Pensar também tem lado: resposta ao texto de Pablo Ortellado
Quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pensar também tem lado: resposta ao texto de Pablo Ortellado

Protesto. Foto: Anarchist Memes/Facebook.

A polarização não está nos deixando pensar”, escreveu o colunista da Folha, Pablo Ortellado, alguns dias atrás. “Antipetistas” e “esquerda”, os dois polos que ele identifica no debate político brasileiro, se definiriam pela oposição àquilo que imputam ao outro. Se o antipetismo vê a esquerda como corrupta, ele é a anticorrupção. Se a esquerda vê o antipetismo como insensível à injustiça, ela é a justiça social.

A polarização que impede de pensar levaria à adoção de posições com o único propósito de ficar na contramão do adversário. O antipetismo condenaria o Bolsa Família só porque a esquerda o exalta. E a esquerda teria decidido apoiar a liberdade de expressão artística apenas quando o antipetismo se manifestou contra “a arte elitista irresponsável que expunha crianças à obscenidade e à perversão”.

Esse alinhamento automático faria com que os dois grupos, antipetismo e esquerda, se tornassem alvos fáceis da manipulação por “grupos de poder para promover projetos que nem sempre são éticos e nem sempre são socialmente justos”. O subtexto – mas talvez eu o esteja vendo por saber que é a posição do autor, expressa em colunas anteriores – é que com tudo isso o povo brasileiro perde a oportunidade de se unir em torno da agenda que é comum a todos, como… o combate à corrupção.

Longe de mim julgar que o debate público no Brasil está em nível elevado. Mas nunca esteve, dada a força do discurso manipulatório da mídia oligopolizada. O que caracteriza o momento atual não é tanto a “polarização”, decorrência quase natural de uma conjuntura em que a reação endureceu suas posições, mas a emergência de um discurso forte de negação dos direitos. É necessário, sim, marcar distância desse discurso e disputar com ele milímetro a milímetro.

Neste sentido, Ortellado está errado ao dar ao tema da corrupção a mesma centralidade que lhe concede o senso comum midiaticamente induzido. A corrupção é, sim, um problema sério, que é efeito estrutural do casamento entre democracia política e capitalismo e que, em países com as características do Brasil, tende a assumir proporções endêmicas. Mas não se compara à destruição dos consensos que se buscava formar em torno de valores básicos de igualdade e cidadania.

Não é por acaso, assim, que o colunista adota definição tão bizarra da polarização corrente no Brasil. Na oposição à “esquerda”, não está a direita, mas o “antipetismo”. A recusa à caracterização clara das posições da direita – favoráveis à manutenção das hierarquias sociais, anti-igualitárias, autoritárias – permite alimentar a fantasia de que é preciso transcender o conflito presente. Ao mesmo tempo, promove uma identificação subliminar entre esquerda e petismo, negando que o campo da esquerda não se define pela adesão a um determinado projeto de poder, mas a valores políticos que o ultrapassam.

O esforço de equivalência dos contrários move Ortellado à reprodução do discurso conservador contra a arte “degenerada”, travestido de antielitismo, num registro que poderia ser o de Donald Trump ou Magno Malta. É aqui que a estratégia do colunista revela sua debilidade. Como a polarização não é só a marola que ele descreve, mas remete a visões diversas da sociedade, manter a postura de isento e não-contaminado implica fazer concessões a enquadramentos antidemocráticos e mesmo antiliberais.

À sua maneira, o colunista da Folha se alinha à capa da Veja em que Lula e Bolsonaro aparecem como “extremistas” equivalentes ou ao editorial do Estadão pedindo envergonhadamente que não ocorram eleições. Mas o apelo à moderação é, na verdade, um pedido para que nós nos adaptemos a um ambiente social cada vez mais refratário aos direitos individuais e coletivos e mais descompromissado com a igualdade.

A discussão superficial, restrita a slogans, que se vê nas velhas e novas mídias, realmente não estimula a reflexão. Fora destes espaços – em movimentos sociais, em núcleos universitários, em coletivos diversos – há um debate bem mais denso e produtivo, que seria importante reforçar, mas que o discurso da superação da divergência simplesmente apaga. É um debate que não se faz de uma perspectiva olímpica, de quem está acima dos conflitos. Ao contrário, está posicionado. Porque não é apenas a polarização cega que não nos deixa pensar. A pretensão de neutralidade tem o mesmo efeito, apagando os conflitos, descuidando dos interesses em jogo, desinflando as tensões que nascem da dinâmica social. Pensar também tem lado.

Luis Felipe Miguel é doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB).

Quinta-feira, 23 de novembro de 2017
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