Retorno de Aécio ao Senado evidencia anestesia moral no combate à corrupção
Quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Retorno de Aécio ao Senado evidencia anestesia moral no combate à corrupção

 Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim, disse Millôr Fernandes.

A conveniência das reações à montanha russa dos acontecimentos envolvendo a vida política do País nos últimos tempos demonstram como esse bicho chamado democracia, longe de estar catalogado na agenda institucional, também é estranho às mentes e corações dos consumidores e consumidoras de notícias.

Se após o áudio de Jucá se tornou enfadonho permanecer apontando a incoerência dos que demonstraram seu descontentamento cívico recorrendo às panelas, o retorno de Aécio ao Senado sob os auspícios do STF torna evidente a anestesia moral de quem foi às ruas para salivar contra as pedaladas mas, entretanto, recebeu com a docilidade de um peixe-boi o cabeludo áudio da conversa entre o senador mineiro e o empresário Joesley Batista.

Não que seja possível pensar em republicanismo, principalmente no modo de produção capitalista. Aliás, praticamente nenhuma dessas quimeras liberais de bolso – “Estado Democrático de Direito”, “democracia participativa”, “sufrágio universal”etc – sustentam-se diante do jugo do poder econômico e da “plutonomia” que está no umbigo, ventre, tórax, cabeças e corações das ditas democracias liberais.

(O termo “plutonomia”, ou governo dos ricos, a propósito, não é uma excrescência oriunda de esquerdopatas como Guilherme Boulos e João Pedro Stédile, mas de memorandos da Citigroup, maior empresa do ramo de serviços financeiros do mundo, nos quais relataram a descoberta da roda e notificaram seus investidores mais ricos de que a America, aquela de Tocqueville, não é bem uma democracia como se diz por aí).

A questão é que para a mídia comercial e alguns segmentos da sociedade – principalmente os da turma de Paulo Skaf e Flávio Rocha, irretorquíveis gurus de uma manada de seguidores que parcelam o celular em 10 vezes no cartão mas se acham parte do clube – a ausência de democracia nunca foi um problema, vide o bebê sendo jogado fora com a água pelas abominações cognitivas que defendem a intervenção militar em nome do “Estado Democrático de Direito”.

A lambança institucional que se apoderou do Brasil, onde o Senado rememora a máxima orwellianade que todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros, está longe de ser suficiente para alterar a acidez gástrica dos ex-paneleiros.

Se o STF, numa epifania iluminista, descobriu Montesquieu no julgamento de Aécio, o tenentismo moralista verde e amarelo, deflagrador de explosões cívicas regidas pela espontaneidade de uma gigante ave inflável, teve o último restolho de indignação derramado no ralo do 31 de agosto de 2016, dia em que uma certa presidenta, eleita com mais de 51 milhões de votos, foi defenestrada do cargo para que se pudesse dilapidar sem maiores obstáculos o grande acordo civilizatório de 1988.

A verdade é que se o republicanismo, seja nas periferias ou no centro do capitalismo, sempre foi uma piada, a anedota alcançou proporções homéricas nestes tempos onde o Brasil do século XXI ressignificou o sentido da expressão “república de bananas”.

O caminhão de vícios e incontinências materiais existentes no processo de impeachment não foi suficiente para sensibilizar nem a suprema corte, que assistiu com entusiástica indiferença à implosão da Constituição da qual se diz guardiã, e muito menos o gado adestrado do pato amarelo, para quem há corrupções e corrupções.

A corrupção, a propósito, colocada convenientemente no topo dos problemas da nação, também nunca foi um problema para esse pessoal. Aliás, a corrupção das “instituições democráticas” – aspas, muitas aspas – pelo poder econômico jamais deixou de ser a regra, seja em sua perspectiva financeira, moral ou qualquer que seja. O que é assaltar um banco diante de fundar um, advertiu Brecht.

Aqui ou na America de Trump e de Tocqueville, o Estado nunca deixou de ser um comitê de gerência dos assuntos de interesse daqueles a quem a Citigroup direcionou seus infames memorandos. Há tempos que Fatorelli nos avisa.

O mal-estar da corrupção, difuso, disforme e ideologicamente descolado das amarras estruturais do modo de produção capitalista, foi fulanizado enovelizado ao ponto de cofres ainda desconhecidos terem se disposto a financiar um filme sobre a Lava Jato que reproduz toda atmosfera infantil e maniqueísta encampada pelos veículos de comunicação comerciais desde o dia em que Curitiba passou a receber o epíteto de “república”.

Esta novelização é responsável por ter causado um bloqueio cognitivo que neutralizou as possibilidades de análises racionais e “republicanas” acerca dos eventos que se assomavam. Estava, assim, chancelado o estado policialesco, representado em grampos sem ordem judicial, vazamentos seletivos e, sobretudo, na figura monárquica de um magistrado que parece não ter tomado conhecimento dos eventos de 1789. Foi nessa toada que se pavimentou a estrada que permitiria a interrupção da breve, superficial e engatinhante experiência democrática iniciada em 1988.

Mas como pode existir uma república fundada em códigos morais e agendada pelos arroubos de um magistrado que parece encarnar o próprio Luís XIV? Em um célebre diálogo de Matrix, um jovem aconselha Neo a não tentar entortar a colher que acabara de receber. “A colher não existe”, explica, de maneira que não é a colher ou sua representação que entorta, mas o próprio Neo.

Da mesma forma que não existe colher, também não existe democracia, conforme já refletimos aqui e aqui. A representação dela diante de nós ocorre de acordo com as nossas idiossincrasias – ou as idiossincrasias inoculadas em nossas cabeças acerca do seu conceito ideal, passivo, sufragista e formal. Nós que nos entortamos para que seu conceito se flexibilize e se adapte às nossas circunstâncias, conveniências, desejos e subjetividades as quais, por sua vez, brotam enquanto reproduções do mundo que nos cerca. Há alvejante de sobra para todas as consciências.

Leia também: 

A democracia liberal burguesa não foi feita para ser levada a sério

Eleger novas pessoas não vai mudar o caráter corrupto do Congresso Nacional

Rousseau, iluminista maldito cujas ideias serviram amparo de filosófico à derrocada do absolutismo, diferenciava a vontade geral da vontade de todos; esta, a mera soma dos desejos particulares, aquela, os interesses coletivos representados enquanto tais.

É a vontade geral, concretizada no respeito às regras do jogo, que faz – ou faria – questionar até que ponto é democraticamente saudável existir um juiz-herói ou o fato da corrupção permanecer sendo abordada sob a atmosfera infantil da luta do bem contra o mal. Contudo, na privatização dos sentidos (uma espécie de corrupção) da plutonomia colonizadora só há espaço para o moralismo seletivo, nunca para reflexões que se situem além de questões cosméticas e que se aproximem da verdadeira raiz do problema. A Citigroup e a FIESP agradecem.

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado e professor universitário.

Quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend