Traçando violações: é possível usar histórias em quadrinhos para tratar de direitos humanos?
Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Traçando violações: é possível usar histórias em quadrinhos para tratar de direitos humanos?

Foto: Reprodução da HQ Meninas em Jogo“/Agência Pública

No dia 11 de setembro de 2017, um policial militar assassinou Ricardo Silva Nascimento, conhecido como Negão, entre as Ruas Navarro de Andrade e Mourato Coelho, esquina movimentada do bairro nobre de Pinheiros, em São Paulo. A ação ocorreu às 18 horas e o corpo de Ricardo, com dois tiros no tórax, foi enrolado em um plástico preto e colocado no porta malas da viatura sob protesto de quem observava a cena nas calçadas próximas.

A justificativa foi a de que o carroceiro ameaçou e atacou os policiais, chamados para conter uma confusão que ele havia causado em uma pizzaria. Moradores e colegas, entretanto, estranharam a versão, porque a convivência com Ricardo era marcada pela tranquilidade.

Poucas semanas depois, a Agência Pública de reportagem e jornalismo investigativo decidiu noticiar o fato de forma diferente das mídias tradicionais: lançou a história em quadrinho: “Ricardo Silva, assassinado pela PM”. E foi por meio do formato em quadrinhos que a a reportagem ilustrou a história, a repercussão da morte de Ricardo e mostrou depoimentos de amigos e conhecidos sobre o caso.

E foi além. Antigos casos de violação aos direitos humanos contra moradores de rua na cidade de São Paulo foram citados, como a flechada que matou o carroceiro Ademir, em setembro de 2016.

A produção foi homenageada alguns meses depois, recebendo um dos prêmios da categoria Artes no 39 prêmio jornalístico Vladimir Herzog, que destaca jornalistas e artistas de traço que tratam de temas relacionados à democracia, cidadania e direitos humanos e sociais.

Não é a primeira vez que a Pública lança mão desse recurso

Quando a Copa do Mundo de 2014 estava prestes a ferver, a agência divulgou sua primeira reportagem em quadrinhos, com outra temática abrangendo a violação de direitos humanos.

A repórter especial Andrea Dip e o quadrinista Alexandre de Maio passarem três meses no Ceará investigando a rede de exploração sexual de meninas na região, que iria se intensificar com o mega evento de futebol. A produção da matéria, entretanto, foi marcada por algumas dificuldades.

Primeiro, o tempo era escasso para apurar e produzir um livro colorido de 80 páginas. Depois, produzir a reportagem envolvia conseguir dados sobre organizações criminosas e arriscar se expor a elas. Na produção de um reportagem em quadrinhos sobre direitos humanos, desafios profissionais, sociais e psicológicos estão fortemente entrelaçados.

“Ricardo Silva, assassinado pela PM”/Agência Pública

Na hora de retratar as fontes foram vários cuidados. A gente teve que retratar as meninas de uma forma não aparecesse o rosto delas, e apenas daquelas que estavam abrigos. Em outras, não podíamos nem fotografar, apenas observar”, relatou De Maio.

O quadrinista afirma que “Meninas em Jogo” foi a história mais difícil de sua carreira. Além da exposição, a vulnerabilidade psicológica de quem está na rede de exploração também foi levada em conta.

Andrea Dip destaca na matéria que atitudes de jornalistas, como o bombardeio de perguntas, podem agravar a vulnerabilidade e revitimizar aqueles ligados à rede de exploração. E nem sempre quem está exposto ao crime se dá conta de que está sofrendo abuso, ou consegue se imaginar em alguma posição social melhor.

Entretanto, há vantagens de se reportar através de desenhos, pois o formato permite a possibilidade de inclusão de processos que normalmente estão escondidos em uma reportagem normal.

A pesquisa, a apuração ética e mesmo pensamentos do próprio repórter podem ser coloridos e funcionam como ferramentas de atração para um tema que corre perigo de passar despercebido.

Como se quisesse revolucionar os modelos de jornalismo que hoje estão desgastados.

E se ainda havia a dúvida em torno da receptividade do público, a plataforma online da agência provou que a iniciativa é boa, pois todos os comentário publicados no site da Agência Pública parabenizaram a equipe pela reportagem.

A livre expressão de desejos e pensamentos do repórter remete uma das maiores referências internacionais das graphic novels sobre direitos humanos, o jornalista americano Joe Sacco, que atingiu o ápice do sucesso com o livro “Notas sobre Gaza”.

Instalado em Gaza para cobrir a segunda Intifada, Sacco passou a investigar um massacre de Israel sobre os palestinos nos anos 50, erroneamente documentado pela ONU. A história é contada em desenhos que intercalam a apuração dos fuzilamentos e a recriação da história através de flashbacks.

Sacco é frequentemente comparado à Art Spiegelman, que recebeu por Maus o primeiro prêmio Pulitzer dedicado à uma romance em desenhos. É a partir dessa homenagem à Maus, sobre a luta de sobreviventes do holocausto é que se inicia o debate sobre o valor jornalístico das graphic novels, principalmente sobre sua relevância como instrumento de combate à direitos humanos.

Dos livros de Sacco, é possível extrair o debate sobre a imparcialidade jornalística, já que, teoricamente, a subjetividade da arte, dos quadrinhos e a objetividade do jornalismo estariam em posições opostas no diâmetro da comunicação.

Na prefácio da versão brasileira do primeiro livro do autor sobre a Palestina, quem defende o ponto de vista favorável à junção é o jornalista brasileiro José Arbex. Ele sustenta que toda notícia possui a “imagem da notícia”, ainda que uma reportagem não venha acompanhada de fotos, e que essas imagens são resultado de visão de mundo que carregamos durante a vida.

Todo material jornalístico vem carregado de viés, seja nos ângulos escolhidos pelo fotógrafo, nas pessoas escolhidas para entrevista, no estilo que o editor adota nas edições.

Portanto, não seriam os desenhos que concederiam a parcialidade ao material, mas os conceitos prévio de quem lê ou produz. Os traços de Joe Sacco tomam posição na causa Palestina, contestando as justificativas israelenses à violações de direitos fundamentais como o direito ao trabalho, à saúde e a falta de liberdade política, mas o aprofundamento na realidade palestina e busca pela checagem e a confirmação de fatos confere legitimidade jornalística às suas histórias.

Na Academia

Se o jornalismo caminha em direção à um maior reconhecimento dos desenhos sequenciais, a academia também o faz. Bruno Conrado, ex-aluno de graduação de História da USP, decidiu explorar esse campo.

Fã de quadrinhos, conseguiu alinhar na pesquisa seu gosto pessoal e a intenção de estudar a relação entre violência e mídia. E chegou a cogitar um mestrado em que compararia as graphic novels V de vingança -marcada pelo estado totalitário, e Watchmen, série que traz um cenário de vigilância governamental, sendo a última uma das novels responsável por despertar o interesse adulto pelo formato nos EUA no final da década de 80.

Quem trouxe o tema para a pesquisa de iniciação científica de Bruno foi Vitor Blotta, professor associado ao Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo. Um dos artigo produzidos pela dupla analisou quatro histórias, tanto estatais quanto independentes e chegou a ser apresentada em um congresso em Londres sobre a temática.

Uma das questões levantadas no artigo é sobre a autonomia das HQs. Uma linguagem passa a ser uma “discurso dominante” quando pode subsistir a pressões de outros meio sem perder duas características principais, afirma Blotta. Quando a academia a reconhece como objeto de estudo o mérito é o mesmo. Em outras palavras, uma linguagem se torna “meio” quando consegue competir com outros.

No caso dos Direitos Humanos, ainda é duvidoso o quanto os quadrinhos conseguem brigar com a linguagem jurídica presente na imprensa e nas universidades. Exemplo dessa briga seria o próprio livro de Joe Sacco, que “briga” com a papelada jurídica das nações unidas.

Outro problema que afeta a ascensão dos quadrinhos como meio autônomo é a instrumentalização, carregada, às vezes, com doses de sensacionalismo. Por apenas R$ 5,00 é possível conseguir um exemplar dos quadrinhos que Coronel Telhada – vereador de São Paulo eleito com o lema “bandido bom é bandido morto” – encomendou sobre seu trabalho na Polícia Militar.

Em outra, chamada “O Doutrinador“, o personagem de Luciano Cunha luta para proteger a sociedade brasileira, assassinando políticos brasileiros, assumindo uma lógica controversa de matar para proteger direitos humanos.

Os quadrinhos também são defendidos como ferramenta para dentro da sala de aula

Deisy Ventura, professora de direito internacional das faculdades de Relações Internacionais e Saúde Pública da USP, não vê mais sentido em aulas em que o professor seja mero transmissor de conteúdo e a aula, um “vômito de informações”. Principalmente, em uma época em que todo conteúdo sobre direito – inclusive aulas de docentes renomados – está disponível online.

Por isso passou a adotar, ao longo da carreira, cartoons, charges e pequenas histórias, incitadores da problematização em torno das questões sobre direito internacional. Deisy destaca vantagens dos quadrinhos: a rapidez com que o desenho é capaz de despertar a complexidade do direito, o poder de “fisgar” o aluno, a impossibilidade de se entender as tirinhas se não se conhece seu contexto e as múltiplas interpretações que podem surgir delas.

Assim, o estudante é convidado a confrontar o que ele ignora e traz à sala de aula a problematização dos temas jurídicos.

As situações mais polêmicas que envolvem os direitos fundamentais normalmente provocam os cartunistas, que por sua vez, tentam alfinetar seu leitores. A professora aponta que é principalmente o olhar de pessoas comuns sobre a justiça que os cartunistas colocam na ponta do lápis nesses episódios de grande notoriedade.

São muito comuns cartoons com a representação clássica da da justiça, a deusa Têmis, ou a Esplanada. E que é exatamente uma visão contrária a dos juristas. O professor consegue evitar que o aluno caia na tentação de reverenciar o judiciário.

Reprodução: Angeli/Folha e S. Paulo

“Do ponto de vista do direito, o cartoon dá para quem estuda a sensibilidade dos dois pólos existentes na violação de direitos humanos.” Ele retrata tanto o violador quanto quem é violado. E seus alunos parecem ter entendido o recado e adotado o uso da arte para aprender.

Em uma das aulas do curso de Direito Internacional Público do Instituto de Relações Internacionais, o grupo responsável por levantar as questões jurídicas relacionadas ao muro que separa Israel da Palestina amarrou com barbantes um pedaço de tecido cinza, dividindo a classe em duas. Separados pelo muro, a aula ocorreu com se os alunos estivessem em território palestino ocupado, e uma das partes não era autorizada nem a sair da sala, enquanto a outra tinha livre acesso ao banheiro.

Manuela Ferraro é estudante de graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
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