Lutando pelas palavras: Nazismo é de direita
Terça-feira, 15 de agosto de 2017

Lutando pelas palavras: Nazismo é de direita

Foto: Reprodução. Neonazistas marchando em Charlottesville. 

Depois dos brutais episódios de ódio e racismo em Charlottesville, as redes começaram a se saturar de mensagens questionando se nazismo seria ou não de direta. A resposta inicial e compreensível de muitos de nós diante deste horror cognitivo foi de estupor, de raiva, de impaciência infinita por ter de discutir conceitos que são “óbvios”.

Óbvios? É nesta percepção que radica nosso erro, um erro, aliás, nada trivial.  Acreditem, o que para nós é indiscutível, evidente, para uma grande parte da população fora de nossas bolhas, não é. Essas nossas obviedades são por muitos desconhecidas, ignoradas, questionadas ou negadas.

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Nossa luta se dá, principalmente, no campo dos conceitos, dos significados, das palavras.

“Genocídio dos jovens das periferias”, “feminicidio”, “cultura do estupro”, “esquerda”, “política”, “racismo”…. Nossa luta pelas palavras é diária. A linguagem está em eterna disputa. Se nos furtarmos a esta batalha pela linguagem em nome do óbvio, estamos derrotados.

Por tanto, sim, vamos recuperar a paciência intelectual que todos nós acreditamos ter perdido e vamos a explicar que o nazismo não é uma ideologia de esquerda. Vamos debater ideias, conceitos, até as que nos parecem óbvios, porque é dentro do campo da linguagem onde importantes guerras podem ser perdidas.

Mulher protesta na Washington Avenue contra violência do último final de semana em Charlottesville. Foto: Stephen Maturen/GETTY IMAGES NORTH AMERICA/AFP.

A linguagem é política.  A linguagem pertence ao poder e dele temos que recuperá-la, dele temos que ressignifica-la.

A linguagem não é neutra, inocente, casta, virtuosa, limpinha. A linguagem está carregada de política. A linguagem tem as mãos sujas. As palavras não são “belas, recatadas e do lar”, embaixo delas se esconde toda uma interpretação do mundo. Se quisermos resistir por uma interpretação mais justa, mais igualitária, mas inclusiva, temos de começar a pleitear as palavras.

Não, o que parece óbvio não o é. 

Lutemos pelas palavras. 

Esther Solano é Doutora em Ciências Sociais e professora da Universidade Federal de São Paulo. 

Terça-feira, 15 de agosto de 2017
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