Lésbica: a rebelde do patriarcado
Quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Lésbica: a rebelde do patriarcado

Foto: REMKO DE WAAL / ANP / AFP

Lésbica, lesbiana, safista, sapatão, sapata, sapa, gay mulher, sapatona, virago, marimacho, cola velcro, viada, fufa, fessureira, mulher-macho, racha, dyke, caminhoneira, fancha, bunchie, fanchona, machorra, chupa-charque, lesbo, sapatilha, lambe xana, mal comida… e a criatividade continua sem limites, dignidade e respeito.

São tantos os apelidos que por vezes parecem rótulos dos mais diversos tipos de medicamentos; várias classificações de verduras ou legumes; nomes de bandas de rock. Enfim, são tantas as tentativas de classificar, tachar, julgar, estereotipar, que a identidade individual se perde socialmente diante de tantos adjetivos caricatos e preconceituosos. Ainda assim, impera a invisibilidade social.

Afinal, o que é uma lésbica? No dicionário, trata-se de uma mulher que sente atração, desejo físico, por outra mulher. Ou seja, é uma mulher e ponto! O desejo, a orientação sexual e a identidade de gênero não tiram da mulher lésbica o “status” de mulher, seja ela cisgênera ou transgênera.

 

Vivemos numa sociedade castradora, moralista e limítrofe. O Patriarcado toma conta dos nossos corpos, impõe um comportamento heteronormativo, impinge um modelo de sexualidade binária, engessa nossa intimidade ao desejo como forma de controle, não apenas sobre nossa pele, ossos e sangue, mas sobre nossa essência, julgando-se dono do tesão que nos invade e do gozo que escorre entre nossas pernas.

 

Aqui vou me permitir utilizar um trecho do artigo que escrevi anteriormente chamado “Na cama com o Patriarcado”:

Da próxima vez que me perguntarem com quantas pessoas já fui pra cama, serei honesta: faço sexo com mais de 206 milhões de pessoas ao mesmo tempo e você também.

Nossa sociedade é invasiva e se você é mulher a situação é ainda mais segregadora; somos criadas com tantos dogmas, moralismos e tabus, que é quase impossível ir para a cama apenas com quem se deseja. A sociedade dá um jeito e muitas vezes se joga no lençol, instala-se entre suas pernas e julga seu orgasmo, seja ele heterossexual, homossexual, transexual, não binário, não importa, seu gozo não é livre.

Dia 29 de agosto de 1996, foi realizado no Rio de Janeiro o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE) – atualmente denomina-se SENALESBI – e foi instituído o Dia da Visibilidade Lésbica como marco da luta contra a lesão de direitos e por equidade. No entanto, passados 21 anos, continuamos enfrentando a patente invisibilidade social, seja ela provocada dentro do âmbito familiar, inserida no silenciamento do ambiente de trabalho e social ou reforçada legalmente pela omissão do Estado em desenvolver políticas públicas para a população lésbica existente em nosso país.

A invisibilidade começa na própria afirmação sobre a existência de mulheres lésbicas ou esbarra na real compreensão sobre tal orientação sexual. Somos criadas dentro de uma estrutura heteronormativa e patriarcal, subjulgadas pelo binômio exploração-submissão, inerente desta forma de sociedade.

 

A mulher é criada para se reprimir sexualmente, tendo sua sexualidade quase que absolutamente negada, educada a servir ao macho alfa, a satisfazê-lo; vista como reprodutora e responsável pelos afazeres domésticos e criação da prole; todo o resto de responsabilidade ou espaços sociais e públicos nos são cerceados e a luta do movimento feminista vem dessa negativa à equidade de direitos e liberdades.

 

Nesse cenário, onde a mulher é criada para satisfazer a lasciva do macho, não existe espaço para a liberdade sexual da mulher heterossexual, o que dirá da mulher lésbica, transgênera ou bissexual, que quase nunca irão se enquadrar nos padrões “normais” de formação familiar e de postura do mito “mulher honesta”. Prefiro ser taxada de vadia do que ter silenciado meu direito de simplesmente ser quem sou.

Esse sufocamento social silencia as mulheres num contexto geral. No entanto, com as mulheres LBTs não apenas se busca forçar um silêncio, como também se julga, segrega, pune e lhes nega existência pelo simples fato de ousarem romper as amarras patriarcais e negarem ao macho alfa e a seu membro rijo – às vezes nem tão rijo – o status de senhor de seus corpos.

 

O gozo é livre se a sociedade vai continuar indo para cama com cada mulher existente, então que sejam rompidos todos os moralismos e mordaças, que os gemidos ecoem aos ouvidos dos mais falsos puritanos, que arrotam soberba e se masturbam assistindo vídeos pornôs lésbicos.

 

Há uma hipocrisia latente nesta estrutura patriarcal que não sustenta seu moralismo defensor da família, até porque o conceito de família não se resume em união de sexos diversos com intuito de procriar; família é a reunião de pessoas com vínculo de afetividade, seja ele heteronormativo, homoafetivo, transafetivo, monopaternal, enfim, não podemos exaurir os vínculos afetivos e, por isso, impossível limitar o conceito de estrutura familiar.

Outro fator de repulsa é que a invisibilidade das mulheres lésbicas é tão notória quanto a hiperssexualização e fetichização de suas relações, o que nada mais é que um contrassenso que reforça a sociedade misógina que vivemos. Aquele homem que agride a ex-mulher por se descobrir lésbica; que mata a namorada; expulsa a filha de casa; bate na filha como meio de correção educacional por sua orientação sexual ou identidade de gênero; segrega a colega de trabalho ou de escola; comete o espúrio estupro corretivo é o mesmo homem que se excita vendo duas mulheres trocando carícias sexuais, que pode ser desde um beijo até uma cena de sexo explícito.

Quantos casais de mulheres já não foram abordadas de forma machista e ou violenta por um homem que se convida para participar da relação? Será que esse mesmo macho alfa abordaria a mulher se ela estivesse com outro homem? Sabemos a resposta.

As mulheres lésbicas, além de sofrerem opressão sobre sua orientação e seu desejo, viverem às margens da invisibilidade, são vistas de forma hiperssexualizada, tendo seus corpos objetificados. Há um permissivo social a essa cultura erotizada das relações lésbicas, que serve exclusivamente ao prazer do homem, dentro das mídias da pornografia, transformando a mulher lésbica em alvo de fetiche e do poder do macho, como se sua existência e aceitação estivessem vinculadas à satisfação da lasciva masculina.

Aliás, a sociedade reluta em mostrar comerciais com casais homoafetivos em demonstrações de amor e cenas de novela com casais lésbicos e gays, mas as revistas de entretenimento masculino estão repletas. Duas mulheres semi-nuas abraçadas em insinuações sexuais em comerciais de cerveja é permitido; no entanto, uma cena que mostre um ambiente familiar de uma família formada por mulheres lésbicas agride a moral da família brasileira.

Os meios televisivos mostram diariamente cenas de morte, estupro, tráfico de drogas, traições conjugais, familiares, incesto, violência desmedida, roubo, armamento, pedofilia, mas o que pode destruir a família honesta e ser impróprio para crianças é uma demonstração de amor num beijo homoafetivo. Desculpem, a hipocrisia além de burra é violenta. Criamos uma sociedade cega, envenenada de ódio, cujos filhos despreparados para respeitar o próximo, serão adultos preconceituosos incapazes de conviver em paz com a diversidade.

Patrícia Mannaro é Secretária Geral da Aliança Nacional LGBT.

Quinta-feira, 7 de setembro de 2017
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