Independência não é meio termo: resposta a Luis Felipe Miguel
Quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Independência não é meio termo: resposta a Luis Felipe Miguel

Em maio, máscaras representando parlamentares desonestos foram colocadas no gramado em frente ao Congresso Nacional. O ato realizado pela ONG Rio de Paz. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil

Na última quinta-feira, Luis Felipe Miguel escreveu aqui no Justificando uma crítica à minha coluna do dia 21 de novembro na Folha de S. Paulo.

A coluna argumentou que o processo de polarização no Brasil está cindindo a esfera pública em dois campos que se colocam em oposição e negação um do outro. Cada lado acredita negar a posição do adversário, mas, na verdade, nega apenas o que pensa ser a posição do outro. Assim, o campo antipetista, que critica a corrupção, supõe que a esquerda defende a corrupção, enquanto a esquerda, que defende os direitos sociais, supõe que o campo antipetista defende os privilégios das classes sociais mais altas.

A polarização, processo que tenta arrastar todo mundo para um dos polos, é um empecilho ao pensamento crítico e independente.

Ela não força apenas as pessoas a tomarem partido, ela força todo mundo a tomar um dos dois partidos, condenando qualquer posição alternativa. Ela é anti-reflexiva porque promove o comportamento automático de negar o outro e não exatamente aquilo que o outro é, mas aquilo que acredita que o outro seja.

O artigo de Luis Felipe Miguel defende que a tomada de posição é necessária, que “pensar tem lado” e que a atitude crítica da polarização nada mais é do que uma tomada de posição oculta, que apaga os conflitos, descuida dos interesses em jogo e desinfla as tensões que nascem da dinâmica social.

O texto oscila entre duas posições. Ele diz, por um lado, que “a discussão superficial, restrita a slogans, que se vê nas velhas e novas mídias, realmente não estimula a reflexão”, mas que há espaços em coletivos, em movimentos sociais e em centros universitários nos quais um debate denso e produtivo se dá — com o que eu, em boa medida, concordo. Por outro lado, sugere que a crítica da polarização que ele mesmo descreveu como uma “discussão superficial” seria um “apelo à moderação” e uma “equivalência dos contrários”.

Mas por que a crítica da polarização levaria a uma defesa da moderação e do meio termo e não a posições diferentes e independentes? A polarização é uma camisa de força que constrange de tal maneira o entendimento que quando alguém quer fugir dos polos tem necessariamente que estar no centro do eixo?

A polarização, lembra Luis Felipe Miguel, é um processo real, “não é marola” e “remete a visões diversas da sociedade”. Como no artigo eu em nenhum momento neguei que haja divergência, muito pelo contrário, quero crer que o que ele quer dizer com “não é marola” é que há bases reais (materiais talvez?) para essa divergência, para além dos equívocos de parte a parte. Essa é, sem tirar nem por, o centro da visão da esquerda que se deixou levar pela polarização – o que, nos estudos que conduzo com meus colegas Esther Solano e Márcio Moretto, gostamos de chamar de”anti-antipetismo”.

O anti-antipetismo acredita que entrar no jogo da polarização é necessário porque ele seria expressão da luta de classes. Essa crença se baseia numa série de suposições, algumas completamente equivocadas e outras bastante questionáveis.

Ela normalmente supõe que, na polarização que tomou a sociedade civil, temos, de um lado, a classe trabalhadora em defesa de seus interesses e, do outro, uma classe média mesquinha que se nega a abrir mão dos seus privilégios. Isso não poderia ser mais equivocado. Todos os estudos empíricos sobre as mobilizações que se deram desde quando a polarização foi deflagrada, em 2014, mostram que o perfil de renda e de educação formal dos dois grupos é muito semelhante. Quem está polarizado, nas ruas e nas redes, são, na maioria, pessoas de classe média, altamente escolarizadas e geralmente mais velhas.

Supor que as mobilizações polarizadas são, de um lado, populares e, do outro, elitistas é uma miragem sem amparo na realidade.

Podemos supor então, para testar o argumento, que embora os grupos mobilizados nas ruas e nas redes sejam parecidos, que suas opiniões sobre os temas sociais são profundamente diferentes. E embora, de fato, haja bastante e cada vez mais divergência entre eles, há ainda muita convergência que a polarização não conseguiu desfazer.

Quando aplicamos questionários aos manifestantes que defendiam a saída de Dilma, descobrimos, por exemplo, que mais de 95% deles defendiam o caráter público, gratuito e universal dos serviços públicos de saúde e de educação, o que não parece uma atitude de “direita” em nenhum sentido próprio do termo.

A propósito, não chamei esse campo que pediu a saída de Dilma de “direita”, como exige Luis Felipe Miguel, porque não é assim que ele se reconhece. Tanto pesquisas realizadas com manifestantes nas ruas, como análises de publicações nas mídias sociais mostram claramente que a identidade que organiza e orienta esse campo é a de “antipetista” e não a de “direita” ou de “conservador”/ “conservadora”. Tratar esse campo como “antipetista” é descrevê-lo segundo seu próprio entendimento – e chamá-lo de “direita”, como muitas vezes quer a esquerda polarizada, seria o mesmo que chamar a esquerda de “corrupta” que é como o outro lado a vê.

É esse consenso oculto em defesa dos direitos sociais, que sobrevive às forças centrífugas da polarização, aquilo a que eu normalmente me refiro quando sugiro que precisamos deixar a polarização de lado – e não apenas a luta anticorrupção, como supõe Luis Felipe Miguel. Esse equívoco de reduzir uma posição pública minha (nesta coluna na Folha, por exemplo) a apenas um dos seus elementos e justamente aquele que nega a posição do anti-antipetismo diz muito sobre como a polarização nos limita, fazendo ver no adversário apenas a negação daquilo que defendemos.

Podemos supor, por fim, que mesmo que os dois grupos polarizados sejam demograficamente parecidos e tenham importantes posições em comum que, ao se deixarem mobilizar por forças políticas antagônicas, pela esquerda, de um lado e pela direita, de outro, eles efetivamente passam a representar interesses sociais antagônicos. E embora considere sociologicamente inapropriado entender qualquer grupo pela sua liderança, eu certamente concordaria que é a liderança quem conduz, tira proveito e dá sentido político à mobilização dos dois grupos.

Mas, aí, retornamos ao problema de início. Meu argumento na coluna é justamente que a polarização é a exploração de paixões políticas construídas sobre visões equivocadas do outro, gerando um antagonismo falseado, automático e destrutivo que nos impede de pensar, mas também de trabalhar sobre a agenda que temos em comum: a defesa dos direitos sociais e a ojeriza à corrupção que nada mais é do que a apropriação privada do patrimônio público.

Ao invés disso, vimos nossa agenda comum ser cortada ao meio e fomos jogados uns contra os outros em benefício de projetos políticos muito duvidosos que, de um lado, destroem sem pudor todos os direitos que vimos construindo desde 1988 e, de outro, nos diz que só podemos manter esses direitos e mesmo assim parcialmente se destruirmos terras indígenas, subsidiarmos a Odebrecht e nos aliarmos com Katia Abreu, Henrique Meirelles e Renan Calheiros.

Pablo Ortellado é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP desde 2005. Fez graduação, mestrado e doutorado em filosofia na mesma universidade. Colunista na Folha de S. Paulo. 

Quarta-feira, 29 de novembro de 2017
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