Repleto de senso comum, filme da Lava Jato é desserviço para o cinema
Sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Repleto de senso comum, filme da Lava Jato é desserviço para o cinema

Ultimamente o Brasil se deparou com uma forte crise política pública e noticiada como nunca antes, o que gerou uma pesada demanda por audiência de escândalos que se superassem cada vez mais. A imprensa relatava os fatos antes mesmo de eles se oficializarem, disputando por informações vazadas ilegalmente e às vezes parecendo tomar partido ou mesmo dirigir os acontecimentos, como se estivéssemos acompanhando um roteiro de Hollywood aplicado aos telejornais. O tempo em tela de cada figura envolvida, o que era deixado no extracampo, a trilha sonora de suspense e as manchetes manipuladas poderiam ter se equiparado ao nível de filmes indicados ao Oscar.

Agora, em 2017, poucos anos após o estouro do primeiro estopim da hoje notória operação Lava Jato, apenas um ano após os fatos centrais chegarem ao Congresso Nacional e que ainda estão mudando os cursos do país, é realizado um filme sobre o assunto para os cinemas brasileiros com pretensão comercial de grande porte: “Polícia Federal: A Lei É Para Todos” de Marcelo Antunez. Pretensão, aliás, tanto em produção quanto em número de salas para as quais o filme foi distribuído.

Leia também:

Filme da Lava Jato acenará para homenagem ao midiatismo da operação

Jurista critica postura de Moro como celebridade em pré-estreia: “inacreditável”

Mas para separar a narrativa cinematográfica que a imprensa adotou antes mesmo de a história se tornar filme e a diferença disto para sua conversão em longa-metragem, é válido se perguntar primeiro o que é Cinema, uma pergunta muito genérica, mas que até hoje gera muita confusão. Gravar algo, por exemplo, no próprio celular, e exibir na tela de casa à noite para família e amigos pode até ser cogitado como um filme, mas, infelizmente, cinema não é. Existe um trinômio agregado que confere uma conotação muito mais comercial à palavra: produção, distribuição e exibição, sem os quais o cinema não gera empregos nem lucro, o que amplifica todo um sistema para além do filme. E é engraçado considerar este formato mais complexo de mercado se pensarmos que outros aspectos do lançamento de “Polícia Federal: A Lei é Para Todos” também andam se encaixando neste trinômio, como a imprensa e a política brasileira.

Como assim? De certo modo tanto a imprensa quanto a política possuem de forma proporcionalmente adaptada o trinômio produção, distribuição e exibição. Mas isto pressuporia que estas atividades deveriam ou poderiam gerar lucro? A imprensa sim, afinal, possui anunciantes para a própria sobrevivência, o que sempre foi um ponto delicado sobre sua isenção. Mas a política, poderia?

Em parte é exatamente sobre isso a investigação da Operação Lava Jato, sobre superfaturamento de obras públicas para lucro de empresas privadas. Com certeza não é o único nem talvez seja o maior caso de corrupção que já ocorreu no Brasil, apenas foi o mais noticiado e com maior transparência, já que os registros da época da Ditadura ou dos governos anteriores jamais vieram a público. Pois o filme acaba tangenciando tudo isso para contar sua trama, em sua única sequência de animação introdutória, que apesar de deslocada é bem desenhada:

 

Quase como se contasse uma fábula (?!), retornamos ao ano de 1500 com o Descobrimento do Brasil (sim!) e vê-se bastante resumido, pulando a Ditadura, como o Brasil sempre foi corrupto. Dos senhores de engenho aos congressistas atuais. E ainda consegue encontrar um culpado logo nos minutos iniciais de projeção: A caneta!

 

Com a premissa básica de que o poder da caneta é sempre a autoridade máxima por trás de quem perde e quem ganha para contar a história final, e não a pessoa por trás da caneta que assina, afinal quem ocupa os cargos é sempre substituível, o filme assume desde o princípio sua intenção.

Em primeiro lugar: ao reconhecer a caneta e internalizá-la como personagem, autometaforiza toda a sagacidade de adaptar um roteiro Hollywoodiano que já estava pronto desde os noticiários sobre os sucessivos escândalos, onde a última pessoa que sequer segurou a tal caneta deste roteiro seria o povo, até porque seu ponto de vista jamais aparece no filme.

E em segundo lugar: ao transformar a caneta em sujeito e quem a segura em objeto, retira o poder da subjetividade das escolhas, e trata figuras reais e complexas como personagens unidimensionais não problematizados. O filme apenas contém heróis ou vilões. A polícia federal e o judiciário (na figura do Juiz Sergio Moro) são heroicos. Os políticos seriam vilananescos.

Hannah Arendt já refletia sobre isso com um pensamento que ficou popularizado como “a banalidade do mal”, questionamento que ela desenvolveu durante o julgamento após a 2ª Guerra Mundial do nazista Adolf Eichmann, de que ao retratarem o homem como um monstro, abstrairiam ele da realidade como se apenas psicopatas pudessem ter cometido tais atrocidades, quando qualquer ser humano em circunstâncias específicas poderia estar passível de repetir tais erros.

“Polícia Federal: A Lei É Para Todos” comete exatamente este erro, abstraindo seus personagens da realidade como se todos estivessem numa saga de James Bond, sendo ou espiões com licença para matar em nome da Rainha ou vilões cartunescos: da amante de Youssef, a doleira Nelma Kodama, que parece cafetina de filmes de John Woo, ao Lula de Ary Fontoura, retratado com uma agressividade à la Spectre contra 007, contrário ao enorme carisma que mesmo quem o odeie politicamente jamais deixa de reconhecer.

E tudo isto se deve a como a narrativa está estruturada. A primeira metade do filme investe na linguagem investigativa razoavelmente eficiente de thriller americano, como se tivesse sido dirigido às vezes por um Michael Bay mais tênue, no início de carreira (vide a cena dos caminhões e helicóptero, com bons efeitos sonoros), tirando o fato de que mesmo os filmes do Tio Sam já costumam problematizar bem melhor suas próprias forças policiais, que nunca são unidimensionais. Até porque é duro de engolir o FBI e a CIA como cavaleiros de armadura dourada após tantos envolvimentos em escândalos no mundo todo – postura que filmes do naipe de “Tropa de Elite” 1 e 2 já haviam sido mais felizes em transportar com camadas para a realidade brasileira.

“Polícia Federal: A Lei é Para Todos” escolhe uma narrativa tradicional, até com uma desnecessária narração em off como em filme noir (feita por Antonio Calloni) para unir os saltos no tempo na montagem, porém não como uma voz da consciência, e sim como reiteração dos fatos já descritos dentro das cenas.

Os destaques no elenco vão sendo apresentados de forma rasa, apenas tridimensionalizando de fato um deles, o personagem ‘Julio Cesar’, interpretado por Bruce Gomlevsky, pois é mostrada sua família, dramas internos e seu posicionamento político petista, prévio às investigações, quase que para eximir o filme de culpa. Isto porque a partir da segunda metade do filme, todo o peso da primeira metade recai em acusar o PT mais do que qualquer outro partido, como se fosse um mentor genial do mal de toda a corrupção descrita no início da projeção, desde o Brasil de 1500.        

O problema deste maniqueísmo simplório já começa pelo fato de que o filme até anuncia em seus créditos finais uma sequência por vir, “Polícia Federal 2”, e que pressuporia retratar outros políticos e partidos diferentes envolvidos no escândalo. Porém, estamos abordando personagens históricos e reais, com investigações em andamento, sem condenações transitadas em julgado ainda, somente o julgamento da imprensa, o qual começa a ser reproduzido ipsis litteris a partir da segunda metade do filme. Quase como se os personagens perdessem de vez a subjetividade e passassem apenas a recitar manchetes.

Apesar de que a própria imprensa praticamente não apareça como personagem, muito menos as erratas que ela cometeu intencionalmente no trajeto, com única exceção de uma jornalista que é isolada e, curiosamente, retratada como petista – fato bastante contraditório já que a imprensa quase em peso se posicionou de imediato contra o PT. Seria mais uma forma vazia de tentar emular isenção? Até porque a única vez que o filme sequer tenta cogitar que a realidade seja mais ampla do que apenas a dicotomia da bipolarização direita-esquerda é quase ao final e vem do líder das investigações (Antonio Calloni) que até então não havia emitido nem uma opinião própria, ao exprimir que se tirar um corrupto, entra outro no lugar… Mas deixa no ar outro perigo quando um policial olha no olho do outro e diz: e quando não sobrar mais nenhum? Ou seja, querem dizer que só sobra a “Ditadura Militar”…?

Não que o povo não tenha o direito de debater e até ver como catarse esta reflexão projetada na arte, mas ao escolherem realizar este filme tão cedo, sem um pouco mais de distanciamento, há vários princípios constitucionais e éticos potencialmente quebrados no caminho. Um exemplo é o da presunção constitucional de inocência, que muitos não sabem do restante da letra da Lei, que diz que todos são inocentes até que se prove o contrário por condenação transitada em julgado. E num filme de alcance de massas, que se propõe ao entretenimento com todas as poderosas técnicas de linguagem cinematográfica, aqui emprestadas do gênero policial e suspense, o espectador sai acachapado de tal forma que aquele produto lhe é vendido como uma verdade.

Ao retratar personagens ainda sendo julgados pelo Poder Judiciário, o qual deveria ser isento e independente dos outros poderes, inclusive o de imprensa e midiático em geral, o que parece é que a adrenalina entrega os casos para que o filme se torne o acusador, julgador e carrasco, condenando todos os que passam na tela com auxílio da opinião pública. Tudo isto sem direito a garantias fundamentais como a ampla defesa e o contraditório, bem como o direito ao devido processo legal, já que o cinema teria feito todo o serviço por si só – princípios constitucionais estes previstos para impedir um Estado discricionário e ditatorial de perseguição.

Sem falar que o filme mal tenta justificar algumas controvérsias cometidas pelo Juiz Sérgio Moro na pele de uma performance canastra de Marcelo Serrado, que posteriormente teriam sido acusadas de ilegalidades pelo Juiz ter excedido o exercício de sua função e perdido completamente a imparcialidade, como no vazamento de uma escuta gravada entre a então presidenta Dilma e Lula ou a condução coercitiva de Lula, retratado de forma redundante e sem provas como o grande vilão, pois a projeção acaba antes de qualquer outra acusação que viria posterior a dele, como de Cunha, Aécio, Temer e etc…   

 

Cinema é uma arma muito poderosa e deve ser usada com responsabilidade.

 

Para aqueles que pensam que a máxima é apenas a diversão podem ser profundamente manipulados pelo poder indutor da imagem. Não à toa, quando se quer dominar um país ou uma cultura, uma das primeiras armas para minar a independência do lugar é a inserção da cultura dominante do outro na forma do cinema. É assim que os EUA podem não estar mais economicamente no primeiro lugar do mundo, mas ainda são a força número um de influência cultural no resto do planeta.

Foi assim também que no século passado os europeus conseguiram manter sob o julgo de colônia os países africanos, adentrando com seus cinemas eurocêntricos e imagens condicionantes a proibir os cidadãos locais de constituírem sua própria identidade com potencial de reprodução em massa pelo audiovisual. E este filme sobre a Operação Lava Jato faz exatamente isso. Vende uma versão da realidade incompleta e ainda não acabada para poder se julgar pelo senso comum. Provoca uma formação de opinião sensacionalista, na mesma semântica de como a imprensa está trabalhando as notícias. Se não for grande, não vende. Se não vender, não interessa. E parece que o filme está vendendo. E muito.

Filippo Pitanga é Advogado e crítico de cinema. Membro da Associação de Críticos de Cinema do RJ, Professor na Academia Internacional de Cinema e Passagens.

Sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend