Antonieta de Barros: uma mulher à frente do seu tempo
Quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Antonieta de Barros: uma mulher à frente do seu tempo

Foto: Reprodução 

Era 1934

E não bastava ser mulher

Era mulher e pobre

E não bastava ser mulher e pobre

Era mulher, pobre e negra

Ainda assim conseguiu ter voz

Ela foi a primeira parlamentar mulher do Brasil

Eu já estivera várias vezes no Plenarinho Antonieta de Barros, mas seu nome jamais fizera qualquer sentido especial para mim… Talvez a invisibilidade dos heróis e heroínas negros e negras nas narrativas da história estadual e nacional tenha sido responsável por minha falta.

No ano de 2016, em meados de novembro, Samuel Schimidt Figueira dos Santos, o Samuka, coordenador do Projeto Cidades Invisíveis e eu fomos agraciados com um selo de certificação de boas práticas na área da Infância e da Juventude, pela Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da ALESC – Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. Foi nessa ocasião que Samuka me apresentou Antonieta de Barros cuja história de vida e de luta despertou meu interesse em conhecê-la um pouco mais.

Catarinense, filha de ex-escravos, nascida em 17 de julho de 1901, Antonieta de Barros perdeu o pai cedo e sua mãe, escrava liberta, ficou responsável por sua criação, tendo, para auxiliar na sobrevivência da família, feito de sua moradia, uma casa de estudantes. Locava cômodos para aqueles que vinham de fora estudar na Capital e foi por meio do contato diário com eles que Antonieta começou a se alfabetizar e despertar para o processo educacional.

Em 1920, iniciou suas atividades jornalísticas dirigindo o jornal ‘A Semana’ e o periódico ‘Vida Ilhoa’ nos quais defendeu o empoderamento das mulheres e produziu sérias críticas ao racismo da época. Transformou-se escritora sob o pseudônimo de Maria da Ilha, difundindo essas ideias através de seus textos e, posteriormente, sob o mesmo pseudônimo, publicou o livro “Farrapos de Ideias”.

Em 1922, como educadora lecionou em três colégios e, por acreditar que “ser analfabeto é como ser cego para os códigos que regem nossa vida cotidiana, do itinerário do ônibus, a uma placa de direção”, fundou em sua própria casa o Curso Particular Antonieta de Barros, uma escola de alfabetização.

Mesmo tendo lecionado em escolas regulamentares, manteve esse curso durante toda a vida.

E a partir de então ela se transformou numa sonhadora, idealista fisioterapeuta, guia turística, roteirista, política, professora de todas as matérias, profissional de telemarketing, executiva, assessora de imprensa, jornalista, roteirista e feminista.

Foi através do jornalismo que difundiu suas ideias feministas tendo integrado a Frente Brasileira para o Progresso Feminino.

Antonieta teve que romper muitos obstáculos e preconceitos. Envolveu-se em debates sobre civilização, educação, direitos civis, sociais e políticos e, em 1934, foi eleita Deputada Estadual, dois anos após ter sido garantido às mulheres o direito ao voto.

Ela foi protagonista de sua época.

E quebrou muitas barreiras. Conseguiu passear e atravessar a década de 30, numa sociedade racista, machista e burguesa, tendo sido respeitada como grande educadora e representante política da população. Defendia que:

“Toda ação precisa de um instrumento. O instrumento básico da vida é a instrução. Se educar é aprender a viver, é aprender a pensar. E nessa vida, não se enganem, só vive plenamente, o ser que pensa. Os outros se movem, tão somente. (…) Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar sem muletas e sem tropeços…”

Encerro este pequeno relato sobre Antonieta de Barros, com o poema que Samuka fez em sua homenagem:

“Ela era mulher, e quando mulher ainda não tinha voz!

Ela era negra, quando os negros ainda não tinham voz!

Mas ela tinha um sonho, e essa mulher negra, entrou para a história. Essa mulher foi a primeira mulher negra, deputada do Brasil.

Antonieta de Barros, se tu puderes ouvir essa homenagem que eu vou ler para ti, é para nos inspirar! São pessoas assim que transformam nosso cotidiano! Que nos inspiram a fazer uma coisa diferente!

Todos nós temos um sonho!

Mesmo que o duro sol seque nossa terra e nossas lágrimas.

Mesmo que a forte chuva inunde nossas casas e alague nossos corações.

Todos nós temos um sonho.

Ricos ou pobres.

Brancos ou negros.

Famosos ou desconhecidos.

Os sonhos são, acima de tudo, de todos os seres humanos.

Ninguém, onde quer que viva ou o que quer que faça, deve desistir de sonhar.

Quando calamos a voz de alguém que busca um sonho, todos nós perdemos

Porque a voz do outro também é a nossa voz

Porque as lágrimas dos outros, também são as nossas lágrimas

Porque o sorriso do outro, também é o nosso sorriso

Vamos construir nossas casas de portas abertas

para que todos vejam a cor de nossos olhos e a cor de nossas peles

Vamos construir um mundo que seja nosso.

De cada um.

Um mundo ser humano.

Porque o tempo é agora.

De viver e de acreditar.

De sorrir e de sonhar.

Eu sou, porque nós somos!”

 

E que continuemos a sonhar por uma sociedade mais justa, mais igualitária, menos racista, menos machista e mais humana!

Ana Cristina Borba Alves é Juíza de Direito em SC, Associada da AJD – Associação Juízes para Democracia, Mestre em Ciências Criminais PUCRS, Presidenta do FONAJUV – Fórum Nacional da Justiça Juvenil e Diretora Cultural AMC/ESMESC. 


*Os dados históricos de Antonieta de Barros foram obtidos do Documentário “Antonieta”, de Direção de Flávia Person.

Quarta-feira, 4 de outubro de 2017
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