“Histórias Cruzadas”: a sabedoria das mães negras
Quarta-feira, 6 de setembro de 2017

“Histórias Cruzadas”: a sabedoria das mães negras

Foto: Reprodução/Filme

Os EUA muitas vezes utilizam o cinema para purgar equívocos históricos. Não se desconhecem as reais intenções da indústria cultural cinematográfica – que, inserida no capitalismo norteamericano, é ávida por lucro –, mas deve-se admitir que há filmes que merecem ser elevados à condição de obras históricas.

O Brasil ainda é um iniciante (seja quanto à construção de filmes como obras históricas, ou portando alguma utilidade social, ou até mesmo quanto ao cinema como atividade lucrativa), embora tenha, nas últimas décadas, alcançado evolução que permite identificar alguns filmes singulares, a exemplo de “Que horas ela volta?” e de “Nilse, o Coração da Loucura”.

O filme “Histórias Cruzadas” surge em tal contexto, como obra de arte histórica. Trata do racismo da sociedade americana, tema tão enraizado nela como recorrente na sua cinegrafia – do que se depreende a necessidade detida pelos americanos de purgarem constantemente o tema, por ser um dos mais evidentes e violentos erros históricos da humanidade.

Grande parte do mérito da película reside em conseguir mostrar que a violência não se limita à forma física, tarefa que poderia ser bastante difícil, pois a barbárie à qual os negros foram por muito tempo submetidos (sua coisificação e cruéis agressões físicas) poderia bloquear a compreensão de outros fenômenos de violência, tais como a violência psicológica. Entretanto, o filme é muito bem sucedido quanto àquele mister.

Foto: Reprodução/Filme

Também, havia a imposição de obrigações em demasia, nítido resquício do regime escravocrata: mesmo com baixíssima remuneração (algo em torno, hoje, de metade do nosso salário mínimo[1]), as negras realizavam todos os serviços da casa, de modo a desonerar completamente o casal branco do serviço considerado sujo e indigno. Os casais comportavam-se como um enfeite da casa, gastando considerável tempo em embonecarem-se e em ostentarem objetos luxuosos, em nada participando do cotidiano de manutenção do lar.

As negras, então, limpavam, cozinhavam, ciceroneavam os seus empregadores e suas visitas satisfazendo-lhes quaisquer caprichos e cuidavam da prataria, dentre tantos outros inimagináveis afazeres exigidos arbitrariamente pelos patrões. Ainda, de uma maneira notável, tomavam conta das crianças, suprindo-lhes o amor, o carinho e a educação negligenciados pelos casais brancos, ocupados estes que eram apenas em nascer e morrer.

Aí está o maior mérito do filme: a vívida sabedoria dessas mulheres negras.

O filme é primoroso ao mostrar como elas utilizavam da palavra para transmitir valores de humanidade e de autoestima àquelas crianças, valores que não constituíam preocupação alguma por parte dos pais biológicos.

Os versos, ditos rotineira e poeticamente por Aibileen à menina Mae Mobley, “você é gentil”, “você é importante” e “você é inteligente” são gérmens plantados na personalidade da menor com vistas à construção de uma pessoa bondosa e ética. Mas, para além das palavras, o acolhimento físico – isto é, o colo, o abraço e o conforto dado quando do choro – é perfilhado com dedicação por Aibileen.

Foto: Reprodução/Filme

Ao passar um tornado pela cidade, Aibileen está agachada, rodeada por móveis caídos no chão, ela própria com medo, mas não deixando de abraçar, proteger e consolar a menor Mae. Não arbitrária, nem coincidentemente, Aibileen passa a ser vista por Mae como a sua verdadeira mãe, desabrochando entre elas o vínculo afetivo de mãe e filha. A mãe biológica, por estar sempre envolvida com o marido e com eventos sociais, chega a evitar a menor, a qual, ao seu turno, não a reivindica como mãe. Não há como se concluir de outro modo: Aibileen é a mãe de Mae.

Tudo isso ofusca a protagonista Skeeter, branca também admirável, que, por dar voz àquelas mulheres negras e corajosamente escrever um livro contando a história delas, bate-se de frente com a sociedade local, não vendo mais espaço para si e seus talentos no machista e racista Mississipi. Skeeter também teve uma mãe negra, mas fez disso um móvel para a alteridade, não adotando o comportamento discriminatório de suas irmãs de pele.

E a sabedoria dessas mulheres negras assume maior destaque porque inevitavelmente confrontada com essas atitudes discriminatórias e intolerantes das brancas da elite da época – portanto, com a falta de sabedoria destas. Em suma, mulheres que possuíam condições plenas de atingir o entendimento de que as suas práticas eram discriminatórias e também violentas (pois tinham boas estrutura familiar, condições econômicas e estudos) deixaram de praticar a sororidade e a parceria com aquelas sofridas mulheres, que tanto as ajudavam – até mesmo na criação dos seus filhos! –, para aliarem-se, fragilmente, ao branco de elite, opressor de ambas.

Não só por serem mulheres, negras e pobres, mas também devido à falta de apoio das mulheres brancas, as negras passaram, e ainda passam, por uma desumana revitimização, a qual é tema recorrente em obras feministas, constituindo-se em problemática cujo enfrentamento ainda hoje é necessário para a definitiva concretização dos direitos dessas mulheres às quais tanto devemos[2].

Foto: Reprodução/Filme

Aliás, observe-se que, mesmo sendo alvo dessa constante revitimização, elas não se agruparam para exibir ódio (o que, dada a conjuntura, seria humanamente compreensível), optando, diferentemente, por exteriorizar as suas virtudes. O real elo de amizade que criaram entre si, dedicando-se umas às outras tanto material como afetivamente, revela-se como sábia estratégia de superação de adversidades.

O filme retrata, por outro lado, incipientes e débeis amizades entre as mulheres brancas, ficando óbvio que essas características resultam da frivolidade dos seus seres.

Já as sábias mulheres negras nos ensinam que um profundo e forte elo nasce de caráteres destituídos de superficialidade e de uma entrega e um desprendimento que se apresentavam como impossíveis por parte daquelas mulheres brancas.

Sem receio de cometimento de equívocos históricos, pode-se afirmar que o Mississipi retratado no filme não é apenas um Estado americano, mas é, também, a síntese das sociedades pós-escravaturas, dentro das quais se situa o Brasil. Muitos contraporiam a tal afirmação o fato de que o Mississipi é mundialmente conhecido pelo seu racismo, ao passo que o Brasil não seria um país racista. Ledo engano.

Talvez o Brasil não se reconheça racista, mas o nosso país ainda se esquiva da suplantação da mentalidade colonial-escravocrata, adotando a população, em sua maioria, comportamentos contraditórios, ocultadores do racismo[3]. Tanto é que os últimos acontecimentos nos EUA, que demonstraram o recrudescimento do facismo[4], desencadearam forte oposição dos ativistas brasileiros, mas não a reflexão crítica sobre os nossos comportamentos discriminatórios. Ora, “os racistas são os outros”!

E assim seguimos com o nosso preconceito sempre à espreita, sem conseguirmos combatê-lo por fecharmos os olhos e negarmos reconhecê-lo, o que denominamos de racismo estrutural, inexistindo a propalada democracia racial, que visa na verdade esconder um racismo institucional, sem um compromisso efetivo de implementação de políticas públicas que compensem econômica e juridicamente esse abismo social.

Nesse contexto, Aibileen é um arquétipo das nossas sábias mães negras. Quantos de nós não se depararam com essas sábias mães negras nas famílias de conhecidos, ou mesmo nas nossas próprias famílias?

O filme possui também outros méritos, mas certamente periféricos aos aqui apontados, o que vem a reforçar o entendimento do presente texto: trata-se de um filme notável, indispensável à compreensão da perniciosidade do racismo e que só iremos suplantá-lo num exercício pleno de empatia e sororidade.

Para isso, devemos lembrar que existem divisões de gênero em conjunção com outras categorias de exclusão, que somos muitas, plurais e o que o feminismo deve comportar cada uma de nós. Pois, como bem lembra Audre Lorde, ao refletir sobre a sociedade americana, o que se aplica à brasileira: “A palavra sorororidade pressupõe uma homogeneidade da experiência que na realidade não existe. No sistema patriarcal, os mecanismos que nos neutralizam não são iguais. Para muitas mulheres negras é fácil se ver sendo utilizada contra os homens negros, não por sua condição de homens, mas por sua condição de negros. A todo momento nós devemos diferenciar as necessidades dos nossos opressores dos nossos próprios e legítimos conflitos, como mulheres, no interior das nossas comunidades. Este problema não existe para as brancas”.

À minha mãe Eva Marina: jamais (te) esquecerei. “Tu és meu nenê: inteligente, independente, comportada”. A ti, a minha vida.

E, a seguir, a mesma autora, nos dá a solução para enfrentarmos esse dissenso: “O que nos separa não são as nossas diferenças, e sim a resistência em reconhecer essas diferenças e enfrentar as distorções que resultam de ignorá-las e mal interpretá-las. Quando nos definimos, quando eu defino a mim mesma, quando defino o espaço onde eu sou com você e o espaço onde não sou, não estou negando o contato entre nós, nem estou te excluindo do contato – estou ampliando nosso espaço de contato.”

Assim, fica o convite às mulheres brancas, como eu: entender e reconhecer nossas diferenças e lutar, com as mulheres negras, pela reversão desse abissal distanciamento. Vamos?

Uda Roberta Doederlein Schwartz é Juíza de Direito – TJ-RS – Comarca de Bom Jesus. É mãe da Marina, que tem 1 ano e 7 meses de idade. Teve a sorte de ter duas mães: é filha da Maria Regina, mas, também, da Eva Marina – cuja foto consta deste texto! E fica aqui o agradecimento à sorora Elinay Melo, por ter feito a revisão do texto e apresentado sugestões!


[1] Estimativa feita por esta autora à sua conta e risco, com base nos elementos fornecidos pelo filme.

[2]Sobre as posturas conflitantes das mulheres brancas com relação às negras e a sua falta de sororidade, consulte-se a obra “Mulheres, Raça e Classe” (DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Editora Boitempo, 2016). 

[3]“O Brasil também é um país supremacista branco no que diz respeito a poder. Existe uma supremacia branca no judiciário, nos altos escalões das empresas, na política institucional, nas universidades públicas, no poderio das mídias, enfim, nos espaços de poder. Ao passo que a população negra é marginalizada, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado e nos últimos 10 anos aumentou em 54,8% o assassinato de mulheres negras, só para dar alguns exemplos. A questão é que aqui no Brasil, país fundado sob o mito da democracia racial, louvam-se as supostas pontes que nos unem e se negam a falar do altíssimos muros que nos separam. Todo mundo ama samba, mas é contra cotas raciais (até assina manisfesto). Galera adora feijoada, mas foi contra a PEC das domésticas. Galera usurpa a cultura negra para colocar símbolos brancos e diz que o importante é que” somos todos humanos” ou que orixá é energia e não tem cor. Galera adora tratar preto como fetiche pra capitalizar politicamente, mas age com violência quando pessoas negras querem o protagonismo.” 

[4] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40910927 e https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/14/internacional/1502674941_223591.html

Quarta-feira, 6 de setembro de 2017
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