBT, atendendo mais a quem era “diferente, porém igual”.

Foto: Reprodução

A gratidão de passar esses dias com Marsha e Sylvia e a percepção de que estou em dívida, embaça por inteiro o meu escafandro. Mas, com o tempo, as linhas desse articulado vão se desemaranhando e se tornando mais claras.

Conhecendo Marsha e Sylvia, projeto-me numa profunda sensação de que as usurpei. Irradiaram uma energia vital, renderam narrativas de empoderamento indispensáveis e onde estão agora? Onde eu as tinha guardado?

Elas foram ao front, combatentes da primeira linha. Armadas com seus corpos e suas existências. Pintaram a tez. Enfeitaram a cabeça. Miraram as muralhas de pedra que as cercavam. Ao explodirem as pedras, muitas rolaram sobre Marshas e Sylvias.

A realidade pede passagem. Estou entregue ao fluxo. São muitas passagens de uma mesma realidade.

Dandara dos Santos (Fortaleza, CE) foi espancada até a morte em fevereiro de 2017 e seus algozes divulgaram um vídeo da tortura nas redes sociais. Naquela mesma cidade, três dias antes, Hérica Izidório sofreu traumatismo craniano após ser espancada e jogada de um viaduto. Faleceu após dois meses de coma.

Sophia Castro (Contagem, MG) foi estrangulada por um cliente em 29 de abril de 2017. O reconhecimento do corpo foi realizado pelas colegas com quem morava, mas somente familiares poderiam liberar o corpo no IML. No dia 19 de fevereiro, também em Minas Gerais, Mirella de Carlo foi encontrada morta. Havia uma toalha enrolada em seu pescoço.

No último sábado, 24 de junho de 2017, enquanto em Nova Iorque, São Francisco e em outras cidades do mundo ocidental as paradas da diversidade e do orgulho LGBT aconteciam, Denise Sollony estava em sua casa (Aracaju, SE). Dois homens ultrapassaram os muros de pedra e dispararam cinco tiros contra Denise. Foi assassinada.

Em muitas das notícias por onde estou agora, imagens com nomes de registro seguidos do nome social. Em várias outras, apenas os nomes de registro antecedidos da qualificação ‘travesti’.

Volto a Nova Iorque. Reencontro Marsha, negra e exuberante. Ela me sorriu por longas imagens, vídeos, entrevistas. Ela me veio pelas lentes de Andy Warhol. Divina.

Foto: Reprodução

Vou procurar Marsha P. Johnson, encontro-a submersa. Ela, diferentemente de Stonewall, não materializou hoje os seus 48 anos. Encontrei o seu corpo. Era 1992, poucos dias após a parada do orgulho gay de Nova Iorque. Ela estava no rio Hudson, por 20 anos seu caso foi considerado suicídio. Chego em 2012 para descobrir que finalmente o caso foi reaberto. Assassinato.

Saio das águas com Marsha já sem sinais vitais. Retornando à superfície, trago comigo as águas profundas, mas em esperança. Em espera. Aguardo a divindade de julho.

Revejo a imagem. Limpo as vistas. Ela parece se antecipar nos instantes finais entre o crepúsculo e a aurora de 28 de junho de 2017. A imagem de Marsha por Warhol será Oxum?[3]

Irriga os poros e abre à mente uma percepção de que não me cabe fazê-las renascer. A guia das águas sedimenta os materiais e me reorienta.

Usar o espaço de fala com a medida que a elas cabe neste meu latifúndio. Estender a minha própria tessitura. Deixá-las transpassar elos aos quais eu já deveria estar integrada.

Levada a desencerar ouvidos desde ontem, nas idas e vindas imaginárias e temporais de Stonewall, fiz paragem concreta numa reunião ordinária do Conselho Municipal de Direitos Humanos. Recife, Pernambuco, Brasil.

Ouvi sobre hormônios e transição, sobre violência e educação, sobre religiosidade e afeto, sobre desamparo e medo.

Sai e vieram comigo. Caminharam sem pertença na família, sem amparo em política estatal, sem ir à escola por medo, sem emprego. Estão todas aqui: Marsha, Sylvia, Dandara, Hérica, Sophia, Mirella, Denise.

O dia já está claro, mas falta mais alguém. A última lição. Alguém que ensinou pela falta.

Ouvindo sobre ter direito a ser e não ser, foi marcado o último compasso dessas linhas. No meu simbólico espaço de fala latifundiário, prolixo e burguês, aprendi com o silêncio.

Ela não surgiu com imagens, nomes ou detalhes. Foi assassinada e a família não permitiu que suas amigas fossem ao velório. Vestiram-lhe um terno, sobre a lápide gravaram um nome que não era o seu.

Vilipendiaram talvez sua única conquista. Ser ela.

Ela.

Ser.

O peso chapado de nuvens clareou um escuro amanhecer chuvoso em Recife.

Eu, comodamente, de armário vazio. Fora dele, um confortável teto, muito afeto e um bom emprego. Mas o vazio, foi Ela quem deixou. Todas elas deixaram o conforto vazio e eu realizei a minha ausência de sororidade.

Paro.

Trabalho em reparos.

Foto: Reprodução

Renata Nóbrega é mulher, membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mestranda em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Percebe que o capital rotula, pintando peles de cores e apelidando sexos de frágeis, mas acredita na paleta viva do arco-íris e na força da luta nada frágil do feminismo revolucionário para rearranjar a estrutura dinâmica de gênero e classe.

Compõe a coluna Sororidade em Pauta em conjunto com as magistradas Célia Regina Ody Benardes, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Rose Taveira e Nubia Guedes.

[1] CARTER, David. Stonewall: The Riots that Sparked the gay revolution. St Martin’s Press, 2004.

[2] A atriz é miticamente associada aos protestos de Stonewall Inn, falecendo poucos dias antes dos protestos. Estrelou, dentre outros, A Starn is Born e The Wizard of Oz, sendo deste último a canção referida no texto.

[3]  A referência à santeria e às divindades afro ou mesmo à religiosidade é feita pelos amigos de Marsha, que se reportam a ela como alguém bastante ligada a essas práticas.

Quarta-feira, 28 de junho de 2017
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