Sororidade em construção: uma realidade menos conflituosa para Liz
Quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sororidade em construção: uma realidade menos conflituosa para Liz

Foto: Reprodução 

 

“Mas e se o amor pra nós chegar

De nós, de algum lugar,

com todo seu tenebroso esplendor?!

E se o amor já está

se há muito tempo que chegou e só nos enganou?

Então não fale nada

Apague a estrada que o seu caminhar já desenhou

Porque toda razão, toda palavra, vale nada

quando chega o amor

(Tá combinado – Caetano Veloso)

 

Antes de tratar o tema de hoje, preciso falar um pouco sobre quem eu era antes do meu contato com a sororidade. Bem, eu sou uma daquelas pessoas que foram criadas “na caixa”, “na moldura”, “no quadrado”, e, como tal, cercada de muita segurança. No meu mundo, os conceitos, preconceitos e princípios sempre foram sólidos e pouco submetidos a contestação. Tudo estava muito seguro e isso era o que interessava.

Na minha caixa, também fui (e sou) destinatária de muito amor. Aprendi muito sobre aquele amor divino, previsível, caridoso, paciente, submisso, obediente. Amor a Deus, à família, aos amigos, ao próximo necessitado. Amor de filho, amor de pai e mãe, amor de cônjuge. Nunca senti na pele o peso de qualquer recusa ou exclusão. Como dizem os adolescentes, sou trabalhada na autoestima; todo espaço que desejei, ocupei. Não vivi injustiça, rejeição, frustração. Nunca me preocupei com a noite.

E qual o problema disso? Quanto à noção de segurança que eu carregava em mim, nenhum. Quanto à dimensão do meu mundo… ah, quanto a dimensão, houve um momento que meu mundo ficou demasiado limitado, fragmentário, pequeno, do tamanho do Castelo do Rei, sua rainha e sua princesa, que viveram felizes para sempre. E tal qual os personagens da Ana Maria Machado, a minha história também foi construída meio ao contrário.

Houve um momento em que a tampa da minha caixa foi solapada por um vento forte – a Magistratura, e lançada a uma distância não mais alcançável. A proteção que limitava a minha visão deixou de existir e eu cresci a ponto de não mais caber na caixa. Várias foram as realidades encantadoras e assustadoras que encontrei do lado de fora, e dentre elas, aquela em que as mulheres podem decidir se tornar algozes ou suporte umas das outras; razão e motivo de sofrimento, alimento do sistema de opressão ou respeito, abrigo, porto seguro. E é sobre essa decisão feminina que desejo falar hoje.

O cenário continua o mesmo. A sala de audiência, agora de uma nova Comarca, sendo eu uma nova pessoa. A cabeça povoada por novas falas de muitas mulheres que, espalhadas pelos muitos cantos deste Brasil, a cada dia me faziam questionar “como não houvera eu pensado determinadas coisas antes”. Começando a entender “O que é Sororidade e por que precisamos falar sobre?”.

A servidora me traz o resumo:

Doutora, se prepara! A atual entrou com ação indenizatória contra a “ex” porque a “ex” foi ao Conselho Tutelar dizer que o filho dela estava em risco quando visitava o pai, porque o “ex” da atual foi morto por traficante, que a atual tinha problema com o tráfico e toda a sua descendência estava jurada.

Enquanto o pregão estava sendo feito e todos se acomodavam, recordei-me do Manual de Mediação Judicial do Conselho Nacional de Justiça que me estabelece como “efetivo centro de harmonização social” e me exige a posição de solucionadora de problemas e efetiva pacificadora. Fico buscando, nesse contexto, qual a prática cooperativa em processos de resolução de disputas usar, para estimular, difundir e educar aquelas duas mulheres a melhor resolver o conflito por meio de ações comunicativas.

Ainda na esteira do que li no referido manual, compreendo que elas se dirigiram àquela sala não apenas como quem, por uma suposta lesão moral, encontram-se em um dos pólos de uma relação jurídica processual, mas também que se tratam de seres humanos que podem aprender a melhor resolver seus conflitos, por meio de comunicações eficientes. Desejo dar-lhes o acesso à Justiça não apenas para prevenir e reparar direitos, mas para que encontrem ali, no Poder Judiciário um local onde buscaram e encontraram suas soluções – um centro de harmonização social.

Sob a espada de Dâmocles das exigências estatísticas e da produção em série que nós Juízes vivemos hoje, sinto que este conflito demanda que lhe dedique tempo e atenção. E opto pela crença de que, de alguma maneira, a minha dedicação àquela causa em prejuízo da minha produtividade será recompensada e de algum lugar virá a minha proteção.

Naquele primeiro momento tenso, resgato mentalmente o texto do André Gomma de Azevedo e a sua proposta de visão positiva do conflito, lido durante a preparação para o concurso da Magistratura[1]. Tentando ser didática e lúdica, a primeira coisa que digo é que gostaria de ser X-Man e ter o poder de ir ao passado e mudar as coisas, para levar a todos naquela sala à constatação de que somos humanos comuns, sem qualquer gene diferenciado que nos permita retornar no tempo. Acrescento que, no entanto, o futuro nos pertence e podemos decidir sobre como queremos vivê-lo.

Ao olhar para as mulheres que dividiriam aquele momento de suas vidas comigo, entendi a necessidade de fazer o possível para criar naquele lugar um ambiente sororo, e tive a coragem de me lançar na explicação do conceito mais simples que eu até então havia conseguido apreender sobre Sororidade, dizendo que eu estava aprendendo sobre uma união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum; consistente no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajuda a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal. Quase não acreditei quando vi saindo aquelas palavras da minha boca. Porém, mais incrível foi vivenciar o que se sucedeu a partir daquela compreensão.

De posse da palavra, a ex pediu a oportunidade de falar de si e do que viveu. Nos explicou que foi acometida por depressão e ainda estava em tratamento. Observei que ela tremia e, ao mesmo tempo, demonstrava uma força advinda da compreensão exata do que viveu e do que ainda necessitava enfrentar.

Enquanto ela falava da doença e suas implicações, recordei-me do relatório global lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Fevereiro de 2017, que anunciava o aumento do número de pessoas com depressão no mundo em 18% entre 2005 e 2015. De acordo com a publicação “Depression and other common mental disorders: global health estimates”, há 322 milhões de pessoas vivendo com esse transtorno mental no mundo. A prevalência é maior entre as mulheres.

Ela narrou o fim do relacionamento e nos vimos diante de Elis “atrás da porta”. Em seguida, ela me olhou e disse: “Eu já entendi, Doutora, que acabou. E eu estou me tratando, me reestruturando, para seguir adiante. E eu vou conseguir!”. Então olhou para a atual companheira do seu ex-marido, que lhe retribuiu o olhar mais interessado e empático daquela sala, e disse: “Eu o amo, ainda, mas já aceitei que acabou. Você me entende?!” E ela entendia. Aliás, ela era a única pessoa naquela sala capaz de entender, porque compartilhava o mesmo amor. E decidiu por respeitar aquele sentimento, afirmando e demonstrando que entendia.

A atual companheira, com a palavra, quis explicar que, quando iniciou o relacionamento, o casal já havia se separado. Eu lhe disse que aquela informação não era relevante, não importava naquele contexto, porque ninguém naquela sala deveria julgá-la, apenas respeitar sua história.

Então, ela olhou para a outra mulher, que não via mais como parte adversa, e disse que não havia casado com um traficante. Contou que ela casou com um rapaz trabalhador, com quem montou um açougue e trabalhavam juntos para manter a família. Acrescentou que ele optou por iniciar o consumo de drogas e isso lhe causou grande sofrimento. Um dia ele consumiu cocaína e saiu correndo na direção do rio, sem que ninguém conseguisse contê-lo. Quando a chamaram, ela já o encontrou afogado, como o amor que ela também não pode mais viver.

Fiquei pensando neste universo das mulheres que amam os dependentes químicos e são julgadas e excluídas por isso. A conduta autodestrutiva dos seus companheiros lhes compele a dois sofrimentos – vivenciar as mazelas do vício alheio ou a solidão da ausência. Fato é que há um amor que permanece e isso definitivamente não tem nada a ver com falta de amor próprio, baixa autoestima, desejo de conviver “com porcos” e comer seus farelos.

Ela falou da dor do seu filho pela ausência do pai e pelo julgamento social que passam. Disse que tinha cuidado das crianças e exatamente por causa da perda que sofreu dedicava atenção maior ao seu filho e ao filho do seu atual companheiro, permanecendo sempre atenta ao menor sinal para evitar o envolvimento das crianças com as drogas.

Eu perguntei à ex-mulher se ela concordava com esta afirmação e ela disse que sim. Era verdade que seu filho era bem tratado e cuidado; que a atual companheira do seu ex-marido respeitava as orientações que passava, os horários, as recomendações. Tentou justificar a queixa que havia prestado no Conselho Tutelar, mas concluiu que inconscientemente quis chamar a atenção do seu ex-companheiro. Concordou que sua atitude amplificava um sofrimento que já era demasiado naquela outra mulher e que não gostaria mais de ser instrumento para isso.

A outra mulher disse que renunciava à pretensão indenizatória.

Eu propus um acordo para que ambas assumissem o compromisso de viver em paz. Elas aceitaram. Lembrei de minha amiga Cris quando me disse um dia que o pensamento gera o desejo, a verbalização a vontade e a escrita o compromisso e lançamos na ata da audiência, pela primeira vez na minha carreira, obrigações com natureza jurídica sorora.

Foi a sororidade a prática cooperativa usada como processo de resolução daquela disputa, única capaz de estimular aquelas mulheres à confiança recíproca, apta a capacitá-las ao diálogo. A melhor ação comunicativa para resolver o já não mais existente conflito.

Naquela audiência, fez sentido para mim os objetivos pedagógicos do Manual de Mediação do CNJ. Ao final, compreendi que o conflito entre mulheres é inevitável e pode ser uma força positiva para o crescimento; constatei algumas diferenças entre processos construtivos e destrutivos de resolução de disputas; Entendi como o conflito se desenvolve em espirais e porque essa escalada de conflito é tão importante na gestão de disputas; compreendi que um conflito pode melhorar ou piorar dependendo da forma com que se opta perceber o contexto conflituoso. Então, alegrei-me por ter tido a minha caixa aberta, meu mundo seguro e limitado desestruturado e por ter encontrado na sororidade um novo horizonte – amoroso, compreensivo, profundo, seguro e libertador.

A audiência encerrou, mas o que vi e vivi com aquelas mulheres não parou de agitar meu íntimo.

Somos moldados pelas vidas que nos tocam. Lembrei da resposta que obtive de meu amigo-irmão Rodrigo Britto sobre o que fazer com a não aceitação de uma realidade. Ele me disse, a gente aceita, Nine! Simples assim. E se a gente aceitar e continuar doendo, Digo?, retruquei. A gente aceita a dor, “que dói menos”, ele sentenciou. Sorri internamente e pedi fundamento e ele me apresentou um texto que indico a leitura, falando sobre um assunto que ainda preciso me aprofundar – Constelações Familiares, mas que, à luz da experiência vivida na audiência fez todo sentido.

Quanto ao tempo e a preocupação com a produtividade… A minha proteção veio em forma de amor, manifestado pela colaboração de uma equipe que trabalha comigo e aceitou fazer mais do que devia. Mas, sobre isso podemos falar em uma outra oportunidade.

Dedico este texto a Liz, para quem estamos construindo um mundo mais sororo. Seja bem-vinda!

Janine Soares de Matos Ferraz, é Juíza de Direito do TJ/BA e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia). É cristã. Acredita na humanidade. Tem passado por aprendizados revolucionários após conhecer pessoas revolucionárias. Compõe a coluna “Sororidade em Pauta” em conjunto com as magistradas Ana Carolina Bartolamei, Célia Regina Ody Bernardes, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Lygia Godoy, Naiara Brancher, Nubia Guedes, Patrícia Maeda, Renata Nóbrega, Roselene Aparecida Taveira e Simone Nacif.


[1] Concurso da Magistratura – Noções Gerais de Direito e Formação Humanística – 2ª Ed. 2012 . Nalini, Jose Renato / Coltro,Antonio Carlos Mathias / Azevedo,André Gomma de / Maciel, José Fabio Rodrigues / Spagnol,Antonio Sergio / Gonçalves Jr.,Jerson Carneiro. Saraiva

Quarta-feira, 30 de agosto de 2017
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