2018: rumo a um admirável mundo novo?
Quarta-feira, 8 de novembro de 2017

2018: rumo a um admirável mundo novo?

O que as ascensões de Donald Trump, Michel Temer, Bispo Marcelo Crivella e João Dória estão nos dizendo? Deu a louca no mundo? Os insensatos entregaram o sanatório à administração dos loucos depois de tantos panelaços?

Se olhamos bem, a pergunta inevitável é o que há de comum entre quatro indivíduos distantes e aparentemente tão diferentes? Que fragmentos de discursos os aproximam ou distanciam? Da perspectiva da totalidade, o que as suas ascensões políticas estão a nos dizer?

Vejamos em um esforço de tentar responder.

Trump, em diversos discursos, tem se mostrado ferozmente nacionalista e crítico da velha classe política. No discurso de posse disse estar transferindo o governo de Washington para o povo e se torna mais visto fora da Casa Branca, do Capitólio e do Pentágono. Passa a ideia de ser um milionário despido de outros interesses que não os de proteger o povo americano dos negócios globais do império americano. Conforme diz as necessidades de sua gente devem ser colocadas como prioridades máximas, o american way of life haverá de ser o produto número um de exportação e a tarefa fundamental de sua administração. Em palavras simples e fortes tem dito ao povo comum que cuidará mais da qualidade de vida que das guerras, que os jogos da política e da economia internacional passam a ser secundários em relação ao modo de viver dos americanos. Tudo para os americanos, incluindo a volta para casa dos seus milhares de soldados espalhados pelo mundo afora.

O novo prefeito de São Paulo, igualmente milionário, também faz a promessa de cuidar do povo paulistano na contramão da desgastada e velha política. Sua riqueza como a de Trump é sinônimo de realização pessoal e de desprezo a roubalheiras contumazes, o que deverá leva-lo a se dedicar por inteiro aos interesses da população, jamais de si mesmo. Ele e Trump, segundo é possível pensar, estariam despidos de outras ambições senão a de concretizar as promessas involucradas em seus discursos. Não seriam demagogos como outros tantos, mas espetaculares. Neste sentido Dória se aproxima do estilo de governar consagrado por Jânio Quadros, muito embora a inspiração do novo prefeito seja o milionário Michael Bloomberg, o ex-prefeito de Nova Iorque. Em seus poucos dias de governo já produziu alguns espetáculos mirabolantes contra as ciclovias, pichações de muros, calçadas sem rampas para cadeirantes; de concreto nada que altere e melhore estruturalmente a vida paulistana. Mas o povo gosta e aplaude. Trump, por sua vez, vem se notabilizando por suas gafes e ativa participação no Twitter, mais encrencado com os pitacos da Rússia em sua campanha é impossível.

Trump e Dória, mesmo com todo destrambelhamento, se colocam na contramão da velha e burocratizada política de matiz weberiana. Suas ações parecem existir na exterioridade das pachorrentas licitações, intermináveis debates nos plenários legislativos e apropriadas às nervosas objetivas dos jornais e televisões ansiosas por notícias de última hora plenas de audiências. Para ambos os fins justificam os meios utilizados. Às favas com os governos enclausurados em gabinetes e longe do calor popular; não por acaso o prefeito paulistano deixa de lado os seus Armani para se vestir de gari, sentar-se numa cadeira de rodas ou pintar no asfalto um ponto de táxi. E isto faz a alegria do povo que sempre sabe que o espetáculo é imperdível e truanesco. As imagens de Trump e Dória favorecem os risos; a peruca ou cabeleira de Trump e o jeitinho janota de Dória, ou o histrionismo dos dois, por si sós, dão garantias de boas gargalhadas. São de fato espetaculares, ou pouco mais do que isto.

O Bispo Crivella, sempre distante de seu gabinete, também se apresenta como forte promessa de rompimento com a velha política. Suas ações como missionário na África, na fazenda Canaã no Nordeste brasileiro ou com a Bíblia nas mãos respaldam a sua insistência de cuidar das pessoas. Da mesma forma que Dória e Trump ganha espaços na mídia com ações espetaculares, ou factoides à moda César Maia, seja suspendendo verbas para o carnaval, nomeando a merendeira para a subsecretaria de transportes e dois mortos para cargos importantes na prefeitura. Da mesma forma que Trump e Dória, Crivella se mostra agradável enquanto vai engambelando os mais ingênuos e crentes.

Temer é quem tem um estilo diferente, dada a sua natural antipatia, distanciamento do povo e o medo de vaias. A impopularidade que conquistou a partir do golpe o encastela no Planalto onde se dedica diuturnamente a produzir pacotes de maldade e distribuir polpudas prebendas para rechaçar acusações bem fundamentadas e comprovadas . Se precisasse de votos para assumir a presidência teríamos dificuldade de saber qual personagem político construiria para si, sabendo-se ser naturalmente rígido, de gestos nervosos e trejeitos esquizofrênicos. Mas, mesmo assim não está muito distante dos demais; também ele assume o discurso de cuidar do Brasil e de seu desenvolvimento econômico; as demandas mais imediatas da sociedade, porém, estão longe de constar de sua agenda de preocupações. Seu governo nada nacionalista vem se caracterizando pelas maldades político-sociais, entreguismo ao estrangeiro, favorecimento aos bancos, empresários da indústria e do agronegócio.

A ascensão de tais personagens ao poder, a despeito das diferenças de caminhos e estilos, parece mesmo evidenciar de imediato uma ênfase na crítica à velha política burocratizada. Mas não apenas fazem críticas, buscam concretizar novas formas de fazer política tendo os fins, e não os meios, como prioridade máxima; a ética e a moral nem sempre merecem a devida consideração de nenhum deles.

Trump, Temer, Crivella e Dória parecem, de fato, constituir uma novidade no cenário político como uma trupe que ainda poderia contar com a inclusão dos presidentes da Argentina, Maurício Macri, e da França, Emmanuel Macron. Mas apenas parecem, a direita está jogando todas as suas fichas em seus modos de ser e governar. Os “think tanks” e marqueteiros de plantão, por sua vez, são os seus produtores e saberão com astúcia e inteligência aproveitar e promover as críticas à velha política e produzir candidatos com novas roupagens discursivas e práticas demagógicas que pareçam reproduzir a aspiração popular. Há um campo fértil para candidatos do mesmo naipe, conforme se pode observar em eleições brasileiras. Em 2014, aqui no Brasil, as estatísticas mostram que a renovação parlamentar espontânea foi superior a 40%; imagine quando passar a ser a bandeira principal dos marqueteiros… Todos estão de olho em tal percentual, não sendo, pois, por acaso que a direita brasileira tenta maquiar o empresário e apresentador de televisão, Luciano Huck, para apresenta-lo como candidato em disputa com o ex-presidente Lula nas eleições de 2018. Lula será o velho, corrupto e favorecedor dos saques à Petrobras e a Furnas e o Huck o novo, a esperança cozida em um caldeirão de sucesso. Além será incensado como um homem bom e honesto, que procura fazer o bem aos mais necessitados, tem ficha limpa e, tanto quanto a população, deseja que as demandas sociais sejam atendidas com criatividade e inovação, a despeito das suas complexidades. Os movimentos fortes (“Renova BR” e “Agora”) que já ocupam as redes sociais, com bons financiamentos externos, estarão em sua retaguarda se encarregando de preparar-lhe o caminho para o Palácio do Planalto.

Tais ascensões e revelações parecem, portanto, evidenciar a definição de novos rumos e perfis de candidatáveis ao poder a partir de 2018. De novo está em alta o velho pragmatismo peirciano que valida quaisquer meios para atingir os fins, com imenso desprezo aos debates democráticos que consideram evasivos e filosóficos. Para os futuros candidatos há um estado ideal de coisas a fazer que, entretanto, não são distinguíveis em termos de bem ou mal, mas de admiráveis e inadmiráveis; o que será determinante nas suas ações práticas deverá ser a coerência entre pensamento e a ação para a construção de um admirável mundo novo.

Como em todos os ensaios literários e cinematográficos, parece estar em curso uma nova ordem organizada sob a lógica produtiva do capital, na qual seremos destinados a desenvolver algumas competências e habilidades, a ter papeis funcionais bem demarcados, estudar em escolas sem partidos, ser impedidos de interagir com a “arte degenerada”, discutir às questões de gênero. Talvez a esperança derradeira seja ter acesso a alguma droga do tipo “soma”, que nos dizeres de Aldous Huxley, pode acalmar, tranquilizar e condenar à eterna letargia para a aceitação do tipo de sociedade construída; pelo menos até alguém ler às escondidas algum fragmento de Shakespeare.

Zacarias Gama é Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro do quadro permanente de docentes do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana.

Quarta-feira, 8 de novembro de 2017
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