Justiça & Liberdade: uma nova coluna semanal no Justificando
Quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Justiça & Liberdade: uma nova coluna semanal no Justificando

Foto: ilustração de Banksy

Lar, doce lar.

Retornar ao Justificando é como voltar para casa. Como Brenno Tardelli gosta de dizer, estou no portal desde o “dia um”, em 06 de junho de 2014.

O texto de hoje inaugura minha terceira “temporada” no Justificando. Escrevi durante muito tempo com o amigo Alexandre Morais da Rosa e depois voei solo por um período de tempo ainda maior, até que minhas forças se esgotassem. Como não conseguia mais produzir uma coluna semanal com a qualidade que gostaria, abandonei temporariamente o portal e passei a participar de modo ocasional. Durante o período de afastamento, escrevi alguns textos e contribui para diversas reportagens com relativa frequência.

Nunca estive realmente fora do jogo. Sabia que estava fadado a retornar e provavelmente não demoraria muito até que isso inevitavelmente acontecesse. Mas como isso seria possível, se as circunstâncias que me levaram a abandonar o portal permaneciam?

Eis a questão que se apresentava. Qual seria o formato adequado para viabilizar contribuições regulares? Não consigo tirar um coelho da cartola por semana (só Deus sabe como o Lenio consegue), mas uma coluna quinzenal não me atraía. Sem regularidade, nenhuma coluna jamais se consolida. O leitor tem que saber que faça sol ou faça chuva, uma nova coluna estará no ar naquela semana e dentro do padrão de qualidade com o qual está acostumado.

Foi então que percebi que a resposta estava diante dos meus olhos: a coluna Contra Correntes serviria de inspiração. Admiro há muito tempo o modelo estabelecido por Rubens Casara, Marcelo Semer, Márcio Sotelo Felippe, Patrick Mariano e Giane Ambrósio Alvares. Sem dúvida, conseguiram algo singular: uma coluna formada por um verdadeiro time dos sonhos e comprometida com a legalidade e a democracia. Recentemente os autores lançaram o livro “Brasil em Fúria”, que reúne os textos publicados na Contra Correntes em uma obra de enorme importância para os terríveis tempos que atravessamos no país.

Pois bem. Estava decidido a imitar o modelo: uma nova coluna semanal com cinco autores em rodízio, o que resultaria na publicação de uma obra conjunta pelo selo Casa do Direito da Editora Letramento, em parceria com o Justificando. Mas como reunir um time de gabarito equivalente? Teria que ser uma equipe arrasadora. Nada menos que isso bastaria, já que o parâmetro estabelecido pela Contra Correntes é tão elevado.

Talvez eu estivesse sonhando alto demais, mas não levei muito tempo para definir os potenciais nomes. Confesso que fui bastante ambicioso: mirei nas estrelas e esperei pelo melhor. Se não aceitassem, eu teria que pensar em outras pessoas ou quem sabe até deixar de lado a proposta. Bons nomes não faltam, mas nem todos teriam interesse ou disponibilidade para participar de uma coluna no Justificando. E eu queria gente boa. Muito boa. Não desonraria a Contra Correntes com uma cópia barata.

Para minha surpresa, não houve uma recusa sequer. Os dominós foram caindo em sequência e com muito mais facilidade do que eu poderia esperar:

Flávio Antônio da Cruz.

Geraldo Prado.

Antonio Pedro Melchior.

Camilin Poli.

Flávio foi uma escolha óbvia. Costumo dizer que não conheço ninguém que esteja lendo tanto quanto ele. Ele dá dignidade ao Facebook. Se alguém perguntar a você porque está no Facebook, diga que é para seguir o Flávio. Melhor álibi dificilmente pode haver. Geraldo foi o tiro mais ambicioso: um dos mais respeitados e relevantes juristas do país. Uma referência ímpar no processo penal e um homem comprometido com a democracia como poucos. Ele dá credibilidade instantânea para a coluna, o que dificilmente seria possível de outro modo. Antonio Pedro Melchior foi uma escolha necessária. Ele é um jovem processualista como formidável faro político e engajamento incomum: sua página “Juristas de Resistência” é um verdadeiro compêndio que cataloga grandes juristas democráticos de ontem e hoje. E ele já escreveu um livro em parceria com Rubens Casara, o que por si só já seria uma extraordinária referência. Finalmente, Camilin Poli. Ela foi orientada por Jacinto Nelson de Miranda Coutinho e é um dos grandes nomes de uma nova geração de processualistas que terá a árdua tarefa de brigar pelas regras do jogo em tempos tão sombrios. Ela completou o time e tornou o que era sonho realidade. E de forma muito mais fácil do que eu poderia imaginar.

Nada mal para um dirigente em início de carreira, não é mesmo? Talvez eu tenha outro ramo a explorar no futuro. Com muito menos empenho do que eu julgava necessário, um novo “dream team” estava montado. Não para desafiar a Contra Correntes, mas para engrossar as fileiras do Justificando em defesa da democracia. Desnecessário dizer que Brenno Tardelli nos acolheu com o habitual entusiasmo. Simplesmente adorou a iniciativa.

Restava apenas uma questão em aberto: qual seria o nome da coluna? Precisávamos de um título forte e que fosse condizente com a identidade sediciosa do grupo. Como não poderia deixar de ser, Geraldo Prado cravou: “Justiça & Liberdade”.

Duas palavras fortes, que dizem tudo sobre quem somos e sobre que tipo de textos pretendemos publicar.

Vivemos tempos de desesperança e descrença na democracia. O Estado Democrático de Direito parece ter sido reduzido a escombros. A democracia pela qual milhares de brasileiros lutaram e morreram no último século parece ter sido perdida de forma irrecuperável. Direitos fundamentais e sociais são destruídos por reformas voltadas para a espoliação de vulneráveis e a verticalização da sociedade. Crucificações públicas em redes sociais se tornaram rotineiras. O ódio é difundido deliberadamente por empreendedores morais disfarçados de comunicadores sociais. Condenações sem provas se tornaram algo rotineiro e aceitável até para ex-presidentes da República. A noção de limite parece ter sido esfacelada: fins espúrios justificam o emprego de meios cada vez mais autoritários. As instituições estão sendo submetidas a níveis de desgaste sem precedentes, por pessoas que se valem delas para atender suas próprias agendas. O futuro parece muito mais incerto e ameaçador do que há alguns anos atrás. O próprio ar parece ter sido roubado de nossos pulmões, juntamente com grande parte dos nossos sonhos mais imediatos.

O país está em ruínas. Nenhuma metáfora parece tão apropriada para descrever o que estamos vivendo.

O cenário nos coloca diante de escolhas irrenunciáveis. Ou capitulamos, ou resistimos. A conivência também é uma forma de capitulação e, logo, não é uma escolha que se apresenta para espíritos inquietos, acostumados a nadar – como os amigos que nos inspiraram – contra a correnteza.

Para quem considera que o atual estado de coisas é inaceitável, a resistência é um dever de consciência. Afinal, tempos sombrios também são tempos de resistência. De estreitamento de laços e de fortalecimento de amizades.

Somos professores. Assim resistimos. Com ideias.

Contamos com você nessa caminhada. Todas as quartas-feiras, aqui no Justificando.

Um grande abraço!

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Palestrante. Escritor de obras jurídicas. Autor de “A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial”, “Discurso de Ódio e Sistema Penal” e da coleção “Justiça Social e Sistema Penal”.

Quarta-feira, 2 de agosto de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend