Um depoimento poético para Djamila…
Quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Um depoimento poético para Djamila…

Djamila Ribeiro. Foto: Daisy Serena

São Paulo, 14 dezembro de 2017,

 

“Cada caminho, luz.

Cada acolhida, câmera.

Cada experiência, ação.”

Protagonista, em Terra Fértil, de Jennyfer Nascimento

                                                                                                                                                                          

Querida Djamila,

Eu gostaria de escrever aqui a partir de uma nova harmonia de afetos. Esse é o meu desejo, para esse texto. No dia 14 de novembro de 2017, vivi como quem ganha de presente a possibilidade de estar junto com várias das nossas, prestigiando outra amiga. Ou como quem divide um momento muito especial, para toda uma geração de mulheres negras e feministas brasileiras. Ou para a minha mãe e sua existência de mulher nordestina, que ao ouvir uma entrevista sua nas redes sociais, diz para quem quiser se repensar na sala de domingo: “A Djamila vale ouro!” – por ouvir uma voz potente que também eleva a dela. Foram todos esses sentimentos de euforia, a partir do lançamento do seu livro tão urgente: “O que é lugar de fala?”. Eu pensei em muitas maneiras de escrever esse texto a partir desse dia, a partir da leitura que já está a se descortinar pelo meu exemplar, quando me permite autorizar novas produções criativas, inclusive; do lugar a partir de dentro, dos personagens que ainda não escrevi.

“As escolas que frequentamos, ou não frequentamos, não nos ensinaram a escrever, nem nos deram a certeza de que estávamos corretas em usar nossa linguagem marcada pela classe e etnia”.

– Gloria Anzaldúa, Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo

Minha querida, a partir de agora, o seu livro deveria ser a primeira aula de qualquer curso de humanas, no Brasil. E só assim haveria a possibilidade de um debate e diálogo real. E automaticamente os lugares de falas privilegiadas, aqueles das “bibliotecas coloniais” (Vilma Reis, 2017), estes seriam desautorizados a nos silenciar.

As políticas de embranquecimento à brasileira, as grades curriculares que fazem jus ao termo grade, quando nos aprisiona num modelo chapado de educação, ou seja, sem qualquer similaridade com a pluralidade cultural dos povos nativos aos das diásporas africanas, e o racismo/ machismo/ LGBTTfobia institucional não formam mulheres negras para assumir lugares de protagonismo. Ou seja, não somos formadas para desenvolver oratória e retórica, por exemplo. Pelo menos até aqui, de uma auto-estima esgarçada pelo espelho quebrado de imagens estereotipadas, saímos das escolas sem referências de quem somos nós. E os centros acadêmicos pelo país adentro não ficam para trás. Sem professores negros e pautados por bibliografias somente eurocêntricas, continuamos à deriva da história contada em terceira pessoa: eles e elas, xs negrxs.

Daí, não tem mais volta. Você tem razão. Essa afirmação é sua e faço-a minha, porque quando pude entendê-la projetei futuro com menos dor. “O amor cura”, escreveu bell hooks em “Vivendo de amor”, e eu escrevo aqui para você numa carta pública para agradecer por essa indicação/ referência, em 2015, alguns dias antes da minha mudança para São Paulo de vez, saindo de nossa cidade natal, Santos. Escrevo porque a sua generosidade que caminha lado a lado com respeito apontou uma flecha certeira, apesar da mata fechada das oportunidades, me abriu a possibilidade de alcançar alguns sonhos.

 

“Estuda as feministas negras, porque elas têm projetos de mundo, que abraçam todas as outras camadas da sociedade”.

Djamila Ribeiro, 2015

 

Essas foram as suas palavras, naquele café despretensioso, numa padaria da Ponta da Praia, o que me possibilitou depois viajar o Brasil e ganhar prêmios, com o documentário “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”, sendo você uma das entrevistadas. Aliás, hoje não tenho mais receio ou medo de dizer que sou escritora e cineasta. Por isso, escrevo aqui para continuar me curando e por saber que agora não estou sozinha, escrevo para nos fortalecer, pois, como já me aconselhou a nossa amiga Joice Berth: “escrever para incentivar outras meninas” [e as futuras gerações]. Até porque, a juventude negra é ainda o ponto crítico das desigualdades de oportunidades, e queremos todas e todos vivos, de todas as maneiras.

“Aquela cena, aquelas mulheres a saudando, o semblante da Djamila sentindo tudo foi inesquecível. Engraçado que pareciam vitórias pessoais minhas tamanha a energia do momento, tudo muito vívido, por instantes achei ter sentido a trajetória dela perante seu corpo ali e tudo fez sentido, um sentimento de felicidade mesmo (…)”.

Larice Barbosa, 30 de junho de 2016

Por fim, esse trecho acima foi escrito pela jovem e designer Larice (tirado de post nas redes sociais), logo depois do momento da sua posse, Djamila, como Secretária-adjunta, da Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo, com uma plateia lotada de pessoas negras na Galeria Olido. Assim, me atrevo a citá-lo para jogar luz ao final desse ano e dizer que apesar do golpe e avanço da direita, dos impactos nas vidas de todas nós, está cravado e demarcado agora quem fala e quando fala, a partir da festa-lançamento do “O que é lugar de fala?”, numa cisão para o novo ou como não dizer, indicativo para “um novo marco civilizatório” (Juliana Gonçalves, 2017).

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E assim não poderão mais nos julgar como “raivosas, bravas” (Juliana Borges, 2015), sem fazer a lição de casa: quem fala de quem? e o quê falam? Logo, as nossas narrativas poderão ter outras projeções, que considerem estética, política e ancestralidade negra pela quilombagem de Beatriz do Nascimento. “Por mais que um sistema social domine é possível que se crie aí dentro um sistema diferencial, e é isso que o quilombo é. Só que não é um estado de poder no sentido que entendemos, poder político, poder de denominação, porque ele não tem essa perspectiva. Cada indivíduo é o poder, cada indivíduo é o quilombo (…)” (do filme “Ori”, Direção: Raquel Gerber, Texto: Beatriz do Nascimento, 1989). E portanto, continuaremos fazendo livros, filmes e encontros, porque finalmente sabemos afetar não pelas palavras de silenciamento e toda sua sistematização de opressões, mas, sim, pelo amor que liberta e não cala, pelos nossos passos que vêm de longe, por quem reina em nossas cabeças e terreiros, pelos nossos amores e familiares, pelo meu sobrinho e afilhado, pela sua filha, pelas nossas amigas e parceirxs, e principalmente, por cada uma de nós.

Com respeito,

Day Rodrigues

P.s.: Fizemos um vídeo sobre o lançamento do livro, espero que goste! 

Day Rodrigues é produtora cultural, educadora, escritora e cineasta. É diretora do premiado filme “Mulheres Negras: Projetos de Mundo”.

Quinta-feira, 14 de dezembro de 2017
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