Jung, o livro de Jó e a leis
Quarta-feira, 19 de julho de 2017

Jung, o livro de Jó e a leis

Foto: pintura de Jó/Artista desconhecido 1880

Carl Gustav Jung foi um psicólogo suíço cuja importância vem sendo cada vez mais reconhecida. Aluno de Freud, rompeu com o mestre por divergências teóricas relacionadas, basicamente, ao inconsciente e ao papel da religião e do sexo na psique humana. Jung ficou bastante conhecido por ter cunhado termos como inconsciente coletivo e arquétipo.

Uma das principais – e menos comentadas – contribuições de Jung ao pensamento ocidental é apresentada, em enorme medida, em seu livro Resposta a Jó. O livro, que o próprio Jung considera o melhor que escreveu, aborda aquele que talvez seja o mais misterioso tema da existência humana: qual é, afinal, o sentido da vida? Por que existimos? Qual é a razão disso tudo?

O livro percorre vastamente os livros bíblicos, sempre com uma análise profunda e pouco ortodoxa. Analisa, especialmente, a história de Jó – o homem bondoso, caridoso, excelente pessoa, que passa, de repente, a sofrer uma série interminável de verdadeiros castigos divinos. Suas posses, sua família, a saúde de seu corpo, tudo, absolutamente tudo lhe é retirado.

No entanto, Javé (o Deus do Antigo Testamento) não impõe a Jó tantos sofrimentos como retribuição a males por ele praticados, pois Jó era o mais fiel e temente dos seres humanos. Na realidade, Javé impõe tantos sofrimentos a Jó meramente porque o próprio Javé cede a uma provocação barata do Diabo. “Vamos ver se Jó é tão bom assim”, é mais ou menos o que o Diabo diz a Javé. “Em tempos de bonança é fácil ser bom e temente a Deus. Mas quero ver se seus bens forem destruídos. Quero ver se sua família for varrida do mapa. Quero ver se seu corpo padecer das piores doenças”. Javé cede às provocações e impõe a Jó toda sorte de sofrimentos terríveis. Jung chega a dizer que, em alguns trechos bíblicos, Javé e o Diabo debatem sobre que tipos de males afligiriam a Jó como se fossem dois homens atormentados que se reúnem para deliberar sobre quais maldades praticarão contra um cachorro de rua.

Por que Javé, o Deus do Antigo Testamento, age dessa forma? Como pode tão facilmente se deixar levar por provocações do Diabo e maltratar de maneira tão severa, verdadeiramente cruel, seu mais temente e fiel servo? Como pode ser tão irascível e, tantas e tantas vezes, portar-se de maneira absolutamente condenável mesmo para noções humanas de moralidade?

Por quê?

É neste ponto que o livro se torna intrincado, difícil, mas ao mesmo tempo imensamente valioso.

Jung propõe, basicamente, que Javé deve ser encarado, primordialmente, como um fenômeno. Isto é: Javé não tem, a princípio, consciência moral. Sua moralidade, ou amoralidade, choca-se com as noções do ser humano em geral, e de Jó em particular, sobre o que é bom e o que é mau.

A proposição de Jung é assustadora. Não está dizendo que Javé é moralmente superior a Jó e apenas tem uma moralidade que nós, humanos, não podemos entender. Jung diz que Jó é moralmente superior a Javé, pois este é pouco além de um fenômeno amoral. À medida que Jó supera as provações e prossegue trilhando o caminho da retidão moral, Javé passa, mais e mais, a precisar encarar sua própria amoralidade. Chega o momento, enfim, em que Javé não pode mais deixar de contemplar sua própria amoralidade, que se evidencia pela figura reta de Jó.

O que Jung está tentando dizer é que Javé, a princípio fenômeno amoral, precisa do ser humano para desenvolver sua própria consciência. Por meio do ser humano, e por conta do ser humano, Javé é obrigado a olhar para si mesmo, tomar consciência de si próprio e de sua própria amoralidade. Esse é o caminho doloroso, doloroso em demasia, mas apenas assim pode Javé deixar de ser um fenômeno inconsciente e tornar-se, verdadeiramente, Deus onisciente – consciente não apenas de todo o universo, mas também, e sobretudo, de si mesmo.

Esse caminho de desenvolvimento da consciência de Deus através da humanidade é, para Jung, a razão última da existência. Pelos atritos, pelos sofrimentos cotidianos – ou, como no caso de Jó, sofrimentos extremos –, a consciência desperta. Não há outro modo. A vida é o vale da construção de almas, como já poetizou Keats.

Imagem: Reprodução/Pinterest

E o que as leis têm a ver com isso?

O Antigo Testamento, onde se situa o livro de Jó, é marcado por uma infinidade de regras, proibições e castigos. Há incontáveis atritos, muito sangue e imensuráveis cargas de sofrimento. E isso, para Jung, tem uma razão: a inconsciência de Javé ou de Deus.

Para compreender a ideia, é necessário entender quem ou o que é Deus na visão junguiana. A abordagem de Jung, lembre-se, é notadamente psicológica. Nada do que diz está fora do universo psíquico. A mesma ideia se aplica a Deus, que parece ser, como Jung já sugeriu, o próprio inconsciente coletivo.

Deus é tudo aquilo que nos arrebata, nos eleva ou nos derruba sem que nossa vontade possa fazer qualquer coisa. Deus se manifesta no aparente acidente, na aparente fatalidade, nas coincidências (ou sincronicidades) inúmeras, nas doenças, nos dramas, nas fortuidades, felizes ou infelizes. Deus não é uma abstração. É uma realidade concreta, que sentimos, em que pensamos e que se manifesta materialmente – e que, como diz o próprio Jung, nos leva a ter dores estomacais, problemas intestinais, constipações e uma gama infindável de neuroses.

Deus é este fenômeno trágico e maravilhoso, que arrebata cada um de nós. E, justamente por nos arrebatar de maneira tão profunda e contundente, o ser humano acaba, quase inevitavelmente, por viver a vida como se navegasse em mares tormentosos. São as tormentas da própria psique inconsciente, ou, em termos teológicos, as tormentas impostas pelo fenômeno Javé. Assim é que os homens com tanta frequência cedem a impulsos irracionais, inconscientes, sucumbem à completa falta de razoabilidade e, por consequência, colocam-se em atritos sem fim. O sofrimento causado pelo fenômeno inconsciente Javé é inevitável. Muito sangue é derramado. E as leis tentam, ainda que sofridamente, iluminar um tantinho nossos caminhos tortuosos.

As leis em geral, e especialmente as leis penais, são uma muleta, uma bengala de que necessitamos apenas porque nossos passos são demasiadamente inseguros. Se soubéssemos, de fato, por onde caminhar – ou seja: se de fato nos conhecêssemos –, as leis seriam desnecessárias.  Mas, como somos largamente inconscientes e como o próprio Javé é inconsciente, o que resta é tentar, ainda que com toda a dificuldade intrínseca à missão, seguir por aqui ou por ali, trilhar o que se considera correto, bom ou moral e evitar o incorreto, o mau, o imoral.

Nada disso é seguro. Ao optarmos por apenas um lado da vida – o luminoso, em detrimento do sombrio – deixamos de lado nossa integridade. Mas ao mesmo tempo é assim que a consciência dá seus primeiros passos. Jó foi absolutamente firme em seu caminho de retidão, e o próprio Javé precisou reconhecer isso: Jó atingira um nível de desenvolvimento da própria consciência e da própria moralidade que o colocava em posição superior a Javé. E como fez isso? Obedecendo firmemente às boas leis – leis a que Javé, ou o inconsciente, jamais obedece.

A conclusão, aqui, é enormemente similar ao que dizem muitos psicólogos do desenvolvimento moral. É certo que o ser humano pode, idealmente, atingir um nível em que se torna lei para si mesmo. Mas, antes disso, é essencial que aprenda a arte da obediência, de seguir a boa trilha. Sem esse passo, não há desenvolvimento verdadeiro da consciência, e Javé permanece sendo, em nossa psique, nada mais do que um fenômeno largamente inconsciente.

E depois?

É depois que novos passos, muito mais belos, podem ser dados. A luz frágil da lua, apenas refletida, dá lugar ao brilho irradiante do sol. A obediência deixa de ser necessária e a consciência emerge em todo o seu esplendor. A irradiância de Deus pode ser vista de frente. Não mais cisões, sofrimentos, mágoas sem fim, arrebatamentos sangrentos, conflitos, leis incontáveis. Surge agora, no oceano da psique, o Ser Humano íntegro, renascido, simbolizado, em termos teológicos, pela imagem de Cristo – a imagem do homem redimido de todos os seus pecados.

As leis, como diz a passagem bíblica, não são revogadas. São cumpridas em uma oitava superior. Enquanto vigia o tempo da obediência, as leis serviram por serem exatamente como eram. Superados os tempos da obediência, as leis podem dar lugar a um momento novo, superando o antigo: agora, em vez de tempos de regramentos, punições e expiações, surgem os tempos crísticos, íntegros, em que a nova lei se torna – não por imposição, mas por escolha de uma humanidade redimida – o mais absoluto perdão.

Bruno Amabile Bracco é Defensor público do Estado de SP, mestre e doutor em Criminologia pela USP e autor dos livros “Carl Jung e o Direito Penal” e “A Gnose de Sofia”.

Quarta-feira, 19 de julho de 2017
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