Do Jardim do Éden da escola pública: o currículo confessional de Amapola
Sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Do Jardim do Éden da escola pública: o currículo confessional de Amapola

Amapola, lindisima amapola,

Será siempre mi alma tuya sola.

Yo te quiero, amada niña mia,

Iqual que ama la flor la luz del día.

Amapola, lindisima amapola,

No seas tan ingrate y ámame.

Amapola, amapola

Cómo puedes tú vivir tan sola.

Amapola vai à aula de religião. Sua escola é pública e sem partido[1]. O pátio interno está composto de frondoso jardim: chama-se Éden.

Foi construído pelos obreiros do Senhor (S).

A Obra é apresentada a Amapola:

– Líndíssima!

Exclama o excelso S Supremo.

Leia também: “Trevas”. Juristas comentam decisão do STF em autorizar o ensino público religioso

Seus obreiros facultam-lhe conhecer o Gênesis. Ali estão os ensaios e desenhos preliminares de uma Terra (T) prometida.

Promessa que, para assim se perpetuar, segue não cumprida. T demarcada e esquecida.

Amapola vive sem T, mas recebe a Carta de Paulo aos Efésios (5, 22-24):

As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos.[2]

Mas escolheu viver só…

– Ingrata!

Como pode não se submeter? Como pode querer compreender? A ela cabia apenas servir e amar. Mas pensando ser facultativa a escolha, escolheu entender.

Matriculou-se na escola da rede municipal do bairro e somou-se ao fluxo de meninas que prova do fruto do conhecimento.

Seu deleite e seu delito. No jardim do Éden aprendeu a religião da serpente e descobriu, depois de nove meses, que S disse “Faça-se!” (F).

Amapola estava diante do Gênesis (3, 16): “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio.

O Pretório de S amaldiçoou T com um simples F.

Amapola não aprendeu com a Carta de Paulo a Tito (2, 3-5):

Os mais velhos sejam sóbrios, graves, prudentes, fortes na fé, na caridade, na paciência. Assim também as mulheres de mais idade mostrem no seu exterior uma compostura santa, não sejam maldizentes nem intemperantes, mas mestras de bons conselhos. Que saibam ensinar as jovens a amarem seus maridos, a quererem bem seus filhos, a serem prudentes, castas, cuidadosas da casa, bondosas, submissas a seus maridos, para que a palavra de Deus não seja desacreditada.

Ela era menina e as de mais idade não conheceram nem compostura nem santa.

Não maldiziam, mas mal comiam. Sacrificaram-se para manter Amapola sóbria, embora sobrevivessem intemperantes.

O ensinamento do amor aos maridos se perdeu na mesma estrada por onde eles partiram ao abandonar seus lares. Amores partidos. Ficou Amapola e as várias meninas iguais a ela.

A lição do cuidado com a casa foi disciplina de dispensa obrigatória: “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”, não tinha casa.

A palavra de Deus seria creditada.

Na grade curricular de Amapola, o Senhor amaldiçoou a Terra e disse ao homem Faça-se:

Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gênesis 3, 17).

A aula de religião foi pública e sem partido.

O pátio interno da escola estava decomposto.

Ali, no Jardim do Éden, para Amapola, linda e ingrata, foi o princípio do fim.

Renata Nóbrega é membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mestranda em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Percebe que o capital rotula, pintando peles de cores e apelidando sexos de frágeis, mas acredita na paleta viva do arco-íris e na força da luta nada frágil do feminismo revolucionário para rearranjar a estrutura dinâmica de gênero e classe.

Compõe a coluna Sororidade em Pauta em conjunto com as magistradas Célia Regina Ody Benardes, Daniela Valle da Rocha Müller, Elinay Melo, Fernanda Orsomarzo, Gabriela Lenz de Lacerda, Juliana Castello Branco, Laura Rodrigues Benda, Patrícia Maeda, Rose Taveira e Nubia Guedes.

[1] Acerca das escolas públicas e das aulas de religião, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que o art. 210, §1º, da Constituição Federal deve ser interpretado como permissivo ao ensino religioso confessional facultativo. 

[2] Os trechos da Bíblia transcritos no artigo foram extraídos de https://www.bibliacatolica.com.br/

Sexta-feira, 29 de setembro de 2017
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