Artesã da vida e dos direitos humanos: Liéje, presente!
Quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Artesã da vida e dos direitos humanos: Liéje, presente!

Foto: Liéje Aparecida de Souza Gouvêia/Reprodução/Prefeitura de Maringá

“O correr da vida embrulha tudo,

a vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem.

O que Deus quer é ver a gente

aprendendo a ser capaz

de ficar alegre a mais,

no meio da alegria,

e inda mais alegre

ainda no meio da tristeza!

A vida inventa!

A gente principia as coisas,

no não saber por que,

e desde aí perde o poder de continuação

porque a vida é mutirão de todos,

por todos remexida e temperada.

O mais importante e bonito, do mundo, é isto:

que as pessoas não estão sempre iguais,

ainda não foram terminadas,

mas que elas vão sempre mudando.

Afinam ou desafinam. Verdade maior.

Viver é muito perigoso; e não é não.

Nem sei explicar estas coisas.

Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor.”

(Guimarães Rosa – Fragmentos de Grandes Sertão Veredas)

Nós, que desde a deposição da Presidenta legitimamente eleita, acreditamos estar nos acostumando a escutar diariamente notícias tristes, vindo dos mais diversos segmentos da sociedade, em claro desrespeito ao Estado Democrático de Direito e aos direitos humanos minimamente conquistados nas últimas décadas, ontem amanhecemos com um novo baque: a notícia da partida precoce de Liéje Aparecida de Souza Gouvêia, uma valorosa companheira e associada da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD).

Liéje era juíza do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná desde 1992 e atualmente atuava no 3º Juizado Especial, Cível, Criminal e da Fazenda Pública de Maringá-PA. Lutou bravamente pela vida e morreu prematuramente aos 57 anos, deixando 2 filhas, após complicações de um transplante renal. 

Você deve se perguntar por que a coluna resolveu homenageá-la se todos os dias brasileiros e brasileiras anônimos morrem, uns inclusive de forma mais brutal e violenta, como é o caso dos jovens negros, que são assassinados a cada 23 minutos. O exercício de Sororidade que aqui nos propomos advém justamente do feminismo negro, que, nos ensina, de forma vigorosa que é urgente que façamos – para utilizar as palavras de Giovana Xavier – nossas próprias escrevivências, na medida em que fomos, por muito tempo, coibidas pela dominação masculina, enquanto mulheres, de registrar a nossa própria trajetória e por isso a história foi costurada ora com inverdades, ora com lapsos, sobre nossos reais feitos.

Retomando as rédeas de nossa própria história, resolvemos, em muitas mãos, falar de Liéje, que era uma mulher, mãe e juíza exemplar, mas acima de tudo um ser humano fantástico, que se preocupava com o outro, de uma maneira rara e especial. Talvez por isso seja tão preemente falar dela, num momento tão conturbado de nossa história em que todas as mãos, braços e mentes progressistas se tornaram indispensáveis na luta contra o retrocesso que viceja no Brasil atualmente. E assim ao reverberar seus feitos reafirmamos nosso compromisso de manter sua memória, continuando no mesmo caminho.

Projetos

Afinal, Liéje era reconhecida pelo cuidado com os jurisdicionados que ia além das bordas do processo e dos limites físicos do próprio Fórum. Assim, coordenou em Maringá o programa Justiça se Aprende na Escola, com o objetivo de ampliar o conhecimento das crianças sobre questões de Cidadania e Justiça, esclarecendo, de forma ampla, os conceitos de direitos, deveres, ética, moral e política. O projeto incluía palestras nas escolas, onde Liéje participava frequentemente, bem como a visitação dos alunos nas dependências do Fórum, quando mantinham o contato com o dia a dia das atividades do Poder Judiciário.

Também foi responsável pelo Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania de Maringá (CJSCC), que atua na mediação de conflitos, atendendo as diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), dentro da Política Nacional de Tratamento de Conflitos de Interesse. O serviço, oferecido de graça à população, visa solucionar problemas como divórcio, acidente de trânsito, briga de vizinhos ou dívidas diversas, de forma menos burocrática e mais próxima ao cidadão, com o objetivo de agilizar a justiça, proporcionando eficiência e rapidez na solução de conflitos. 

Desde ontem, sensibilizados com perda inestimável, companheirxs de luta a reverenciam com o grito: LIÉJE, PRESENTE!, forma como a resistência homenageia seus mortos e/ou desaparecidos. Grito que representa a continuidade deles em nós! É a rebeldia contra o esquecimento. É a afirmação de que eles permanecem nas e através das vidas que tocaram, inspiraram, mudaram, motivaram de alguma forma.

É dizer que há uma escolha de seguir em frente, trilhando e alargando o caminho, realizando o que foi por eles sonhado. No nosso caso, manter aceso e firme o legado de Liéje. 

Depois de sua partida, ainda atordoados, muitos queriam traçar sua biografia. Afinal, a maioria de nós não a conhecíamos pessoalmente, mas a amávamos como quem convive dia a dia com alguém, pois, mesmo muito doente, pouco nos falava de seus problemas, mas sempre tinha uma palavra de incentivo e luta para dividir em nossas constantes discussões em grupo sobre o rumo do país e a defesa dos direitos humanos. Aproximação fruto desses tempos líquidos e do recrudecimento do ódio e da banalização do mal, aguçados pelas próprias redes sociais, mas que, por outro lado, nos possibilitou conhecer tantas pessoas que sonham e pensam parecido como Liéje. Assim, ontem era como se estivéssemos perdendo parte de nós, parte desse coletivo que tão lindamente construímos dia a dia, com luta, ações, palavras e escritas.

Quando o ânimo queria nos faltar, Dora, com palavras de ordem, levantou nosso astral e nos projetou na atmosfera que Liéje quer nos ver, com certeza. E surgiu a grande ideia do tributo, intimando-nos a mexer e remexer memórias para uma linda homenagem à Liéje e ao feminino que ela bem dignificou! E começou

De Liéje fica a mulher, a cidadã, fica muito. Muito em cada sorriso que plantou por tantos lugares. Muito permanece em corações e vidas que ela acolheu e transformou. Fica muito de Liéje como exemplo de quem sabe fazer a hora, de quem jamais esperou acontecer. Liéje, sempre presente.

Dentre as narrativas, capturamos a de Fábio, um dos mais próximos a Liéje, bastante emocionado narrou que ela ao perceber que ele defendia ideias muito parecidas se aproximou dele o que o fez levá-la à AJD, onde ela se sentiu verdadeiramente em casa. Ele disse: “Precisavam ver como ela se sentiu feliz, com sentimento de pertencimento”. E prosseguiu “Mesmo com as dificuldades que ela já tinha com a hemodiálise, foi ao nosso encontro no Rio de Janeiro. Foi ao nosso encontro sobre direitos humanos em Curitiba. Então, assim, ela é uma batalhadora!”, no verbo presente mesmo. Mencionou com carinho os projetos sociais em Maringá. Todos os projetos sociais que tem aqui, tem a Liéje! Buscar crianças da rede de ensino municipal para levar para fazer RG. Duas sextas-feiras por mês, é Liéje! Ir aos colégios públicos, eu também vou com ela, é Liéje! Quando houve as ocupações, nós fomos aos colégios ocupados aqui da região. Ela tem um coração lindo!

Também pôde nos contar um pouco de sua trajetória antes da magistratura, ali no final da ditadura militar, na década de 80, ela e o marido dela foram os primeiros a formar o partidão, o PC (Partido Comunista), ali na região de Toledo, no Paraná. Ela sempre teve um envolvimento também, não vou falar ideológico, mas ela sempre teve um envolvimento de olhar para o outro, sempre com carinho. É isso!, divide seu suspiro conosco aquele que teve o privilégio de compartilhar a vida com ela de forma mais próxima.

Prosseguindo Denise, sua amiga de concurso, nos falou: “Sim, estou muito triste e não ainda acreditando na morte da nossa querida Liéje, embora sempre soube da luta diária dela com a hemodiálise. Ela é do meu concurso de 1992, e inclusive tomamos posse juntas quando fomos promovidas para titular; ela sempre muitoooo respeitada na magistratura. Idealista, humanista, amor presente sempre em seus atos… ser humano brilhante… existência que não passou em vão nesse mundo intolerante e doido! Liéje deixará um grande lacuna, fizemos recentemente nosso curso aqui em Curitiba de Direitos Humanos, ela hiper empolgada! (…).”

Anoca, nossa orquestradora de panelas e cidadania, também conheceu Liéje, entre fios, linhas, artes, alegria, bichos e muita luta! Testemunha que ela teceu com fios e afeto as relações com suas filhas, seus bichos, a judicatura e a construção da cidadania. “Foi artesã da vida e dos Direitos Humanos!”

Fernanda, nossa textão, também sua companheira do TJ do Paraná ficou sem palavras. Lamentou não estar conseguindo escrever nada para nossa querida Liéje. Não teve um dia bom – nenhum de nós tivemos. Ao ver uma foto, ficou profundamente emocionada. Achou que não conseguiu escrever, mas falou muito, falou que Liéje era a acolhida em pessoa! Muito, muito amável, sempre feliz, mesmo com a doença que a cada dia se agravava. Lembrou que ela tentou ir à Cuba, na viagem que o grupo fez em abril deste ano, ela estava quase conseguindo uma máquina para levar e fazer os procedimentos, mas a partir dali seu quadro piorou. Recordou também que Lièje tem uma história de luta bem bonita. Pelo que lhe contou, foi advogada militante e já defendeu o MST.

Uefla, que nem a conhecia e chegou a pouco tempo na Sororidade também contribuiu: “Para mim, este é um começo; para as Sororas, este é um passo, ou uma pausa, mas jamais será uma perda. Jamais você deixará de iluminar e guiar, tal qual uma estrela; a estrela que muitos conhecem, a estrela que agora também é minha.” E Janine resumiu bem: “Nunca senti seu cheiro ou te dei um abraço, mas desfrutei da sua solidariedade, inteligência, liderança, inspiração e, graças à tecnologia, sinto hoje a dor da perda de uma amiga querida. Que os seus saibam que você abriu trincheiras que iremos alargar e seguiremos sonhando seus sonhos e tornando-os reais”! Liéje Gouvêia, PRESENTE!

E assim fomos tecendo em palavras e recordações nossa simbólica homenagem

Quase finalizando, Cristiana nos trouxe a reflexão que as redes sociais são uma Caixa de Pandora dos tempos modernos. Ao abrir sua tampa, desejosos decerto de escapar de nossas vidas “em bolha”, estamos sujeitos a nos deparar com todos os males da convivência humana: inveja, cobiça, tretas mal resolvidas, intolerância. Mas lá no fundo, bem lá no fundo dessa Caixa, está a esperança. E é ela que nos move a seguir nos conectando, tateando como cegos em meio a um tiroteio de ofensas e gente que não vive senão para espezinhar o próximo.

E é essa esperança-combustível que nos leva a “esbarrar” em pessoas incríveis, parceiras, com quem temos uma identificação quase inexplicável, quase de “outras vidas”. E disse: “Meu Facebook é povoado de gente que mal conheço pessoalmente. E o prazer dessas descobertas é maior, bem maior que o medo que circunda o desconhecido. Ela, como nós, agradece ao universo, à internet, à AJD e ao sentimento de pertencimento a certos grupos por ter a Liéje no seu rol de amigos. Para sempre.”

E Kenarik, para arrematar, nos lembra de outra frase de nosso poeta de abertura: “O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”. E vai além e nos diz: que pessoas como Liéje já são encantadas e são estrelas brilhantes, desde sempre. Donde vinha este encantamento? Não sabemos ao certo, mas arriscamos dizer que vinha de seu coração generoso e afetuoso; de como canalizava a sua vida para o outro, de como vibrava seu coração no ritmo do outro.”

Assim, relutamos em nos despedir de você. Liéje, e preferimos dizer: “Foi um prazer lhe conhecer!” – mesmo que para muitas apenas virtualmente. Seremos suas amigas para sempre, iremos seguir seus passos, continuar sonhando seus sonhos, para juntas torná-los possíveis em um grande exercício de Sororidade!

Liéje, você não morreu, ficou encantada, virou definitivamente a estrela que já era aqui na terra e estará sempre PRESENTE!

Coletivo Sororidade em Pauta – Ana Carolina Bartolamei, Célia Regina Ody Bernardes, Claudia Maria Dadico, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Janine Ferraz, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Gabriela Lenz Lacerda, Roselene Aparecida Taveira, Simone Nacif, Valdete Souto Severo e Janine Soares de Matos Ferraz.

Quarta-feira, 16 de agosto de 2017
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