O Queer vive
Quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O Queer vive

Foto: Reprodução/HuffPost

“Ela é tão livre que um dia será presa.

‘Presa por quê?’

‘Por excesso de liberdade’.

‘Mas essa liberdade é inocente?’

‘É’. ‘Até mesmo ingênua’.

‘Então por que a prisão?’

‘Porque a liberdade ofende’”[1]

Não bastasse a censura sofrida pela mostra Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira, cancelada pelo Santander Cultural, que sucumbiu às críticas de movimentos religiosos e do Movimento Brasil Livre (MBL), o Brasil tem experienciado, nos últimos dias, mais uma prova irrefutável de que o fascismo em ascensão provoca, diuturnamente, o declínio dos postulados democráticos, sobretudo aqueles que preconizam o direito fundamental à liberdade de pensamento e, consequentemente, de expressão do referido pensamento, contido em dispositivos constitucionais como o artigo 5º, inciso IV e artigo 220.

Uma prova que nos coloca à prova sobre o quanto fracassamos enquanto sociedade que respeita a diferença e permite a livre manifestação intelectual das artes e do pensamento.

Movimentos e grupos políticos e religiosos criaram uma página no Facebook denominada “Ato de Repúdio à Maior Propagadora da Ideologia de Gênero: Judith Butler” bem como uma petição online, capitaneada pelo grupo Citizen Go, que conta, atualmente, com mais de 300.000 assinaturas, intitulada “Cancelamento da palestra de Judith Butler no Sesc Pompeia”.

Isso tudo porque a renomada filósofa, professora e escritora estadunidense Judith Butler, uma das principais teóricas contemporâneas que aborda temas como feminismo, teoria queer[2], filosofia política e ética, participará de um evento sediado no Sesc Pompeia, em São Paulo, enquanto palestrante.

Apesar de o Seminário “Os fins da Democracia”, que ocorrerá entre os dias 7 e 9 de novembro, não fazer qualquer alusão às questões referente ao gênero, sexualidade ou orientação sexual, as convulsivas reações de ódio à “Ideologia de gênero” e “à maior propagadora desta aberração no século XXI” reafirmam o compromisso daqueles que estudam e se debruçam sobre obras de autorxs como a própria Butler em se manter na resistência, sempre vigilantes e combativos.

Demonstram, ainda, a imperiosidade de se resgatar as lições foucaltianas consignadas no Prefácio do Livro “O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia”, de Guatarri e Deleuze. No texto, intitulado “O Anti-Édipo: Uma Introdução à Vida Não Fascista”, Foucault discorre sobre a vida não fascista, nos seguintes termos:

“Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, estejam elas já instaladas ou próximas de sê-lo, é acompanhada de certo número de princípios essenciais, que resumirei como segue, se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:

– Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.

– Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.

– Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.”

Há de se lembrar que o próprio Foucault esteve no Brasil em várias ocasiões, entre os anos de 1965 e 1976, durante a ditadura militar. “Em outubro de 1975, enquanto dava um curso na USP, uma onda de prisões foi deflagrada pelos agentes do regime militar na cidade”. Apesar disso, manifestações contrárias à suas palestras, do aporte e dimensão das presentemente vistas, não foram observadas – seja porque não havia internet, seja porque era tácito o entendimento de que o país vivia sob uma ditadura e que certos limites não poderiam ser ultrapassados pelo ilustre palestrante, sob risco de vulnerabilizar ainda mais a população.

Referido cenário representa sobremaneira o retrocesso vivido pela democracia brasileira, indubitavelmente. Entretanto, a exemplo do que ocorreu com Foucault, que se disse impressionado pelos estudantes brasileiros “famintos por aprender”[5], em auditórios sempre lotados, Butler também contará com uma plateia ávida pelos conhecimentos e ideias a serem compartilhadas.

E mais: dia 6 de novembro, proferirá a palestra “Por uma convivência democrática radical: Israel, Palestina e a coabitação plural”, na Unifesp, bem como lançará mais um livro traduzido para o português, chamado “Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo”.

Embevecidos pelo discurso de ódio inescrupuloso e ilimitado, que apenas reflete um projeto de poder autoritário, totalitário e arbitrário, as manifestações de repúdio à Butler e tudo o que ela representa se mostram histéricas e insignificantes, mormente o fato de que é inegável a presentificação, no contexto atual, de signos, símbolos e performances que afrontam o status quo e toda tentativa de aniquilamento da diferença.

Então, o efeito de todo o alarde provocado por essas manifestações de grupos em franco crescimento quantitativo, mas não qualitativo, eis que sustentado por fake news e manipulação da informação, é justamente o contrário do esperado.

Ao incitarem movimentos contra a vinda de Butler ao Brasil, os protestantes esgarçam o preconceito provocado pela intolerância e não aceitação da diferença, da alteridade e dos devires, mas, também, situam autorxs como Butler no campo político, evidenciando, professoralmente, suas próprias inseguranças em relação ao rompimento de uma visão de mundo acabada, definitiva, mas que, a partir de visões como a de Butler, é colocada em xeque.

Obviamente, causa espanto e indignação o total desconhecimento e incompreensão, talvez como resultado da má-fé, da obra de Butler. Mas, da mesma forma que a censura sofrida pelo “Queermuseu” fez vários grupos se mobilizarem para receber a exposição em locais diferentes, a tentativa de intimidação sofrida por Butler fará com que sua obra seja efetivamente alcançada por mais pessoas. 

É temeroso vislumbrar aonde nos levará a escalada do fascismo na democracia brasileira.

Bem como a surrealidade de suas proporções, mas, são oportunidades como essas que corroboram, sedimentam e reafirmam a grandeza do conceito de subversão – termo empregado por Butler, que indica a possibilidade de criação de espaços de potência e enfrentamento – e a necessidade de sua constância enquanto prática de vida.

Obras como “Corpos que importam” e “Problema de Gênero” somente não representam maior subversão do que a população LGBTQI+ que (sobre) vive, se expõe e se coloca como sujeito de direitos na mídia e nas ruas de um país que mais mata travestis e transexuais no mundo. De um país que nega Direitos Humanos àqueles assolados pela realidade que marginaliza, discrimina e segrega, expondo-os a doenças, vícios, subempregos e outras condições degradantes.

Para ela, o queer, vive.

Bárbara Bastos Sérgio do Nascimento é advogada e pesquisadora.


[1] LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida (Pulsações). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p.66

[2] Referida teoria representa, em linhas gerais, um modelo de enfrentamento à imposição da denominada heterossexualidade compulsória.

Quarta-feira, 1 de novembro de 2017
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