O ufanismo pueril e as tradições da Faculdade de Direito da USP
Terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O ufanismo pueril e as tradições da Faculdade de Direito da USP

Foto: Commons/Wikipedia

Sou formado pela Faculdade de Direito da USP. Quem me conhece sabe que não tenho especial apreço por isso, e que não sou dado às celebrações e autocelebrações que caracterizam a comunidade dos que passaram pela “velha academia” – as trovas acadêmicas, o XI de Agosto, o elogio da tradição, o pindura, a peruada.

As boas memórias e o orgulho que tenho daquele tempo estão muito diretamente relacionados a experiências pessoais, à minha formação política no movimento estudantil e, principalmente, às amizades que mantive desde lá.

Além do mais, depois que migrei para a ciência política, a faculdade se tornou objeto de meus estudos, já que é um nó importante da rede de produção e circulação de poder das elites jurídicas, paulistas em especial. Esse fato me impôs um difícil exercício de reflexividade, com vistas à objetividade científica possível, mas que teve como efeito colateral (confesso, ilustrando a impossibilidade da objetividade absoluta) um certo desprezo por muito do que lá é enaltecido.

Acabei de receber, por e-mail, um boleto de contribuição voluntária trimestral da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da USP, no valor de 170 reais.

Para quem não sabe, essa é aquela entidade cujos últimos almoços anuais no dia 11 de agosto (ou “XI de Agôsto”, para os íntimos) se transformaram em convescotes de elites ressentidas e arrivistas políticos em favor do impeachment, que misturaram o discurso moralista de combate à corrupção e o ranço mal disfarçado com o PT – característicos de boa parte do movimento verde-e-amarelo que tomou as ruas desde 2014 – ao ufanismo pueril mantido por seus membros em relação a duas “tradições” da faculdade: a “defesa da democracia” e a formação de presidentes da República.

Bem, Gama e Silva e Alfredo Buzaid, ministros da ditadura, são “prata da casa”; o último presidente anterior a Michel Temer foi Jânio Quadros, e a passagem de ambos pelo Planalto dispensa comentários. Sinceramente, não sei bem do que se orgulham aqueles comensais.

O texto do boleto me informa que o prêmio pela contribuição à Associação dos Antigos Alunos é um livro ilustrado sobre a história do Largo São Francisco. Com todo respeito ao Largo – me refiro ao largo mesmo, à praça, ao rico conjunto arquitetônico que inclui o convento e a igreja, além da faculdade – prefiro gastar meu dinheiro em pinga – com todo respeito à cachaça, que admiro muito mais do que a todos os ex-presidentes formados pela “velha academia” juntos.

Meu prêmio? A consciência tranquila com a certeza de não ter confraternizado com golpistas nem pago seu almoço.

Frederico de Almeida é cientista político e professor na Unicamp. 

Terça-feira, 19 de dezembro de 2017
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