A luta feminina que começa aos 50 anos: resistir para prosseguir
Terça-feira, 18 de julho de 2017

A luta feminina que começa aos 50 anos: resistir para prosseguir

Foto: Reprodução. A escritora Simone de Beauvoir, a antropóloga Lélia Gonzalez e a pintora Frida Kahlo: ícones do feminismo. 

– Não se preocupe, a infecção urinária é comum na menopausa.

 – Sabe o que é? Você tem muito tempo de casa. Manter você na empresa sai caro. Posso contratar alguém mais jovem por metade do seu salário.

 – Meu filho está com a namorada no quarto. Compramos uma cama de casal para ele ter mais liberdade. Quase não o vejo mais.

 – Mamãe está doente, preciso fazer compras para ela, leva-la no médico, mas ela não me reconhece mais. Está agressiva comigo.

– Se cuida, mulher, ou eu te troco por duas de vinte.

– O casamento virou amizade. Não tem mais sexo.

Frases que a mulher escuta e fala ao se aproximar dos 50 anos. Meio século. Essa marca comemorada quando se trata de tantas outras coisas é para a mulher um mergulho no desconhecido. Hora do balanço, meia idade. O que fizemos? O que não fizemos? O que faremos? O que podemos fazer?

Já houve a infância, o desabrochar da adolescência, o frescor da juventude, o ingresso no mercado de trabalho, as paixões intensas, talvez casamento, filhos – sua possibilidade de ter ou não ter, e pais saudáveis, com quem se podia contar. E tudo agora mudou.

Venho acompanhando essa realidade vivida por muitas mulheres e penso, enquanto meus dias correm e me aproximam dos 50, enquanto o tempo me conduz que, também eu, chegarei a esse momento no qual, ao que parece, te tiram tudo.

Você dorme jovem, valorizada, útil, bonita e segura, e acorda nesse lugar.

“Nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro e por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida.” (1)

E quando o sangue estanca? Chega a menopausa, e a mulher, que na sociedade ocidental judaico-cristã tem sua existência e utilidade limitadas à procriação da espécie e a dar o gozo aos homens, serve agora para quê?

“Tradições indígenas norte-americanas (Bolen, 2005. P.15) veem o climatério e a menstruação como uma transição importante que faz parte dos chamados “mistérios do sangue”; que se iniciam na menarca, quando a jovem menstrua pela primeira vez. Quando ela engravida, passa para a segunda fase, onde o sangue é retido para gerar a nova vida e na terceira fase, quando para de menstruar, o sangue é retido novamente – agora para gerar sabedoria. Nesta tradição, dizia-se que a mulher se tornava completamente madura aos 52 anos, quando então adquiria o status de velha sábia ou grande mãe, zelando não só pela sua família, mas por toda a tribo. Veja aqui que a mulher era preparada para esta etapa da vida e provavelmente ansiava por ela, diferentemente da nossa cultura ocidental onde o sangue retido é dito que sobre à cabeça e endoidece as mulheres” (2).

Fico aqui pensando em tantas mulheres que admiro e que já estiveram ou estão nesse momento de vida e revisito, novamente, a minha.  Serei eu, no futuro, uma “velha sábia” ou alguém que não tem qualquer utilidade na sociedade?

É verdade que a mulher está sempre se deparando com o desconhecido, e isso nos assusta. E a principal razão é porque, na maior parte das vezes, ela está só. E está só porque a mulher tem que cumprir certos protocolos que a sociedade lhe impõe, mas também porque sentir é sempre solitário. E há uma sensação que só você está passando por isso e que, para todas as outras, fortes e bem resolvidas, tudo é muito simples.

Pauta rígida e castradora a que se impõe à mulher. Na infância, se comportar. Na adolescência, se dar ao respeito. Na juventude, ser responsável. No casamento, ter paciência. Na maternidade, ser perfeita.

Dia a dia, a mulher vai sentindo sem poder se revelar. Sente necessidade de liberdade, sente vontade de seduzir, de transar, de ter raiva, de gritar e se descobre, em todo momento, uma mãe imperfeita, um ser incompleto. Esta mulher, quando consegue se aceitar humana, e se perdoa, constrói tudo isso sozinha, pois também nos ensinam que devemos parecer, diante das outras mulheres, aquelas que cumprem seu papel, sem grandes questionamentos.

A competição entre as mulheres é estratégia criada e fomentada pelo patriarcado, porque ela nos enfraquece, nos tira o foco do sentir e nos impõe uma racionalidade, onde não se cria resistência para as mudanças, para a nossa revolução, seja ela individual, seja ela coletiva. Vamos agindo como numa linha de produção, mecanicamente.

E é desse lugar que eu falo hoje, do lugar de alguém que nunca enxergou que aos cinquenta anos vivemos uma reviravolta hormonal, pessoal, física, mas que a sociedade não olha para nós e nós mesmas não nos vemos, até que a situação se imponha.

Nesse exercício de reflexão, tento entender, tento imaginar o porquê disso se dar dessa forma.

Tantos livros, tanta sapiência para ensinar a ser mãe, a ser uma profissional capacitada, saber como se conquista um parceiro, quais são as melhores estratégias para ser boa de cama. Tanta fala para conduzir ao comportamento que a sociedade entende apropriado para uma mulher.

Depois disso, cumpridas as nossas obrigações, o descarte, o esquecimento, o desprezo, a falta de cuidado. Ninguém nos olha, ninguém nos acolhe.

Algumas correm para lutar contra a revelação física dessa situação: tratamentos de beleza, academia, dietas. Outras dizem: não vou me sacrificar, quero usufruir a vida, chega dessa patrulha estética. Parte de nós se recolhe, sublima, se conforma. Algumas, não poucas, precisam recorrer a medicamentos antidepressivos.  Uma grande parte sequer tem tempo ou consciência para esse tipo de reflexão: D. Zefa, por exemplo, trabalha, trabalha e trabalha.

Seja qual for o caminho escolhido por cada uma de nós, ou a falta de escolha imposta pelo sistema, o fato é que o ser mulher, o estar só, o desconhecido, tudo isso nos aproxima, nos identifica, nos irmana. Atravessar esse momento com sororidade nos coloca num espaço de acolhida e de compreensão. Nesse lugar, a trama é tecida a muitas mãos e rostos e afetos. Esse espaço que te diz “Ah, você também?” é fundamental para que se construa um novo lugar de valorização dessas mulheres. Um espaço de resistentes, resistindo. A constatação de que juntas somos fortes.

Foi assim que, altivas, firmes e juntas, as senadoras Fátima Bezerra, Gleisi Hofmann, Regina Souza e Vanessa Grazziotin ocuparam a mesa do Senado em protesto à votação da Reforma trabalhista, no dia 11/07/2017. Ali permaneceram por seis horas, revezando-se com Kátia Abreu e Lídice da Mata, que aderiram ao protesto, ato de luta e resistência.

Interessante ver os comentários dos “colegas senadores”. Nas suas falas percebemos as tentativas vãs de calarem as mulheres: “- Está encerrada a sessão e não tem som, enquanto eu não sentar à presidência da mesa”. – disse o Senador Eunício Oliveira.

O Senador Cássio Cunha Lima afirmou que protesto não se faz dessa forma, que devem ser respeitadas as regras democráticas, respeitando-se opiniões contrárias.

Já o Senador Garibaldi Alves Filho declarou que nunca aconteceu isso, um desrespeito total aos que ali estavam.

– Jamais imaginei que uma cena como esta fosse vista no Senado Federal – indignou-se Cássio Cunha Lima.

No entanto, aos 17 de abril de 2016, dia histórico no qual o mesmo Congresso, em rede nacional nos exibiu um vergonhoso espetáculo, que resultou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff – outra mulher que estava onde, para o patriarcado, não deveria estar – numa, aí sim, cena nunca antes vista, não se ouviu declarações tão eloquentes em defesa da democracia.

Portanto, a surpresa e a reação não passaram pela reforma trabalhista, que ao fim ao cabo, ia ser aprovada, pois tudo já se acertara bem antes, muito menos pela defesa da democracia, sacrificada e esquecida a cada dia nesses tristes tempos.

O incômodo dos senhores senadores ocorreu pelo fato de aquelas mulheres – senadoras já em idade de serem esquecidas – terem ocupado o espaço, a mesa, a cadeira, tomado o microfone, não terem obedecido. Melhor se estivessem em casa preparando o jantar e assistindo novela, no ambiente privado, e não no parlamento.

Ali, aquelas mulheres mostraram ao país, que segue apático diante desse quadro trágico que se apresenta, que em menor número, com menos apoio político, com a mídia tentando manter tudo do jeito que sempre foi, é possível conquistar um lugar, lutar, mesmo que apaguem as luzes e desliguem os microfones. É possível ocupar espaços que se apresentam como masculinos, não obedecer e surpreender.

Os senadores têm razão quando disseram que nunca aconteceu isso, nunca imaginaram isso. Pois lhes digo: passem a imaginar, porque isso foi o que de melhor ocorreu naquele dia em que as mulheres do Senado Federal – não por acaso, somente as mulheres – não entregaram os pontos, defenderam os direitos dos trabalhadores, e foram exemplos e estímulo para que todas nós saiamos também para a luta.

Luta por voz, por espaço público, por direitos iguais. Luta por escolhermos “zelar, não só pela família, mas por toda a tribo”, por nos tornarmos “velhas sábias”.

As mulheres de 50 trazem em seus rostos linhas que contam uma história de alegria, de tristeza, de superação, de luto. São mulheres que, se estão aqui hoje, superaram, ultrapassaram e atravessaram dias tormentosos, perderam pessoas, perderam combates, perderam oportunidades, mas guardam dentro de si, uma potência de vida, sempre pronta a recomeçar. Dilma, Gleisi, Fátima, Vanessa, Kátia, Regina e Lídice nos mostraram isso.

Virginie Despentes, em Teoria King Kong, nos diz o mesmo:

“É claro que é difícil ser uma mulher. Medos, obrigações, imperativos de silêncio, chamadas à ordem que têm durado um bom tempo, um festival de limitações imbecis e estéreis. Sempre estrangeiras que devem fazer o trabalho sujo, fornecer a matéria-prima e abaixar a cabeça… Mas comparado a ser homem, parece uma brincadeira de criança. Porque, finalmente, não somos as mais aterrorizadas, nem as mais desarmadas, nem as mais entravadas. O sexo da resistência, da coragem, sempre foi o nosso” (2).

Termino essa breve reflexão, mas continuo com meus dilemas, porém, mais tranquila, já que trilho meu caminho muito bem acompanhada por mulheres públicas e anônimas. E sempre com Clarice Lispector: “Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei. Por enquanto não sei: só ao me reviver é que vou viver.”(3)

Eis que surge uma questão, agora que me encaminho para encerrar: esse é um texto para o Justificando – mentes inquietas pensam o Direito. Direito com letra maiúscula. Não tem nada de jurídico no meu texto.

Bem, sou uma mulher me aproximando dos 50, já vivi muito do que narrei acima, as linhas do meu rosto contam a minha história. E não pretendo abrir mão do que escrevi. Não vou eu também condenar as mulheres de 50 ao esquecimento, a invisibilidade, tampouco as colocarei como coadjuvantes. Marcarei uma posição pelas minhas companheiras que já vivenciaram os 50, por mim e pelas que virão depois de mim.

Meu texto é um protesto, meu texto é uma fala, que não podemos calar. Não acabamos aos 50. Continuamos vivas.

Por muito tempo ainda faremos pequenas e grandes revoluções, ora silenciosas, ora bem barulhentas. Nesse momento, estamos apenas começando a outra metade deste caminhar, e o nosso renascer merece esse espaço justo e justificado no Justificando.

Juliana Castello Branco é mulher, mãe, foi juíza do trabalho da 12ª Região (Santa Catarina) e atualmente é juíza do trabalho da 53ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro. Associada à AMATRA1 (Associação dos Magistrados da 1ª Região), à ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho)  e  membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). Adora programar e fazer viagens, ler poesias e ouvir MPB. Entusiasta do pensar e fazer coletivos, acredita que a sororidade não vai mais sair de pauta.

Participa da coluna semanal Sororidade em Pauta, em conjunto com as magistradas Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Célia Bernardes, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega e Sofia Lima Dutra. E se você quiser saber mais sobre quem somos e sobre o conceito de sororidade.

(1) Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Clarisse Lispector, Ed. Rocco , 1998.

(2) Teoria King Kong, Virginie Despentes, n-1 edições, 2016.

(3) A paixão segundo G.H., Clarisse Lispector, Ed. Rocco, 1988.

Terça-feira, 18 de julho de 2017
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