O pulso da memória da Ditadura: o conflito presente
Terça-feira, 26 de setembro de 2017

O pulso da memória da Ditadura: o conflito presente

Depois da censura se tornar parte ordinária da anêmica democracia brasileira, os últimos eventos das semanas passadas conseguiram encurralar ainda mais os sentidos da democracia. As declarações do general Antônio Mourão indicaram um horizonte possível (e não imaginário) de intervenção militar no Brasil. Suas declarações colocaram, por si, a democracia nas cordas, mas as respostas dos diferentes responsáveis hierárquicos foram piores ainda, reforçando um horizonte conflitivo. Assim, tanto as manifestações do Ministro da Defesa, Raul Jungmann, como do Comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, não mudaram nem desdisseram com solidez a ameaça do norte proposto pelo Mourão.

A possibilidade de uma intervenção militar numa determinada sociedade está baseada na memória que essa comunidade tem sobre os eventos passados. Os sentidos do passado e sua memória se tornam objeto de lutas políticas e sociais. A memória não é o passado, senão a maneira como os sujeitos constroem um sentido do passado, um passado que se atualiza em seu enlace com o presente e também com um futuro desejado no ato de rememorar, esquecer e silenciar. O passado já passou, é determinado, não pode mudar-se. O que muda é o sentido desse passado, sujeito a reinterpretações, ancoradas na intencionalidade e nas expectativas olhando o futuro.

Apesar dos enormes esforços dos familiares, vítimas, organizações e movimentos de direitos humanos, a memória sobre o passado recente ainda está em plena disputa. As declarações mostram que a memória sobre a ditadura ainda falta ser ressignificada, reconstruída, com valores democráticos e plurais.

As declarações do General Mourão tiveram aceitação nos âmbitos que estão banhados na prepotência da ignorância e do egoísmo. Esta aceitação por parte de setores da sociedade nos indica o quanto ainda falta para ressignificar os sentidos do autoritarismo. “Bala neles” ou “vamos a limpar esta bagunça” são gritos covardes, agravados pelo contexto de aumento de pobreza e conflito. Os tanques tranquilizam setores da sociedade que não tem que conviver diariamente com eles. Monumentos metálicos para setores acomodados, mas a imagem da violência e exceção para aqueles que têm que coexistir com eles. O outro não importa, não é parte da sociedade “do bem”. A corrupção é o outro, não a gente. Um sentido distorcido e excludente de um regime político dificilmente considerado democracia. Uma divisão onde todos perdemos. Mas os setores mais vulneráveis são os que pagam a conta da violência. Estes eventos nos exibem que as fronteiras entre democracia e autoritarismo no Brasil não são evidentes nem fortemente estabelecidas.

No contexto atual, de radicalização do conservadorismo, pareceria que as fronteiras foram se desfazendo numa velocidade que nos tomou de surpresa. Mas longe está de ser surpresa. A memória da ditadura é um campo em disputa. E novos processos históricos, novas conjunturas e cenários sociais e políticos não podem deixar de produzir modificações nos marcos interpretativos para a compreensão da experiência passada e para construir expectativas. Neste sentido, as declarações e seus apoios prepotentes e violentos nos mostram quanto o novo contexto pode incidir e ressignificar ou aprofundar certo tipo de memória coletiva. Por um lado, as manifestações pró-intervenção indicam a ausência de imaginação democrática, por outro, fazem soar os alarmes de estarmos a passos agigantados atravessando a fronteira da democracia, ingressando num regime que na América Latina já conhecemos e rejeitamos.

 

O Brasil está cooptado por um grupo delitivo no poder, apoiado por setores que pretendem tirar benefícios numa democracia que está em coma.

 

A sociedade comovida olha o repertório de possibilidades para terminar esta fase sinistra de instabilidade institucional e da ostentação dos privilégios e da impunidade. Dentro deste repertório, pareceria que o autoritarismo ainda é uma alternativa. E ela é uma opção porque a memória coletiva sobre o passado recente ainda não foi permeável aos sentidos democráticos e plurais. Precisamos menos intervenção militar e mais construção de sentidos democráticos e inclusivos.

Lutar pela memória é uma atividade permanente, constante, indispensável num país que ainda tem como repertório de soluções o autoritarismo, a violência e a exclusão. Cada etapa e cada conjuntura implica abrir novas oportunidades e também fechar ou obturar outros processos. É o momento crucial para construir e defender uma memória coletiva com valores democráticos e que garantam direitos e oportunidades para o futuro. Estamos num processo contraditório, com velocidades múltiplas, de vozes divergentes e de eventos antagônicos. Não podemos abrir mão da democracia, e para isso precisamos lutar pela memória. E isso é uma atividade do presente. Enfim, a memória é um campo em conflito onde se pugnam versões do passado que legitimam, ou não, certos valores presentes e possibilidades futuras. Precisamos ressignificar a nossa memória coletiva, com valores democráticos e com expectativas de um futuro melhor, com direitos e sem violência.

Andrés del Río é Doutor em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado de Rio de Janeiro (IESP/UERJ). Professor Adjunto de Ciência Política do Bacharelado em Políticas Públicas da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR). Chefe de departamento de Geografia e Políticas Publica DGP-IEAR-UFF. E-mail: [email protected]


Referências

JELIN, Elizabeth. (2017), La lucha por el pasado: como construimos la memoria social. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Siglo XXI Editores, Argentina.

Terça-feira, 26 de setembro de 2017
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