Black Museum: aprisionamento colonial de memórias negras
Terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Black Museum: aprisionamento colonial de memórias negras

Foto: Divulgação/Black Mirror

Black Mirror é uma série de ficção científica criado por Charles Brooker que relaciona o mundo futuro de aparatos tecnológicos e a decorrência dos dilemas sociais. Em sua quarta temporada, conseguimos observar na escolha de personagens, nas abordagens subliminares, nas perspectivas de narração, nas referências conceituais ou lócus de filmagens inspirações a paradigmas raciais. Este artigo debruça-se sobre o episódio dirigido por Colm McCarthy, Black Museum.

A ideia originária de museu surgiu no período da Antiguidade em Kemet (Egito Antigo), onde hoje está localizada a cidade de Alexandria [1]. O fenômeno servia como espaço pulsante e vívido de inspiração artística, desenvolvimento de pesquisa e vivência intelectual. Depois de muitos anos, todo seu acervo foi usurpado e incendiado por cristãos e muçulmanos, tornando-se perdido na história da humanidade [2].

Na concepção moderna da história, os museus são lugares de memória revestidos de áurea simbólica [3]. Porém, no processo de dominação colonial questionam-se quais formas de expressões das memórias são consideradas elevadas ao positivo, induzindo na sua preservação. Percebendo assim, compreende-se o jogo das memórias enquanto arena de disputas e conflitos instrumentalizados pela supremacia [4].

Os museus podem ser, além de lugares de memórias, verdadeiros templos ou parque de diversões dos exercícios de poder colonial.

Talvez por isso, muitos museus funcionam como interdições de consciência social, calabouços inexpressivos e chatos.

A maioria das críticas sobre o episódio Black Museum se atém a analisar as técnicas cinematográficas, as referências com outros episódios famosos da série e curiosidades sobre a trama, até mesmo abordagens filosóficas sobre o consumo das massas em “maratonar”, sem trazer imersões analíticas a dilemas propostos.

Modesta opinião, a tecnologia é o que menos importa na série. Ela serve como suporte de enredo para a reflexão sobre problemas sociais ensaísticos de um futuro possível.

Em absoluto esse texto contém spoilers sobre o episódio ou comentários cinéfilos reduzidos a apenas um aspecto. Escrito por um museólogo preto em diáspora, atreve-se a pretensão de textualizar alguns insights causados por estímulos analíticos ao assistir ao episódio: Black Museum é uma analogia percebida a minúcia sobre os paradigmas raciais contemporâneos perpassados as questões sociais da memória.

Não que a série tenha a intenção em primeiro plano na reflexão sobre raça, mas inquieta as abordagens do trato a vidas e memórias convidadas submetidas as experimentações do cientista branco paranoico.

Intensificando a complexidade do racismo em preâmbulos objetivo-subjetivos que podem definir a humanidade enquanto sinônimo branco,tendo o colonialismo como um sistema complexo de dominação, persistente em todos os âmbitos de organizações humanas no ocidente.

O positivo é branco e o negativo é preto. A racionalidade é branca, a emoção é preta.

Nesse sentido, a cultura em perspectiva deve ser branca! Ou seja, o pensamento branco (colonial) domina todas as nossas concepções, inclusive sobre crimes e punições, como nos acervos do Black Museum [5]. A vida negra não importa! Ela é encarcerada e julgada ao sofrimento para entreter, mesmo na pós-realidade.

A crença científica de degeneração da raça, onde os negros representavam a potencial preponderância ao crime, ilustra essa realidade histórica na sala de curiosidades-divertidas-do-branco-horror-negro do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, onde objetos sacros de religiões de matriz africana sequestrados eram desumanamente expostos similarmente a cabeças decapitadas, fetos deformados, drogas e armas. Hoje não existe a disposição expositiva, mas infelizmente anda podem persistir mentalidades nessas concepções curatoriais.

De mesmo modo, há o aprisionamento oriundo da classificação da sala de artistas e obras como populares. Folclore e exótico do fazer simbólico que impressiona (brancos) pelo domínio de surtos criativos advindo exclusivamente das emoções, subtraindo as capacidades técnicas e racionais de nunca um artista, mas seu fulana ou dona ciclana.

Black Museum como objeto de análise

Dito isso, como podemos dialogar sobre as concepções museológicas e o aprisionamento colonial tendo Black Museum como objeto de análise? Vamos há algumas ilustrações interessantes.

Vimos que o dono do museu, Rolo Haynes, detém toda a narrativa sobre a exposição, a ponto de manipular ao modo de achar conveniente para auto valorização de sua própria inteligência, na tentativa de superar suas frustrações profissionais nos empreendimentos tecnológicos fracassados.

O prisioneiro era negro! Isso não é uma escolha aleatória. O personagem foi escolhido para trazer referência ao número do encarceramento em massa, sobretudo dos homens negros. A insistência Rolo Haynes de negar qualquer possibilidade de inocência e negação de qualquer recurso do negro aprisionado, Clayton Lee, nos leva a crer no enviesamento da Justiça e o uso do pretexto de crime para execução. É obvio que o homem negro é o culpado. Já nasceu culpado. É Preto Amaral! [6]

Quando Lee pergunta “Sou um fantasma?”, é um fantasma da projeção branca que o aprisionou combinada a expertise da Justiça racista e aferição da inteligência tecnológica para entretenimento de maníacos brancos. Se quando preso, era notado graças ao corpo vivo que carregava, agora sua precária existência deriva de dispositivo tecnológico. Em ambas não eram vidas, apesar de estar vivo.

Assim como na principal atração do Black Museum, muitos museus servem como espaços de masoquismo do sofrimento negro. Museus que ainda relatam em suas exposições instrumentos e narrativas de tortura, como se a memória negra fosse restrita ao sofrimento nos calabouços das Casas Grandes. Assim como o Lee em Black Museum, essas coisas não-humanas não tem ontologia histórica. Exemplos é a representação reduzida do corpo negro escravizado no museu, recorrendo ao exotismo, estereotipação, meras aparições ou, como bem relata Flores, que exala o cheiro da carne negra, no silenciamento e invisibilização, contentados aos suportes de memória [7].

O episódio nos mostra em análogo que muitos museus ainda estão aprisionados ao cosmo colonial da existência e funcionam como templos de tortura cognitiva e oneração de consciência negra.

A mediação entre objeto e realidade precisam ser experienciadas pela resistência e heroísmo das populações violentadas. (Re)existindo as identidades, jurisprudenciando nossos conflitos e disputando a memória enquanto elemento de legitimação da vida negra. Apesar de uma tipologia de natureza histórica, os museus vivem o presente e seu fazer museológico precisam estar comprometido com esse tempo.

Se preciso for, assim como Nish (a heroína do epsódio, filha de Lee), pela memória ancestral negligenciada, queimemos – em forma de emancipação política – todas as grades e vitrines que insistem em aprosionar a memória negra nas mentes da dominação colonial.

Quem vem nos salvando, somos nós entre nós. Não Isabel! [8]

Vinícius Zacarias é Museólogo de formação pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Mestrando em Ciências Sociais Pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRB). Gestor Cultural na Bahia.


Referências Bibliográficas:

[1] CABRAL, Rosimere Mendes. Bibliotecas de Alexandria: construções políticas da memória. (Mestrado em Memória Social), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro: Rio de Janeiro, 2010.

[2] FLOWER, Derek Adie. Biblioteca de Alexandria: As histórias da maior biblioteca da Antiguidade. Trad. Otacílio Nunes e Valter Ponte. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2002.

[3] Nora, Pierre. “Entre memória e história: a problemática dos lugares.” Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História. ISSN 2176-2767 10 (1993).

[4] Tedesco, João Carlos. “Memórias em batalhas: dimensão política da memória.” Revista Cadernos do Ceom 24.34 (2011): 15-44.

[5] Fanon, Frantz, and Renato da Silveira. Pele negra, máscaras brancas. SciELO-EDUFBA, 2008.

[6] CAMPOS, P. F. de S. Outras faces do monstro urbano: criminalidade e racismo na cidade de São Paulo. Os crimes de preto Amaral. Histórica, v. 14, n. 1, p. 4-10, 2004.

[7] Silva, Joana Angélica Flores. “A representação das mulheres negras nos museus de Salvador: uma análise em branco e preto.” (2016).

[8] Da Silva, Vinícius Santos. Museus e Encenações Teatrais para Fins Educativos: Análise do Espetáculo 13 de Maio do Projeto Museu Vivo na Cidade. Anais do XII ENECULT. UFBA, 2016.

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