A exemplo do Brasil, direita argentina adota discurso “anti” para impor agenda liberal
Quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A exemplo do Brasil, direita argentina adota discurso “anti” para impor agenda liberal

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil. Presidentes Maurício Macri, da Argentina, e Michel Temer. 

No último domingo (13), a Argentina foi às urnas. Era a realização das PASO (primarias abiertas silmultáneas y obligatorias), uma espécie de eleição prévia e aberta que define quais partidos e candidatos poderão competir nas verdadeiras eleições que renovarão parcialmente o Legislativo do país em outubro. A data era de definição para todas as regiões argentinas, que decidiriam seus representantes no Senado e na Câmara dos Deputados, além dos distritais. Mas todos os olhos do país estavam voltados para Buenos Aires.

Isso porque, na capital, a ex-presidenta Cristina Kirchner, a quem a grande mídia argentina já dava como politicamente morta, concorria como grande favorita a uma vaga no Senado. Esse fato deu às PASO o caráter de termômetro político para as eleições gerais de 2019. Uma vitória esmagadora de Cristina significaria a volta do kirchnerismo, enquanto sua derrota seria o aval para que Macri continuasse sua empreitada liberal na Argentina, apesar da crise que assola o país.

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Mas as PASO se encerraram deixando mais dúvidas do que certezas. O Cambiemos, coligação macrista, mesmo sem uma maioria de fato, se firmou como o maior partido do país e, se os resultados se repetirem nas eleições de outubro, deve conquistar ao menos o direito de ver Macri terminar seu mandato. Já o kirchnerismo da Unidad Ciudadana sai das PASO com uma grande dúvida, já que Cristina não conseguiu a vitória esmagadora que esperava em Buenos Aires.

Há alguns pontos da política argentina bastante semelhantes à da brasileira e que explicam esses resultados. O primeiro deles é o fato de que Macri tem ao seu lado os principais veículos de mídia do país, como o Clarín e o La Nación. Cristina Kirchner, ao contrário, quando no Governo, declarou guerra aos oligopólios da comunicação com a Lei de Meios, que vetava a concentração do mercado midiático nas mãos de algumas poucas empresas. Mas as medidas propostas nessa lei foram desfeitas tão logo Macri chegou ao poder, ao que o periódico Clarín parece sentir-se bastante agradecido.

Assim, a guerra de narrativas se tornou um ponto forte do macrismo e foi amplamente usada pelo Cambiemos nessas eleições. É claro que a direita e a esquerda argentinas têm suas peculiaridades, mas o discurso político em muito se assemelha ao que vemos hoje no Brasil. Os jornalões argentinos e os partidários de Macri costumam investir pesado em um discurso “anti-kirchnerista”, expressão utilizada amplamente na imprensa argentina e simbolizada no lema “no vuelven más”, em referência a uma possível volta de Cristina ao poder.

É um discurso que tenta, de todas as formas, colocar em Kirchner todos os males da Argentina e da América do Sul. A grande mídia, por exemplo, explora rotineiramente suspeitas de corrupção envolvendo o alto escalão kirchnerista, ao mesmo tempo em que ignora escândalos de Macri, como o caso do Panamá Papers. O próprio presidente Macri, ignorando a crise econômica que seu governo não consegue resolver, em mais de uma oportunidade disse que Cristina levava a Argentina a um processo de venezuelização.

Se o “kirchnerismo” argentino e o “lulo-petismo” brasileiro tem suas peculiaridades, certo é que o ódio dirigido aos dois tem angariado muitos adeptos à direita liberal latina. Nada mais eficaz. É com esse discurso odioso que tanto Temer quanto Macri conseguem passar por cima de resultados pífios na economia e cortes na área social e, ainda assim, sobreviver politicamente.

Porém, a exemplo de Temer, a Argentina de Macri não decolou como prometido. Em seu primeiro ano de governo, o PIB caiu 2,5% e o desemprego subiu mais de 2 pontos percentuais e atingiu 9,5%, enquanto a dívida do país aumentou em mais de U$ 100 bi. A inflação chegou a 10,5% nos cinco primeiros meses de 2017 e o custo de vida deve aumentar em mais de 25% até o fim desse ano, o que levou organizações de trabalhadores a protestarem pela aprovação de uma lei de emergência alimentar.

Para compreender a política argentina, ou pelo menos tentar, é preciso entender, porém, uma outra peculiaridade do país: o chamado “peronismo”, via política herdeira de Perón com viés nacionalista e próxima aos trabalhadores.

É um fenômeno difícil de se encaixar no espectro existente entre esquerda e direita, até porque, dentro de sua organização, há políticos pendendo para ambos os lados e das mais variadas vertentes. Aliás, o próprio Macri, apesar de eleito como candidato anti-peronista, não arriscou e teceu elogios a Perón em sua campanha à presidência em 2015, dada a popularidade do ex-estadista.

Fato é que essa característica argentina traz consigo uma verdade quase absoluta: quando unido, o peronismo é imbatível.

Foi assim que os Kirchner, da ala peronista de esquerda, chegaram ao poder. E foi exatamente em um momento de ruptura peronista que Macri saiu vencedor. Nas PASO desse ano, por exemplo, o Cambiemos somou 35,9% de todos os votos argentinos, enquanto a Unidad Ciudadana de Kirchner teve 21,08%. Mas, se levarmos em conta os votos recebidos pelo “massismo”, vertente comandada por Sergio Massa, ex-aliado de Kirchner, e pelo Partido Justicialista, os peronistas somaram um total de 43,71% dos votos no país.

É improvável que nos próximos dois meses que antecedem as eleições de outubro o peronismo volte a se unir em torno de sua ala de esquerda capitaneada por Kirchner e sua agenda alternativa ao liberalismo do Cambiemos. Mas há um longo caminho até as eleições gerais argentinas em 2019, e há poucas indicações de que as políticas de Macri possam solucionar a crítica situação econômica do país. Por isso mesmo, as manifestações de trabalhadores contra as medidas liberais no país vêm sendo cada vez mais frequentes e a CGT (Confederación General del Trabajo) já marcou protesto para a próxima terça e analisa a possibilidade de realizar uma greve.

Nesse cenário, vale lembrar a máxima atribuída ao próprio Perón:

Os peronistas são como os gatos, quando parece que estamos brigando, estamos apenas nos reproduzindo.

O massismo tentou lançar uma terceira via nas eleições de domingo e falhou. Não seria estranho que o peronismo, nos próximos dois anos, se reorganizasse em uma união que certamente abateria Macri nas eleições de 2019. Se o esquerdismo peronista está longe de ser uma esquerda ideal, certo é que se mostra como a opção viável, democrática e eleitoral para barrar a agenda liberal que se impõe no país e ataca trabalhadores argentinos.

Aqui no Brasil, onde os mesmos ataques liberais se impõem, talvez até com mais força, ao menos no Congresso parece haver uma convergência das variadas esquerdas desde o impeachment. Com o olho em 2018, Ciro Gomes e o PDT, por exemplo, já acenaram ao PT um desejo de parceria. Mesmo o PSOL, crítico ferrenho do governo Dilma, vem agindo no Congresso lado a lado com lideranças petistas na defesa dos interesses de trabalhadores.

Certamente se darão conta de que a perseguição a Lula e o anti-petismo afetam a todos na esquerda e aos trabalhadores igualmente.

Há um forte ataque do capitalismo liberal sobre a América Latina, como não se via desde os anos 90.Um sistema que perambula pelo mundo como um morto-vivo desde 2008.

Esse sistema foi peitado por Portugal que, através de uma união entre seus partidos de esquerda, apelidada de “Geringonça Portuguesa”, disse um sonoro “não” às medidas liberais impostas pelo FMI e pela União Europeia e hoje vê a economia de seu país se recuperar sem recorrer à austeridade. A Geringonça é um exemplo a ser observado com carinho pela Argentina e, sobretudo, pelo Brasil, onde a mobilização popular parece algo ainda tão distante.

Almir Felitte é advogado, graduado pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

Quinta-feira, 17 de agosto de 2017
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