Homens negros intelectuais: paradoxos e potências
Segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Homens negros intelectuais: paradoxos e potências

Abdias do Nascimento. Foto: Reprodução

Eu queria algo que saísse do paradigma das expectativas.[1]

Este texto se debruça sobre um personagem de grande complexidade na paisagem social brasileira: o homem negro intelectual. Definindo-o aqui, como aquele intelectual considerado negro (por si próprio e pela sociedade) que influenciado direta ou indiretamente pela luta antirracista, em suas diversas modalidades, vincula sua atividade acadêmica com a produção de um conhecimento científico comprometido com a emancipação de seu grupo sócio-racial e, por conseguinte, de toda a sociedade brasileira.

É desse lugar que humilde e orgulhosamente parto para as reflexões aqui propostas. Evidentemente existem outras maneiras de ser um intelectual negro, e todas elas devem ser respeitadas (pelo menos a grande maioria), entretanto esse texto é dedicado a esses homens.

Leia também: 

O mal-estar da masculinidade negra contemporânea

Como é ser um homem negro no Brasil?

Minha proposta é pensar os homens negros na educação, sua intelectualidade e relações com as instituições de ensino brasileiras. Historicamente a população negra enfrentou (e continua enfrentando) graves dificuldades para se inserir no sistema educacional: analfabetismo, repetência, expulsão, evasão escolar e baixo rendimento são alguns dos fenômenos que atingem a população negra, sobretudo os homens negros.

É importante nos perguntarmos: quais seriam os processos estruturais e cotidianos, que comprometeriam o desempenho desses homens nessas instituições? 

O homem negro e a educação

Os homens negros são o grupo sócio-racial menos escolarizado, temos um ingresso mais tardio na rede de ensino, uma saída mais precoce, um nível de aproveitamento ruim, acentuada distorção série-idade, assim como um baixo retorno aos bancos escolares em idade adiantada[2]. Além disso, possuímos baixíssimos índices de acesso ao ensino superior na graduação e na pós-graduação.

Uma das possíveis respostas para esse fenômeno seria a sequência de mecanismos discriminatórios mobilizados quando um menino negro entra na escola e lá permanece. Discursos subalternizantes da história, cultura e estética africana e afro-brasileira em sala de aula, material didático com imagens estereotipadas de homens e mulheres negras, aliados à maior rigidez, desinteresse e insensibilidade do corpo administrativo ao lidar com esse menino, constituem-se como um “método” para o fracasso educacional desse grupo. Quando não, o simples e cru xingamento racial se torna uma eficiente ferramenta para imobilizar seu alvo nos momentos das desavenças e competições.

Essas experiências procuram abalar as propriedades psíquicas dos homens negros em suas reações à discriminação, através de um processo de “socialização subalternizada”. O que pode gerar, em parte do grupo, uma baixa expectativa sobre si próprio, com projetos e sonhos apequenados para de alguma forma se adaptar aos estereótipos racistas, reforçando papéis e funções sociais com escasso prestígio, baixo retorno financeiro e fragilidade de negociação diante do mercado. Havendo, com isso, grandes possibilidades de se tornarem em algum momento de sua trajetória uma caricatura de si mesmos, criada pelo imaginário branco de direita, centro ou esquerda.

Fanon sentencia ‘Precisamos ter a coragem de dizer: é o racista que cria o inferiorizado’[3].

Homens negros tendem a ser vistos como pouco promissores socialmente falando. É como se não valesse a pena o investimento em nossa educação e preparação para uma trajetória profissional repleta de desafios, possibilidades e recompensas. A maneira mais usual de lidar conosco é através de uma perspectiva ideológica e institucional, de receio, contenção e negligência, tendo como combustível a noção de “desajustado social”, marcante no imaginário brasileiro.

O estereótipo do homem negro rude e ignorante

Não é coincidência que parte considerável de nós desempenha atividades braçais, repetitivas e perigosas, de pouco status social e valor agregado, como: operários, pequenos trabalhadores rurais, seguranças, policiais de baixa patente, etc. Vale ressaltar que não há nenhum problema no exercício dessas funções, tão legítimas quanto qualquer outra e que alimentam milhares de famílias negras pelo país afora, mas sim, no confinamento dos homens negros nelas, já que as profissões intelectualizadas são vistas como impróprias para nós, “… lógica que é o motor dinâmico do racismo tal como praticado no Brasil.” (PAIXÃO, 2008, p.87). Reafirmando incessantemente uma espécie de divisão masculina-racial do trabalho.

Os cientistas sociais Mônica Conrado e Alan Ribeiro, comentando um dos atributos do arquétipo do ghetto gangsta boy pensado por bell hooks, afirmam  que o anti-intelectualismo expressaria um aspecto estereotipado da masculinidade negra, vinculando-o à conduta do homem negro autêntico[4]. Levando aqueles inseridos nessa lógica, a “dispensar o trabalho intelectual e minimizar a importância da educação escolar”.

Nesse sentido, a simples existência de homens negros intelectuais seria uma afronta a esse modelo fechado, por outro lado, uma referência positiva para jovens negros.  

O homem negro e a Academia

A cientista social Nilma Lino Gomes sugere que:

“A entrada dos “diferentes” como produtores de ciência e a chegada dos “ex-objetos” ao mundo da pesquisa acadêmica configuram um novo campo de tensão epistemológica e política”[5].

O acesso de estudantes negros nas universidades apresentaria consistentes probabilidades de dinamizar o meio acadêmico, não só com uma maior diversidade étnico-racial, mas potencializando a pluralidade de visões de mundo e ideias, ou seja, uma produção que pode formar “novos sujeitos, subjetividades e sociabilidades e superar o epistemicídio…”.

As experiências heterogêneas vivenciadas pelos homens negros, associadas a um arcabouço teórico que incorpore reflexões para além do cânone acadêmico (eurocêntrico), podem oferecer ângulos inusitados para a produção de um conhecimento que abandone explicações viciadas e obsoletas sobre si e seu grupo sócio-racial. Para isso, dedicação, sacrifícios e sinceridade são inegociáveis. 

A autonomia intelectual dos homens negros é perigosa.

Intelectuais do porte de Milton Santos, Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos vivenciaram a experiência de serem invisibilizados, exilados e preteridos, com suas produções acadêmicas sendo pouco reconhecidas pelas instituições nacionais. Isso é uma estratégia de matá-los intelectualmente. Nesse caso, quem deve reconhecê-los somos nós.

A universidade se configura por interações sociais, muitas das vezes danosas para o empreendimento de uma masculinidade negra positiva. Mas afinal, que instituição não é? Mesmo assim, também é um espaço de acolhimento, respeito e aprendizado. Aguçando o espírito crítico, sem deslumbramentos e respaldado em exemplos de intelectuais negros (e não-negros) generosos, inteligentes e bem sucedidos, é possível desenvolver atributos afirmativos do masculino negro enfatizando

“… Os valores de dignidade, coragem e constância, assim como o princípio de respeito pela comunidade, e pelos mais velhos em particular.”[6]

A psiquiatra afro-norte-americana Frances Cress Wellsing sustenta que:

“O sistema social racista pode sobreviver apenas se a masculinidade negra for destruída. Ele constantemente removeu fortes imagens masculinas pretas como aquelas apresentadas por Malcolm X e Martin Luther King, Jr.”[7].

Isto é, ao contrariar estigmas racistas, homens negros fisicamente fortes, intelectualmente sofisticados e bem–resolvidos politicamente, desestruturam o status quo masculino branco, logo, de todo o sistema.

Por tudo isso, saúdo todos aqueles que, inseridos ou não na academia, independente das inúmeras barreiras que o racismo impõe, buscam, à sua maneira e dentro dos seus limites, disseminar e valorizar os conhecimentos do povo negro, manuseando seu capital simbólico, científico e político para tal.

Vocês honram nossos ancestrais, os “… primeiros humanos, que inventaram a posição ereta, a palavra, a arte, a religião, o fogo, os primeiros utensílios, os primeiros habitats, as primeiras culturas…” [8]. Somos intelectuais há milênios.

Um salve especial para o intelectual negro, professor Doutor Wilson Prudente.

Henrique Restier da Costa Souza é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Relações Étnico-raciais pelo Centro Federal Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ)  e Doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ).


[1] Frase do astrofísico afro-norte-americano Neil Degrasse Tyson.

[2] PAIXÃO, Marcelo. A Dialética do Bom Aluno. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2008. 

[3] FANON, Frantz. Pele Negra Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

[4] CONRADO, Mônica; RIBEIRO, Alan Augusto. Homem Negro, Negro Homem: masculinidades e feminismo negro em debate. Estudos Feministas, Florianópolis, 25(1): 422, janeiro-abril, p. 73, 2017.

[5] GOMES, Nilma Lino. Intelectuais negros e produção do conhecimento: algumas reflexões sobre a realidade brasileira. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Orgs). Epistemologias do sul. São Paulo: Cortez, 2010. p. 492-516.

[6] SABINE, Mark. Nós matámos o cão-tinhoso: a emasculação de África e a crise do patriarca negro.Via Atlântica, São Paulo, n. 17, p. 187-200, june 2010. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/50549/54665>. Acesso em: 20 oct. 2017.

[7] WELSING, Frances Cress. The Isis Papers The Keys to the colors. Chicago, 1991. Tradução de Wellington Agudá.   

[8] KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? Rio de Janeiro: Editora PALLAS, 2009.

Segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend