Mídia e comunicação: a farsa na construção da imagem do Rio de Janeiro
Terça-feira, 4 de julho de 2017

Mídia e comunicação: a farsa na construção da imagem do Rio de Janeiro

Foto: Bruno Itan/Fotos Públicas

Que o Rio de Janeiro é uma farsa, não é novidade para ninguém. É, definitivamente, uma cidade que vive de aparências. Não só das aparências paisagísticas, mas também da autenticidade carioca, que é vendida como um dos melhores produtos da cidade. A colagem desses dois elementos revela uma fotografia demasiadamente comercial.

É sabido que a experiência que esse sujeito autêntico possui com a cidade está diretamente ligada à sua localização geográfica no espaço urbano, portanto, ao seu território, o que nos permite dizer que sujeito social e condição socioeconômica caminham juntos.

Se por um lado as cidades são os geradores da diversidade por excelência, por outro ela é revelada diferentemente a partir de cada classe social em sua localização no território urbano. Marx não está tão ultrapassado. A luta de classes permanece, agora camuflada pelas amarras sociais contemporâneas na qual os referenciais simbólicos ganham destaque e passam a valer como instrumentos para separação das classes.

A educação e o capital cultural passam a ganhar valor de mercado: é especialmente a partir desses referenciais que as disputas sociais e econômicas passam a se dar. Pautado nessa premissa podemos perceber que as representações que criamos da cidade podem flutuar na medida em que esses referenciais são trabalhados sobretudo pelos grandes meios de comunicação.

O Rio de Janeiro viveu um momento único na sua história: em um curto espaço de tempo sediou dois importantes eventos esportivos mundiais: Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016), além de outros grandes eventos. A imagem da cidade passou a ganhar destaque e preocupação singulares por parte das esferas públicas.

O reflexo dessa preocupação e da incorporação da parte marginalizada da cidade dentro do grande projeto de revitalização talvez seja a instauração e especialmente todo o aparato de propaganda realizado a partir da implementação das UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora. Trata-se do projeto de governo do estado do Rio de Janeiro iniciado em 2008 que teve o objetivo de implementar polícias comunitárias nas favelas da cidade, como forma de poder assegurar os territórios que eram ocupados e controlados por poderes paralelos ao Estado.

O fato é que a instalação das UPPs não veio acompanhada de um projeto maior, que poderíamos preliminarmente chamar de planejamento social. A segurança e a paz nos territórios são importantes, não há dúvidas, mas somente isso não assegura o direito de cidadania dos moradores do local.

As UPPs, para além da questão da segurança pública que obviamente é pertinente, estavam, portanto, diretamente ligadas à reestruturação da imagem da cidade do Rio de Janeiro como cidade olímpica. De 2008 para cá, o conluio que se forma claramente entre o Estado (governo estadual e município) com os grandes meios de comunicação é desavergonhado. As propagandas de TV, rádio e imprensa escrita foram corriqueiras ao vender uma cidade que, sabemos, nunca existiu. Pelo menos para a maior parte dos cariocas.

A especulação imobiliária e o alto custo de todo e qualquer tipo de serviço fizeram os moradores migrarem dentro do perímetro urbano para áreas com menor poder de especulação (mas nem por isso baratas). A atuação do governo associada aos grandes veículos de comunicação de massa e às grandes empresas criaram uma cidade fictícia. A problematização maior ocorreu quando a ficção começou a ser reproduzida de tal modo a criar a ilusão de que a cidade estava tomando rumos melhores e entrando no novo período de reconfiguração.

Sabemos que a criação de uma cidade passa, inevitavelmente, pelas interpretações subjetivas que fazemos desse espaço e pela relação que temos, enquanto indivíduos, com o espaço urbano. Questiona-se aqui, portanto, a relação que a esfera pública fez com os grandes meios de comunicação no intuito de construir uma imagem que foi exaustivamente vendida e que, sabemos, era uma colagem.

Parece-nos que especialmente para o olhar do turista, estrangeiro ou mesmo brasileiro, mas que em ambos os casos ocupa um lugar desprivilegiado inerente a essa posição, essa construção teve um poder demasiado forte.

Embora os moradores locais também estivessem sujeitos a essas reproduções, tendemos a acreditar que uma parcela, talvez a minoria, estivesse consciente dos verdadeiros rumos que a cidade estava tomando: sendo transformada em uma cidade de fachada para ser vendida e consumida pelos turistas e pelos grandes empresários, da qual os moradores foram sendo paulatinamente excluídos pelas diversas especulações, inclusive subjetivas, a que foram expostos.

Para preservar a imagem da cidade tudo foi válido.

Dois pesos, duas medidas

Há dois casos de violência ocorridos naquele período que merecem destaque. A seguir faremos uma análise desses fatos a partir da repercussão na imprensa da cidade.

Na madrugada do dia 30 de março de 2013, um casal de jovens gringos (ela norte-americana e ele francês), após pegarem uma van em Copacabana com destino à Lapa, foram vítimas de um sequestro relâmpago seguido de roubo, agressão física e, a mulher, violentada sexualmente. O evento ganhou repercussão na mídia carioca e na mídia nacional e estrangeira, especialmente pelo fato de ter ocorrido a violência sexual.

A reportagem do jornal O Globo do dia 06 de abril de 2013, diz o seguinte:

“A cor de pele já curtida do sol da Praia do Arpoador e o português fluindo fácil, apesar de estar há apenas sete meses no Rio, fez da jovem de 21 anos, uma bela estudante de Relações Internacionais, uma autêntica carioca. Na verdade, a morena é americana. O namorado dela é um francês de olhos azuis, de 22, que também aprendeu rápido o idioma. Para tirar as dúvidas em português, consultava um dicionário da língua daqui para o espanhol, que ele já domina. O destino dos dois se cruzou no Rio, durante um intercâmbio numa universidade carioca, no ano passado. Para o namoro foi um pulo. Cheios de sonhos, ambos pretendiam ficar até julho no Brasil, quando ela terminaria o curso, mas a van do terror passou no caminho deles”.

O tom da reportagem, embora apresentando as informações, cria subliminarmente um clima tropical da cidade do Rio de Janeiro, no qual o estrangeiro residente parece encontrar um lugar ideal para viver. É notório que essa ambientação, como apontado anteriormente, pertence a um determinado grupo situado na zona sul da cidade, pois a realidade do “verdadeiro” Rio de Janeiro difere em muito da imagem apresentada.

Em reportagem do jornal O Globo do dia 02 de abril de 2013, uma leitora diz o seguinte:

“[…] infelizmente, foi preciso acontecer com o casal de turistas para que o caso tivesse tamanha repercussão; quantas outras barbaridades precisaremos nós (brasileiros) suportar até que apareça um turista para fazer com que seja feita a justiça devida”.

O caso ganhou repercussão na mídia internacional, especialmente nos Estados Unidos, país de origem da vítima, o que, de alguma forma, pressionou as autoridades brasileiras a solucionarem o ocorrido de forma mais rápida e eficaz.

Em reportagem do dia 01 de abril de 2013, o jornal O Globo trazia reportagem com o título: Estupro de turista dentro de van gera impacto negativo na imagem da cidade. A reportagem diz o seguinte:

“A pouco mais de três meses de um dos maiores eventos religiosos do planeta, a Jornada Mundial da Juventude, que atrairá centenas de milhares de jovens cristãos para a cidade, a terrível viagem de um casal de turistas americanos a bordo de uma van, que começou na Praia de Copacabana e acabou numa delegacia, expõe a face mais cruel do Rio. […] Além da violência em si, o impacto do crime na imagem do Rio — agências de notícias internacionais replicaram durante toda a segunda-feira os desdobramentos das investigações sobre o caso — é um revés no bom momento vivido pela cidade, impulsionado pelos resultados da atual política de segurança do estado. As reações foram imediatas. […] Ninguém quer um assalto numa van em Bonsucesso ou no Complexo do Alemão, mas em Copacabana, cartão-postal famoso mundialmente?”.

Em reportagem do dia 09 de abril de 2013, o então governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, deu o seguinte depoimento:

“Nossa polícia agiu rápido, prendendo os responsáveis, demonstrando que aqui não há impunidade. Por outro lado, graças a Deus, esse não é um crime comum no Rio e no Brasil. Violência contra a mulher, infelizmente, ainda existe. O Rio está aparelhado com delegacias da mulher”.

Há, porém, uma contradição com os números apresentados em outra reportagem do próprio jornal:

“A escalada dos estupros no Rio também preocupa. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, em 2012 foram contabilizados 6.029 casos, 23,7% a mais do que em 2011 (4.871)”.

Na madrugada do dia 04 de abril de 2013, poucos dias depois do caso da van com os turistas estrangeiros, um jovem foi assassinado na Favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro.

A favela contava com uma unidade Polícia Pacificadora desde janeiro de 2013. Naquele momento não existia comprovações de envolvimento direto de policiais da UPP no caso, embora essa possibilidade permanecesse aberta nas investigações. De todo modo, existem outros casos semelhantes em que se afirma que os assassinatos foram cometidos pelos próprios policiais da UPP. Alguns desses casos ainda tramitam na justiça do Estado.

O caso ocorrido em abril de 2013, no entanto, chamou a atenção pelo fato de ter sido abafado do debate público. As TVs praticamente não noticiaram o caso, e o jornal O Globo, o principal e maior jornal impresso da cidade do Rio de Janeiro, negligenciou completamente o fato. A repercussão do caso se deu basicamente pelas redes sociais e por algumas breves notícias em outros jornais de cunho popular, como o jornal Extra.

Meses após o caso, ainda era difícil encontrar notícia sobre o andamento do processo, em parte, sabemos, pelo fato de se tratar de uma notícia pouco vendável pelos meios de comunicação. Por outro lado, é perceptível um negligenciamento da informação para a sociedade.

Mais uma vez abafou-se o caso no intuito de preservar a imagem da cidade. Na página oficial da UPP não havia informações a respeito desses casos. Chama a atenção, no entanto, perceber que o site oficial da UPP possuía uma versão em inglês.

Cidade para quem?

As situações expostas revelam algo em comum: a preocupação que o Estado (governo e município) tinha em manter limpa a imagem da cidade do Rio de Janeiro, especialmente para o cenário internacional.

Nos casos abordados é visível a preocupação e o trabalho das autoridades na tentativa de se criar uma imagem que não correspondia à realidade. No imediatismo dos grandes eventos, tanto as autoridades como os meios de comunicação da cidade trabalharam em conjunto na construção de uma imagem fictícia.

Investiu-se na cidade do Rio de Janeiro somente em ações que podiam projetar a cidade de forma comercial. O custo que estamos pagando por isso é caríssimo, pois nunca houve um planejamento de longo prazo.

O Rio de Janeiro, historicamente, tem vocação para vender sua imagem a partir de seus cartões postais. A pergunta é: quem usufrui essa beleza vendida e exportada? Os cariocas? Em sua maioria, certamente não. Os grandes eventos contribuíram ainda mais na estruturação do estigma de cidade partida ao reforçar a divisão das barreiras geográficas e simbólicas para os moradores da cidade.

A cidade foi entregue às empresas. Se havia dinheiro, havia sempre algum espaço da cidade que podia ser negociado. A parceria público-privada no Rio de Janeiro ganhou dimensões para além das possibilidades de controle do Estado e muito além dos interesses reais de longo prazo da cidade. As relações econômicas e imediatistas foram os balizadores dessas parcerias.

É importante esclarecer que as fontes usadas na argumentação do artigo foram buscadas propositalmente nos principais veículos de comunicação atuantes no Rio de Janeiro. Em alguma medida isso demonstra a articulação unidirecional que existiu entre as esferas pública e privada, de modo a recriar e vender a cidade do Rio de Janeiro como um modelo.

Na colagem da imagem vendida, as zonas excluídas sequer apareceram, e, quando apareceram, geralmente foram como pano de fundo dos cartões postais, travestidas da autenticidade dos morros cariocas.

Valterlei Borges de Araújo é Doutor em Estudos de Literatura (Literatura Comparada) pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisador. 

Terça-feira, 4 de julho de 2017
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