A advogada-geral da União
Terça-feira, 4 de julho de 2017

A advogada-geral da União

Foto: WESLEY MCALLISTER/ASCOM/AGU

Era abril, ou maio. Não me lembro o dia exato. Sessão no Senado. A advogada-geral da União ocupava a mesa para fazer algumas considerações sobre o órgão que chefia. Já comecei o dia me pegando surpresa e tomada de felicidade com o letreiro que surgiu na televisão explicando para mim que ela era ela. E eu não a conhecia. Essa surpresa e essa felicidade ainda me são viscerais e automáticas quando vejo uma mulher em um posto de comando.

No meu íntimo, já me envergonho logo cedo pela minha surpresa. Estar surpresa tem um fundo, ainda que inconsciente, de uma certa dúvida da capacidade da mulher que assisto, sim. Heranças muito profundas e que remontam à minha (e à sua) infância, a despeito de toda força feminista intrínseca ao meu ser, ao meu viver. Ser chefe não era “brincadeira de menina”. Brinquei muito de casinha, de fogãozinho, de ser só mamãe dos meus ursinhos e das minhas bonecas. E ouvi muita coisa desencorajadora, muita “brincadeira do menino” desdenhando da dignidade e da capacidade do ser não-masculino.

O androcentrismo de tantos anos ofusca meus olhos do significado daquele letreiro e me faz surpresa naquela manhã. Que ódio.

A advogada-geral da União personifica raridade ainda longe da normalidade, coisa que me ajuda a fazer as pazes comigo mesma, em frações de segundo. Felicidade, ainda que com dor. Ufa. Fico em paz com minhas reações.

Numa reviravolta, penso logo que precisamos mesmo comemorar, alto, a conquista destes espaços. Ainda. Infelizmente. A sessão era bem cedo. Era ao vivo e, apesar de eu já estar pronta para sair de casa, ainda era cedo.

Ela estava ali, na mesa das autoridades importantes, com outros ao seu lado, todos homens. Não só a solidão da parca representatividade de seu gênero naquela mesa a diferenciava dos demais. Também na solidão, por certo, acordou bem mais cedo que seus colegas de mesa naquele dia. Para lavar, secar e escovar o cabelo. Definitivamente, aquele era um cabelo escovado, cujo brilho e pontinhas organizadinhas para dentro entregavam mãos hábeis para aquele ofício.

Até hoje não consigo escovar o meu próprio cabelo. Frustração. O das amigas ou das bonecas eu já conseguia desde cedo. E se você, homem, acha que eu estou me referindo ao simples pentear do meu cabelo, ao invés do pente, a escova, não. Isso eu sei fazer. Tenha paciência! Não venha me subestimar. Escova no cabelo, com secador, não é coisa simples, não. Mas maquiagem, deixa comigo, que eu mato no peito.

Aquela a quem eu assistia, como eu, acordara mais cedo para fazer uma maquiagem, com direito a delineador e toda a paciência e horas acumuladas de treino que um bom traço requer. Para colocar seu colar, seu brinco, seus anéis, seus enfeites.

Ou senão ela pagou a alguém para fazer isso tudo. Geralmente, paga-se, com aquele salário, mais baixo, para tanta coisa a mais. Maquiagem definitiva, quem sabe? Pagou e sentiu dor, então. Sobrancelha impecável também, nota-se. Estava de saia, portanto, depilada. De novo a dor. E ainda, o valor agregado da programação, depilação, com antecedência.

Quem sabe, precisou, ainda, reservar uns minutos para fazer algum lanche para as crianças, para o companheiro, para si mesma, não sei. Para colocar a roupa na máquina de lavar, para fazer a lista do supermercado antes de sair de casa, tirar o frango do congelador para o almoço, tirar o lixo do banheiro, recolher os copos espalhados pela casa, lavar a louça. Pode ser também que não.

Ela tinha as unhas feitas, como sempre tem também a médica que me atende, a arquiteta que fez o projeto do meu escritório ou a juíza ou a promotora de quem já fui estagiária.

Muitas carreiras que ocupam mulheres bem-sucedidas trazem, além de tantas outras, também essa carga, da “boa aparência”. Nessas, e principalmente nas do Direito, da minha área, isso é muito forte. É assim nas audiências, nas repartições, nos congressos, nas reuniões.

Tudo isso, geralmente, fazemos nós, mulheres, aqui do alto (e da dor) que um salto proporciona. Nesse nosso espaço, não fazer jus a essa “boa aparência” dá a impressão de abalo à nossa competência. Estar “impecável”, “bonita” demais, “exagerada”, “indiscreta”, com a saia acima do joelho também parece tirar-nos alguns de nossos merecidos créditos, quase como se a beleza ou uma peça de roupa fosse capaz de roubar-nos, de assalto, a capacidade, a inteligência ou mesmo a dignidade humana. E se a negritude dá o tom da nossa pele, é tudo isso ao quadrado.

Os homens negros ainda sentem um pouco dessa carga. Um terno um pouco menos alinhado já serve de desculpa deslavada para tirar o racismo da passividade agressiva dos olhares de espanto — em virtude do trânsito de negros por lugares outros que não a senzala —, coloca-o no campo das ações, e numa violência escancarada e factível, ainda socialmente legitimada, expulsa o advogado negro do Fórum. Melhor que ele se previna, então, no esforço constante de perseguir esse fluido conceito da “boa aparência”, logo pensa. Mas a ele também não cabe a maquiagem, a depilação, a pinça, o secador de cabelo, o brinco, o colar.

Tudo isso é tempo. E tempo, no universo masculino, dessa grande classe que possui entre seus membros imensa massa que acredita que não foi biologicamente talhada para atividades domésticas, por exemplo, tempo é dinheiro. No feminino não, tempo, esforço perdido é só trabalho sem remuneração mesmo, mais um. Trabalhamos mais, ganhamos menos, notícias de mil anos atrás.

Agora, os homens, sobretudo os brancos, não. Despreocupados, têm mais tempo para dormir seus sonos da beleza, menos esforço para fazer com seus músculos avantajados, menos rituais mandatórios, já mandam tanto mesmo. Já começam o dia, mesmo, ganhando. Os seus culhões e sua tez clarinha formam o combo da presunção da competência, da presunção de dignidade. E com esse combo inseparável e invejável, acordam despreocupados com as ameaças de subtração daquilo que sequer conquistaram. Tomam banho — às vezes, fazem a barba —, terno, sapato, e vão, tranquilos, dominar um mundo, já comandado pelos seus.

E vai a Drª. não passar um batom na boca para ver! “Às favas” com tudo isso (para usar essa expressão que hoje tornou-se adequada até em nossa Corte Superior, por que não aqui?!).

E não me venham com o argumento dos metrossexuais, o dos longos minutos colocando gel, espuma, cera no topete. Que fazer a barba dá trabalho. Não, não é a mesma coisa. Esses são só exemplos do trânsito por esse espaço, a apropriação, por prazer, desse nosso calvário.

É calvário, ainda que eu goste de me enfeitar.

Iara Gonçalves Carrilho é especialista em Ciências Criminais. Graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS. Durante a Graduação, foi bolsista, através de seleção por coeficiente de rendimento acadêmico, do Programa Santander Universidades em parceria com o Governo Federal e cursou um semestre na Faculdade de Direito e Criminologia da Universidade do Porto, Portugal. Advogada. Autora do Livro “A Violência de Gênero Além das Grades”, pela editora Lumen Juris, prefaciado pela Dra. Alice Bianchini, com lançamento previsto para outubro/2017.

Terça-feira, 4 de julho de 2017
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