De Sex and The City a O Conto da Aia: o que mudou nas heroínas da TV nesses 20 anos?
Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

De Sex and The City a O Conto da Aia: o que mudou nas heroínas da TV nesses 20 anos?

Não é novidade – e talvez seja até mesmo clichê – afirmar que produtos da mídia como filmes, séries e novelas desempenham um papel importante na construção de subjetividades, de valores culturais, lançamento de modas e afirmação de costumes. A indústria do entretenimento é também uma indústria do comportamento, e nas telas grandes e pequenas vendem-se looks do dia e personalidades da temporada a serem consumidas pelo público pagante, que se vê projetado na tela em uma mistura do que se é do que se quer ser, legitimada pela escolha de quem produziu e registrou aquela narrativa em imagens.

Tanto é assim que muitos setores de movimentos sociais já sacaram a importância da representatividade nesses lugares que são uma expressão de poder: demandam-se que mulheres e pessoas de pele negra sejam protagonistas, que haja histórias de amor fora do padrão hereteronormativo, e que lugares politicamente periféricos sejam retratados, pois é importante sentir-se digno de representação nessas narrativas ficcionais nas quais projetamos desejos e aspirações, ao mesmo tempo espontâneos e introjetados por essa mesma indústria. Estar representado por ela é ser reconhecido como parte de um mercado consumidor desejável, e em um universo em que boa parte do poder é traduzida em “poder de compra”, e que o status social é em grande medida aferido pela ostentação e consumo de determinados bens, para o indivíduo concreto pode ser mais valioso ser reconhecido como consumidor do que como cidadão (falo sobre isso no artigo “Consumo, logo existo”, que publiquei no blog em 2015).

Essas reflexões me vieram à mente por esses dias, quando me peguei pensando sobre algumas “heroínas” dos filmes e novelas da minha infância e adolescência, lá nos anos 1980 e 1990. Uma vez superada a (que para mim foi) incontornável fase “das princesas”, quando tinha uns 8 anos assisti pela primeira vez a “Flashdance”[1]: embora seja um dos meus filmes favoritos até hoje, sou forçada a reconhecer que essa predileção atende antes a uma memória afetiva do que aos méritos cinematográficos da obra – em outras palavras, o filme é ruim de doer. Mas naquele 1986 eu fiquei absolutamente fascinada pela protagonista Alex (interpretada por Jennifer Beals), com aquele nome descolado “de menino”, toda sexy em seu colante e polainas (sorry, gente, nos 80’s os dias eram assim), morando sozinha em um loft charmoso (e pretensamente low budget), pagando suas contas com a dupla jornada de trabalho de operária metalúrgica de dia/dançarina amadora à noite, e que sonha em ser bailarina clássica. Um dos pontos altos do filme é a cena em que ela fica furiosa com o chefe/namorado (ok, ela cai no xaveco furado do galã canastrão, mas quem nunca) por descobrir que ele mexeu os pauzinhos para que ela consiga um teste para ingressar na escola de dança. Alex sai do carro dele em pleno trânsito berrando que “tinha que ter conseguido tudo sozinha” e, a essa altura, eu não queria mais saber de Cinderela nenhuma perdendo sapatinho em escadaria: queria era ser a Alex no final dessa cena, arrancando o sapato de um pé pra arremessar no príncipe meia-boca.

Pouco depois, em 1988, fora dos cinemas, foi uma mocinha de novela que ganhou meu coração pré-adolescente: a Solange da novela “Vale Tudo”[2], papel de Lídia Brondi, era uma jornalista apaixonada pelo seu trabalho, dividia “o apê” com um amigo também jornalista (e me lembro de achar o máximo ela viver com um homem com quem não tinha qualquer envolvimento amoroso), usava umas roupas meio japonismo – meio Annie Hall (que, em um anacronismo confesso, acho lindas até hoje), fazia comentários inteligentes sobre filmes do Woody Allen e, quando resolvia ser mãe, ainda bancava uma “produção independente” (mesmo que terminasse em um final feliz com o pai da criança, mas vamos combinar que pra novela-das-oito já tinha “modernidade” suficiente, não?). Estava indo para a quinta série e querendo ser a Solange quando crescesse.

Uns anos depois, em 1992, já adolescente, foi a vez de “Thelma e Louise”[3]: ainda que em casa ouvisse muito sobre o feminismo de Betty Friedan e Leila Diniz, na época não tinha maturidade nem repertório para perceber as muitas discussões (infelizmente) ainda atuais sobre feminismo e direitos das mulheres que permeiam todo o filme. Na ocasião, me bastou a dupla de protagonistas explodirem o caminhão de combustível conduzido por um motorista babaca que as assediava há dias na estrada para achar que elas eram uns “mulherões da porra”, como diríamos hoje.

Thelma e Louise

E, mais ou menos na mesma época, me marcou muito ter assistido a “Tomates Verdes Fritos”[4], com suas quatro protagonistas femininas, em duas épocas diferentes de um Alabama racista e conservador, trazendo com muita delicadeza questões sobre orientação sexual, violência doméstica, racismo, envelhecimento, padrões de beleza, amizade entre mulheres e outros elementos a que hoje chamamos de “sororidade” e “empoderamento”.

Hoje, olhando em retrospecto, me sinto capaz de reconhecer um monte de privilégios pessoais que me permitiram criar uma identificação e admiração por essas personagens que mencionei: mulheres brancas, representando demandas muito típicas de um feminismo liberal ocidental (tais como independência financeira, liberdade sexual e autonomia pessoal). Citei aqui apenas três filmes que me marcaram em uma fase importante de construção e afirmação da personalidade, de reconhecimento de valores culturais e morais próprios, mas forçando a memória poderia chegar a várias outras personagens que me eram oferecidas como referência de beleza, comportamento e personalidade. Hoje me pergunto como terá sido essa vivência de meninas que tinham a mesma idade que eu nessa época, mas que não tinham o mesmo privilégio de se verem representadas em obras de entretenimento mainstream.

Mas, mesmo com essa crítica – que acho absolutamente necessária – não quero jogar fora o bebê com a água do banho. Se as meninas dos anos 1950 cresceram vendo as virginais e submissas Sandra Dee e Doris Day pregando o Código de Hays[5] para ensinar que meninos e meninas devem dormir em camas separadas, a produção ocorrida após os movimentos feministas e a Revolução Sexual impactou o que era projetado nas telas, ofertando um leque atualizado de modelos de comportamento, o que, ao menos na minha experiência, possibilitou que eu, na minha infância e adolescência, fantasiasse e aspirasse ser alguma daquelas mulheres fortes, livres e que viviam histórias tão interessantes.

Estava nesse emaranhado de pensamentos quando li em algum lugar por esse dias que a série televisiva Sex and The City[6] completa vinte anos de seu lançamento em 2018. Refeita do susto – pois ainda me é bastante vívido na memória o seu lançamento, como assim já faz vinte anos que eu sou adulta? – , me pus a lembrar da série, a que assisti inteira depois de encerrada. Assim como boa parte dos fãs, odiei o “final feliz de princesa” de Carrie (Sarah-Jessica Parker) com Mr. Big   (provavelmente o boy-lixo mais lixo da história da TV, interpretado por Chris Noth), bem como as “grandes lições de moral” a que são submetidas as outras protagonistas: a super sexualizada Samantha (Kim Catrall) passa por um câncer de mama, o que abala sua autoestima focada na aparência; Miranda (Cynthia Nixon), a advogada formada em Harvard e louca por Manhattan se casa e precisa se mudar para o Brooklin para criar melhor o filho e cuidar da sogra que sofre do mal de Alzheimer; e a caçadora-de-príncipes-encantados Charlotte (Kristin Davis) aprende o lugar-comum de que “a verdadeira beleza vem de dentro” ao se casar com o – apresentado como – feiosinho Harry (Evan Handler), e não consegue realizar seu grande sonho de engravidar, precisando recorrer à adoção. Soava algo como um “castigo divino” para a vida baladas, consumismo e sexo casual das temporadas anteriores, e parecia responder com amargor à pergunta-título do episódio-piloto: “As mulheres podem fazer sexo como os homens?” Resposta: não, casar-e-ser-feliz-para-sempre continuará sendo seu grande objetivo.

Ainda assim, lá naquele 1998 fazia pouco tempo que o Muro de Berlim tinha caído, havia uma sensação de que, enfim, “o mundo se resolvia” após as décadas de crise da Guerra Fria, naquela típica ilusão de países centrais de que “O Mundo Que Importa” estava bem. Meu palpite é que grande parte do sucesso da série se deve à sua representação de um “American Dream Reloaded”: naquele século XXI por começar, as mulheres (brancas) estarão enfim livres para fazerem o que quiserem – leia-se, praticar sexo sem o compromisso de uma relação estável (com homens, bem entendido, pois a única menção à sexualidade lésbica na série se dá por um affair de Samantha com uma personagem interpretada por Sonia Braga, e que é mostrado mais como um fetiche de uma mulher que quer experimentar “de tudo” do que como uma orientação sexual tão legítima quanto a hetero) e trabalhar, antes para ter o dinheiro para seus caros gostos de consumo do que para realização pessoal. Carrie Bradshaw é a Cinderela que compra seus próprios sapatinhos Manolo Blahnik e Loboutin.

Mesmo me divertindo até hoje com a série, acho que a narrativa envelheceu mal e não passaria por muitos dos crivos dos ativismos das redes sociais de agora. Ainda assim, acho que dá para reconhecer uma intenção de representar na obra aspirações de telespectadoras que queriam se enxergar em mulheres que se pretendiam livres – ainda que em um modelo de liberdade cheio de contradições.

Mas talvez a virada para o século XXI tenha se mostrado bem menos modernizante, colorida e glamourosa do que a Manhattan de SATC. Nessa época, em 2001, tinha acabado de concluir o curso de Direito, e em 2003 voltei para os bancos do cursinho pré-vestibular pra achar o valor de”x” e ingressar na graduação em Ciências Sociais. Lembro de ter assistido na ocasião a uma aula de geografia política sobre o 11 de setembro de 2001, em que o professor nos dizia que aquele dia iria mudar para sempre o mundo como conhecíamos, pois o cenário internacional seria completamente diferente dali em diante. “Vocês vão ter saudades do tempo em que crise internacional norte-americana era pra saber o que Clinton fez ou deixou de fazer com a estagiária da Casa Branca[7]”, ele dizia em meio às gargalhadas da sala, mas quando penso em Trump, crise de refugiados e Estado Islâmico, não consigo deixar de lhe dar uma boa dose de razão.

E foi pensando nessa mudança de cenário internacional e nacional, com tantos idiotas perdendo a modéstia[8] e o conservadorismo mais careta se envaidecendo da própria obtusidade tacanha, que teci algumas reflexões sobre as duas décadas que separam os sucessos de Sex an The City e O conto da Aia[9], exibida pelo serviço de streaming Hulu (ainda indisponível no Brasil) e vencedora de cinco prêmios Emmy em 2017. O conto da Aia é, originalmente, um romance de Margaret Atwood lançado em 1985, cuja história, em resumo, retrata os EUA em um futuro próximo (início do século XXI?), no qual o presidente e quase todos os congressistas são assassinados por um grupo cristão fundamentalista em um golpe de Estado, no qual se suspende a constituição e se instaura uma ditadura teocrática, retirando todos os direitos das mulheres e transformando-as – quando férteis – em reprodutoras geridas pelo Estado. Com a ascensão de Trump ao governo dos EUA, o livro voltou a chamar a atenção e foi referência em marchas de mulheres contra o governo de Trump , estampando cartazes com frases de ordem tais como “Make Margaret Atwood fictional again”[10]. E agora é vez da série ganhar espaço, com Elizabeth Moss dando voz e rosto à protagonista Offred.

Não creio que haja entre nós telespectadoras que projetem desejos e aspirações de ser a Offred, espoliada de sua vida e de seu nome próprio em nome de um deus imposto por uma ditadura cristã. Mas acho importante nos perguntarmos o porquê do apelo da série no momento em que vivemos, diante dos gritos que vociferam contra o que entendem ser os “perigos” de uma “ideologia de gênero”, do avanço do poder de políticos que fazem leis em nome da religião, e de ofensivas para controle aos direitos reprodutivos. Será o sucesso de O conto da Aia se deve porque Offred passou a representar não nossas aspirações e desejos, mas os nossos medos?

Offred é tudo o que não queremos ser?

Maíra Zapater é Doutora em Direito pela USP e graduada em Ciências Sociais pela FFLCH-USP. É especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo, Professora e pesquisadora. Autora do blog deunatv.


[1] Adrian Lyne, EUA, 1983. Ficha técnica disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0085549/ .

[2] Gilberto Braga, Brasil, 1988-1989. Ficha técnica disponível em: http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/vale-tudo/ficha-tecnica.htm .

[3] Ridley Scott, EUA, 1991. Ficha técnica disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0103074/

[4] Jon Avnet, EUA, 1991. Ficha técnica disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0101921/?ref_=nm_flmg_act_79 . O filme é baseado no romance de mesmo nome, publicado por Fannie Flagg em 1987.

[5] Conjunto de regras de censura prévia adotado pela indústria cinematográfica norte-americana entre os anos 1930 e início dos 1960, com ênfase em regras sobre moral sexual e com forte apoio de comunidades religiosas.

[6] Darren Star, EUA, 1998-2004. Ficha técnica disponível em: http://www.imdb.com/title/tt0159206/

[7] O então presidente Bill Clinton foi personagem de um escândalo sexual em seu governo em 1998. Veja reportagem aqui: https://noticias.uol.com.br/album/2012/08/15/relembre-o-escandalo-sexual-envolvendo-bill-clinton-e-monica-lewinsky.htm#fotoNav=21

[8] Nelson Rodrigues não fazia ideia do quanto teria razão.

[9] Bruce Miller, EUA, 2017. Ficha técnica disponível em: http://www.imdb.com/title/tt5834204/

[10] Veja aqui matéria do Huffpost: http://www.huffpostbrasil.com/2017/05/31/por-que-todo-mundo-esta-falando-tando-sobre-o-conto-da-aia_a_22119483/

Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
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