O que senti ao visitar um extinto campo de concentração na Alemanha só para mulheres
Quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O que senti ao visitar um extinto campo de concentração na Alemanha só para mulheres

Foto: Reprodução 

Em julho deste ano, eu tive uma experiência bastante particular, para dizer o mínimo. Como parte de um curso, passei 3 noites e quatro dias em um território que serviu de campo de concentração durante a segunda guerra mundial.

Diferente de outros campos na Polônia, o campo de concentração de Ravensbrück (Alemanha) inicialmente foi formado para abrigar mulheres que de alguma forma não agiam conforme o que era esperado delas: mulheres identificadas com “problemas sociais”, acusadas da prática de crimes (aborto dentre eles), envolvidas em movimentos políticos contra o regime nazista e aquelas que se recusavam a negar sua fé como testemunhas de Jeová.

As judias chegaram um pouco depois do estabelecimento do campo de concentração. Tratava-se de um campo de trabalhos forçados e não de exterminação. Algumas empresas, principalmente têxteis e relacionadas ao desenvolvimento de tecnologia, cresceram e prosperaram utilizando-se do trabalho das mulheres desse campo. Eventualmente, cerca de 20.000 homens foram trazidos para trabalhar na expansão do campo, uma vez que a produção prosperava aceleradamente.

Ravensbrück é um lugar estranhamente calmo e bonito. Há um grande lago, há plantas, pássaros. Fica a 2km de uma pequena cidade, que pode ser avistada do outro lado do lago, que aliás, foi o recipiente de cinzas humanas. Cinzas que também foram usadas para pavimentar estradas ao redor do campo. Tudo ali foi construído com o trabalho das mulheres do campo, bem como com suas cinzas.

Sempre achei que visitar um extinto campo de concentração me ajudaria a entender melhor o holocausto. Na bagagem de volta, trouxe mais dúvidas do que respostas.

O que aconteceu ali não é possível de se compreender, ainda que se durma nas casas que um dia foram das guardas responsáveis pela segurança do campo. Ainda é difícil entender como algo assim pôde acontecer.

Racionalmente, há diversas explicações e eu as compreendo. Mas emocionalmente, não consigo aceitar, não consigo entender: como é possível não ver um ser humano naquela pessoa à sua frente? Como processos de desumanização podem são tão profundos a ponto de levar a genocídios?

Ao visitar Ravensbrück também me choquei com a ostensiva segurança, por câmera e também com guardas 24 horas por dia. Isso porque o campo costuma ser alvo de ataques de grupos neonazistas, que tentam destruir as evidências do que ocorreu ali.

O guia que nos acompanhou durante os 4 dias que estivemos no campo, disse-nos muitas vezes sobre a importância de lembrar o que se passou ali. Para que aprendamos e estejamos atentos: pode sempre acontecer de novo.

Uma sociedade que se permite esquecer, está sujeita a repetir os mesmos erros. Eu voltei pensando no quanto a memória, individual e coletiva, é valiosa. E o quanto no Brasil, lembramo-nos de esquecer momentos traumáticos. Sentimo-nos desconfortáveis, preferimos “pensar que já passou e olhar pra frente”. Mas como? Como se olha pra frente sem entender o que aconteceu no passado?

Quando li esses dias que um famoso cantor negou, em entrevista, que o Brasil viveu uma ditadura militar e que pessoas morriam por ser contra o regime, me deixou de cabelos em pé. Seria desconhecimento? Ou apenas uma vontade muito grande de negar o acontecido? O fato de o Brasil anistiar inclusive torturadores e muitas vezes homenageá-los com nomes de ruas e praças talvez tenha um relevante papel nesse esforço por negar e esquecer: foi o preço que pagamos por uma transição negociada para a democracia.

Como consequência, não enfrentamos com as continuidades que ainda se manifestam na nossa sociedade. A Comissão da Verdade apontou, dentre outras coisas, que a nossa polícia ainda opera nos moldes da ditadura militar: desaparecimentos forçados e tortura ainda são rotina.

Recentemente, uma exposição de arte foi fechada por pressão de um grupo social que a considerou “imoral”. Desde 2013, grupos que clamam pela volta dos militares se avolumam nas manifestações: de rua e virtuais. Quando lembro que em 64, a ditadura foi instaurada com apoio de parte da sociedade, que clamava por mais “ordem” (Marcha da Família com Deus), penso nas sérias consequências de nosso esforço em esquecermos.

Leia também: Acendam as tochas: a criminalização da exposição queer no Santander Cultural

Como eu aprendi em Ravensbrück, lembrar é central para que possamos avançar.

Para lembrar, é preciso resgatar a história, coletar depoimentos, registrar, construir memoriais, estudar, discutir com a sociedade essa história. Essa é uma luta dos sobreviventes, bem como familiares de desaparecidos políticos e mortos durante a ditadura.

Não temos um holocausto na nossa história, mas temos eventos traumáticos sobre os quais precisamos nos debruçar e buscar entender. Só temos a agradecer a eles por não desistirem e nos alertar constantemente que pode acontecer de novo. Somemo-nos a eles, é o único caminho para avançarmos enquanto sociedade.

Tamara Amoroso Gonçalves é Mestra em Direitos Humanos pela USP e doutoranda em direito pela Universidade de Victoria, Canadá. Integrante do CLADEM/Brasil e do GEA. Pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir (Universidade Concordia, Canada). Autora de diversas obras sobre direitos humanos, dentre elas Direitos Humanos das Mulheres e a Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (Saraiva, 2013).

 

Quarta-feira, 13 de setembro de 2017
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