O lacre é uma afirmação de (re)existência
Sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O lacre é uma afirmação de (re)existência

Foto: Liniker/Álbum Zero

* Texto em resposta ao publicado por Nina Lemos na Revista Tpm

 

O que são as identidades? Como elas se configuram e por quê? Quais são os mecanismos de invenção e reinvenção criados por indivíduos subalternizados para subverter sua situação de opressão e potencializar resistências? Por que as resistências e reinvenções destes indivíduos, ao invés de causar reflexão nos que se encaixam no campo hegemônico, tem feito emergir “cansaços” e nenhuma empatia?

Aprendi faz pouco tempo um pensamento indígena muito importante, e que considerei simbólico de tempos nos quais indivíduos com vidas recheadas de privilégios, mas que se reivindicam em um campo progressista do pensar e do agir, se negam no exercício do que muitos consideram uma característica humana: a empatia. O conceito era o de que, resumindo, temos duas orelhas e uma boca porque é preciso que escutemos mais o que está a nossa volta, percebamos mais o entorno e o outro e que falemos pouco, mas de modo profundo, a ponto de conseguir fazer com que o pouco que falemos ecoe e se amplie positivamente no mundo. Um detalhe que entendo como fundamental para entender este pensamento: há as vozes autorizadas e superestimadas na qualificação do falar e do agir, do se colocar no mundo. E é para elas que o pensamento se objetiva, ao chamar nossa atenção para a observação mais apurada sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca.

 

Com isso, faço mais perguntas: devem ser caladas as vozes e resistências historicamente marginalizadas? Será o ser subalternizado que causa o desequilíbrio desigual do agir, pensar e existir? A lógica, portanto, deve primar pelo enfoque no demasiado de representação e amplificação das vozes hegemônicas, que sempre carregam, na atual sociedade, a premissa da verdade e do aceitável, mesmo que estejam, na realidade, dizendo barbaridades superficiais.

 

A produção de conhecimento e ação de mulheres negras, notadamente do pensamento feminista negro, como nos alerta Patricia Hill Collins, tem algumas premissas básicas: o questionamento do universal e a reivindicação das pluralidades; uma formulação própria realizada a partir das necessidades e realidades de mulheres negras, não sendo um aditivo do que se supõe um “feminismo geral”; a defesa de si conectada a defesa do outro, tendo em vista o processo de desumanização que corpos negros passaram; a descolonização dos corpos, mentes e espírito negros, tendo a defesa da liberdade como ponto inegociável; e, por fim, o conceito de interseccionalidade, sublinhado por um projeto de disputa de poder, configurando o que seriam estas identidades existentes em resistência.

Tássia Reis/Divulgação

Para a antropóloga Avtar Brah são várias as identidades que permeiam o nosso ser/estar. Neste sentido, não podemos considerar as identidades de modo estanque, mas em constante movimento. A intelectual afro-americana Audre Lorde, ao afirmar que não há hierarquia de opressões, fala deste constante movimento identitário, mas que sempre caminha junto de nós. Ao passo que não podemos separar o que são estas identidades, mas que estas nos acompanham, mesmo que algumas delas ganhem destaque em determinados contextos.

Há também importantes intelectuais que apontaram para a racialização dos aspectos fenotípicos das sociedades e etnias como um processo fundamental para o sucesso da experiência colonial. Os discursos sobre o corpo foram, e são, cruciais para a constituição do racismo. Por exemplo, a ideia de lugar atrelada a ideia de “nação”, junto a esta racialização, produzirá um efeito de eterno “não-lugar”, de vazio de pertencimento nos povos sequestrados de África para a escravização no Brasil. Este grupo social terá sempre sua contribuição subvalorizada e desqualificada na constituição do que é este novo lugar. Esta constante negação passará por todos os campos das experiências destes indivíduos e deste grupo social: nas relações sociais, nas subjetividades e no campo das identidades. Este “não-lugar” causará o incômodo sobre um “não-ser”, sobre “não saber o que se é”.

Com isso, é fundamental compreender estas construções identitárias sob bases ideológicas com o intuito central de subjugá-las e/ou exterminá-las. Conforme nos aponta o antropólogo Kabenguele Munanga, a nossa diversidade humana é um fato. A biologia e as ciências, contudo, contrariando uma construção político-social das desigualdades, apontou que esta diversidade não se presentifica do ponto de vista biológico ao apontar que somos, esmagadoramente em nossa estrutura biológica, iguais. Ou seja, um primeiro esforço, fruto de uma necessidade humana, de catalogação desta variedade transformou-se em uma hierarquização das diferenças, ou seja, constituindo a diferença não como uma variedade natural, mas como uma desigualdade. Ou seja, o campo das diferenças como desigualdades é puramente ideológico, social e político com o intuito de criar hierarquias nos sistemas de poder. Contudo, mesmo sendo inoperante biologicamente, estas identidades se mantém na realidade social, fazendo com que estes grupos sociais e alvos de subalternização usem da diferença como identidade como protesto frente as opressões vivenciadas. A categoria “negro” é adotada, portanto, na constituição desta “comunidade imaginada”, construindo mecanismos de defesa e sobrevivência diante do sequestro e da diáspora.

A historiadora e intelectual afro-brasileira Beatriz Nascimento chama este processo de uma experiência transatlântica, que faz com que a retirada do, agora denominado, negro de “seu lugar” transforme já seu corpo em uma memória e em uma resistência, forjando uma identidade nesta experiência transatlântica buscando reconstruir seu espaço e lugar diante deste não-lugar constante e imposto pelo processo de opressão racista e colonialista. Ou seja, estas identidades que irão se forjando e se reconfigurando com o tempo, neste intenso e constante movimento, constituirão mecanismos de resistência e sobrevivência diante deste processo de pretensa homogeneização advinda do sistema de opressões. Uma consciência cultural que forja identidades culturais constantes e múltiplas.

 

Quando falamos em quilombos urbanos e processos de valorização das subjetividades por parte deste grupo sócio-racial, como a produção de festas de coletivos negros, o “tombamento” ou mesmo “o lacre”, tratam-se de reconstruções em um contexto de (re)existências cotidianamente oprimidas e negadas.

 

Se, num primeiro momento, o sistema de colonização se deu pela força e violência físicas, num segundo momento ele se fixou por estereótipos sociais e narrativas negativas e de não pertencimento. Às mulheres negras, coube o estereótipo da hiperssexualização, exotismo e do trabalho braçal, negando lugar de beleza e valorização de si. Aos homens negros, relegou-se o estereótipo da violência, de violador sexual e de hiperssexualização desumanizadora. Portanto, estamos falando que as amarras raciais perpassam não apenas o campo físico, geográfico, político, econômico e social, mas também os campos simbólicos e psicológicos.

Não se trata, com isso, de reconstruir apenas um pertencimento territorial, mas um pertencimento de si ao enxergar-se no mundo, ao aceitar-se e celebrar suas características outrora desqualificadas. Daí surge o “lacre”. Não de uma imposição para um padrão comportamental, mas como uma exaltação de vivências negadas, como potencialização de experiências e resistências, como reconstrução de si e, portanto, do seu modo de ver, experienciar e compreender o mundo. Isto não é qualquer coisa.

Por fim, não se trata de “cansar” o outro, muito menos de um conceito para ser utilizado pelo hegemônico e historicamente “lacrativo” herdeiro de privilégios advindos de sequestros, roubos, estupros de experiências, povos e seres produzindo desigualdades políticas, econômicas, culturais, raciais e psíquicas. Trata-se de algo para revigorar autoestima, transformar em potência e subverter sentimentos de autonegação, se enxergar no mundo e enxergar o outro igual e dizer que sua existência está presentificada e que tem importância no mundo.

Se é pedido que existam estudos sobre estes fenômenos de resistência, demonstra-se total desconhecimento de uma vasta produção, que não se prende apenas ao campo acadêmico, mas se estabelece pela concepção da epistemologia destes povos construída, também, por suas vivências e em ambientes que extrapolam o olhar eurocêntrico da produção de saber.

Se olhar no espelho e dizer a si mesma que “está um lacre” é re-humanizador diante de um mundo que todos os dias nega nossa existência e humanidade. À branquitude sempre coube, com suas nuances também, devido a opressão machista sobre mulheres brancas, um lugar aceito e desejado no mundo. À negritude, não. Por isso que certas expressões surgem como resistências e reconstrução de si diante do mundo. Um processo de cura fundamental para a possibilidade de fortalecimento para a luta cotidiana que é se afirmar negro em um país estruturalmente racista.

Não cansemos, portanto, de afirmar a nós mesmas: Black is beautiful. Amiga, você é o próprio lacre. Ser preta é lindo.

Juliana Borges é pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política, onde estuda Sociologia e Política.

Sexta-feira, 22 de setembro de 2017
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