O que os defensores do (racista) William Waack têm em comum?
Terça-feira, 21 de novembro de 2017

O que os defensores do (racista) William Waack têm em comum?

Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF 

A infame gravação na qual o jornalista da Globo, William Waack, aparece destinando seu ódio aos negros durante a eleição presidencial dos Estados Unidos serve para demonstrar como a branquitude defende seus odiosos privilégios, escamoteia conflitos, muda de assunto e foge do debate.

Após a divulgação do vídeo uma legião de jornalistas, políticos e intelectuais ocuparam a cena apelando para o “deixa disso”, para denunciar o suposto caráter inquisitório das redes sociais e para defender proporcionalidade na apreciação da conduta do jornalista global. Até o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, largou as pilhas de processo que se avolumam no seu gabinete e veio a público para solidarizar com o jornalista racista e antecipar a absolvição.

As defesas de Waack oscilaram da desfaçatez ao cinismo; dos brancos anti cotas aos brancos supostamente aliados da luta contra o racismo. Mesmo sendo evidente que o jornalista reiterou os perversos estereótipos de violência, colegas da imprensa não vacilaram em colocarem-se contra as provas e em favor de um falso discurso de que aqui no Brasil ninguém é racista e de que somos o país da cordialidade e dos afetos.

Para os defensores de William Waack é inadmissível que a luta contra o racismo queira disciplinar as manifestações feitas quando Waack imaginava que não estava sendo gravado. “Ah, mas até na hora da brincadeira vocês [militantes do movimento negro] querem nos patrulhar?!” “Quem nunca fez uma piada de mau gosto?” “Estão exagerando demais. O país está ficando chato”, dizem desafortunadamente os protetores do apresentador.

O caso ajuda a pensar como o racismo vai às raias do absurdo.

Desprezam-se fatos notórios e subvertem-se os sentidos da comunicação e da concessão pública de rádio e TV. Tudo é tratado como uma grande brincadeira, uma chatice do politicamente correto que quer impor condutas e controlar subjetividades. Toda denúncia do caráter violento das manifestações racistas é contestado pelos defensores de Waack com o argumento de que se trata da tal da liberdade de expressão.

Não importa se William Waack tem ou não tem histórico de atitudes discriminatórias, se possui ou não interesse de ofender pessoas negras, se é um jornalista competente e bem formado ou se naquele dia dirigiu-se a milhões de pessoas ou a apenas um único indivíduo preto ou pardo. A discussão que precisamos fazer é que na democracia não cabe que uma TV – de concessão pública – mantenha em seus quadros um profissional que considera brincar com processos seculares de violência contra negros e que cogita atuar em seu ambiente profissional proferindo ataques e reforçando estigmas.

A liberdade de expressão não é um salvo conduto para violência e nem o humor um abrigo para a discriminação e para os estereótipos.

Só o racismo pode explicar como um profissional experiente como William Waack pode relaxar e por para fora o conjunto de afirmações estereotipadas e preconceituosas que formam o seu imaginário e as suas representações sociais. Do mesmo modo, só o racismo pode juntar tão diferentes “vozes brancas” para defender e relativizar o racismo deslavado e cínico que sai pela boca do famigerado jornalista global.

É mesmo racismo, sempre ele, que unifica as elites, articula os privilegiados e que reconstrói as velhas narrativas do poder.

Felipe da Silva Freitas é mestre e doutorando em direito pela Universidade de Brasília (UnB) e membro do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (GPCRIM UEFS). 

Terça-feira, 21 de novembro de 2017
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