Em dez meses, Doria acumulou feitos que os políticos ordinários levam uma vida para construir
Quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Em dez meses, Doria acumulou feitos que os políticos ordinários levam uma vida para construir

Foto: Reprodução/Facebook João Doria

Quando João Doria Jr. vendeu a meritocracia fantasiado de trabalhador e de gestor, o eleitorado paulistano havia entendido que seria uma boa opção substituir um petista erudito por alguém que promovesse um distanciamento do que vulgarmente se entende por política. E por política entenda-se correntemente: escândalos de corrupção.

Como no caso de todo tucano, as empresas de mídia blindam João Doria dos predicados imorais relacionados à corrupção. Contudo, se com ajuda da mídia Doria se afastou destes atributos da política vulgarmente entendida como corrupção, sozinho ele conseguiu construir a imagem arrogante, estridente, prepotente, desorganizado e vaidoso. Este é um mérito integralmente dele.

Em dez meses, Doria acumulou feitos que os políticos ordinários levam uma vida para construir.

Anuncia planos que não saem do papel; derruba prédios com gente dentro; inicia projetos que, se pegam mal, são suspensos na sequência. Não sabe nem combinar o jogo com a sua amiga “opinião publicada”. Abusa do poder que tem para fazer a pior política que existe, aquela do palavrório e da verborragia. Abusa do poder e abusa ainda mais das palavras. Faz picuinhas nas redes sociais, em níveis piores do que blogueiros adolescentes. Conhece a etiqueta dos ricos, mas não respeita nenhum protocolo de boa convivência e não frequenta debates públicos. É um sujeito treinado para viver em condomínios, não em sociedade.

Comunicador de frases feitas, baixa o nível quando é confrontado. Doria Jr. negou a política não para elevar-se à qualidade de gestor eficiente, mas para negar possibilidades mínimas de convivência harmônica com o diferente, rastejando ao nível dos porões do sensacionalismo das tardes televisivas.

Norbert Elias, sociólogo alemão, tem uma obra fundamental sobre o Nazismo – que o autor associa à ideia de Colapso da Civilização. Trata-se de um livro em que Elias busca revisar afirmações do início de sua carreira, nas quais prenunciava um avanço contínuo e perpétuo de valores como liberdade e igualdade individuais. A convivência em sociedades complexas seria mediada por processos sociais que respeitassem os corpos e as consciências, sem imposições físicas ou simbólicas.

Com o advento do Nazismo, ele, como outros pensadores da Europa Ocidental, viu-se perplexo diante de Hitler, Mussolini e tudo o mais que veio com o Nazi-Fascismo. Perguntavam-se como era possível que um mundo tão cientificista, moderno e belo soçobrasse ao Totalitarismo e ao racismo? Elias considerava isso absurdo, algo cuja possibilidade de acontecer era avaliada como impensável e impossível, e mesmo depois de acontecer não se poderia acreditar que tivesse ocorrido.

Parece-me muito o mundo de hoje. O Brasil de hoje. Ou a São Paulo de hoje. Lembro que eu ria quando supunha Trump presidente dos EUA; descartava a possibilidade do almofadinha João Doria prefeito de São Paulo; não considerava tantos retrocessos impostos por Temer e o Congresso.

Como supor que Obama seria sucedido por Trump? Como imaginar que depois de 30 processo de democratização haveria a permissividade com o trabalho escravo paralelamente à liberação do armamento por parte dos proprietários rurais? Que depois de governos populares na América Latina, após Obama, Lula, Dilma, Kirshner, Bachelet, Correa, Haddad… Nossos humores e angústias estariam às voltas com Trump, Temer e Doria? Como pensar que depois de haver comida orgânica nas escolas municipais, as crianças pobres – quase todas pretas – teriam que comer ração feita de descartes da indústria alimentícia ou que seriam marcadas nos seus corpos para não cometerem o delito de repetir a refeição e satisfazer seus estômagos? É o fascismo, aquela cadela bretchiana que estava no cio e se reproduziu.

Doria é um filhote de sua prole, que também se reproduz.

Mensageiro e obreiro de tempos sombrios como aqueles descritos por Hannah Arendt, junto dele há muitos homens e mulheres comuns que praticam absurdos e barbáries diárias, muitos Eichmanns que destroem terreiros de candomblé “porque não é de Deus”, que batem nos seus filhos porque não são heterossexuais, que acham normal dar ração para crianças, que acham “tudo bem” jogar água nas pessoas em situação de rua durante madrugadas frias.

Se o fascismo antes precisava operar sorrateiro nos subúrbios e quebradas com homens da lei à margem da lei, hoje o fascismo está nos poderes centrais, com ou sem a legitimidade do voto, mas com a anuência das instituições, e funcionando muito bem para tanto. E não há limites para o absurdo.

Paulo Ramos é cientista social, mestre em sociologia (UFSCar) e doutorando Sociologia (USP). Seus temas são Relações raciais, Violência e Movimentos sociais.

Quarta-feira, 25 de outubro de 2017
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