A história não é feita pelos imediatistas
Sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A história não é feita pelos imediatistas

Foto: Ricardo Stuckert

Não há outro assunto nas ruas. O burburinho foi crescendo e as pessoas não mais disfarçam, principalmente as pessoas que sobem no busão e que estão, ali na praça, de vassoura nas mãos, limpando os restos urbanos de ontem e anteontem. Passo por eles todos os dias.

Na padaria de um milhão de tentações carboidráticas, Bigode, um chapeiro galáctico, me olha, como se quisesse fazer uma pergunta que mudaria o rumo de seu misto quente. A Carminha, balconista, fica me cercando. Até o Jorjão, tradicional morador da praça, testemunha viva da História das Ruas, sente que as coisas estão diferentes. Mesmo quando está muito louco, como hoje, não consegue disfarçar seu desconforto. No ponto de táxi, uma estranha confraria de direitistas de todas as épocas e que são adoravelmente atenciosos comigo parece querer me perguntar alguma coisa.

Rubão tem uma pequena farmácia que administra com seu irmão, quase gêmeo, de tão parecido. Sabe tudo sobre o Corinthians, quem jogou quando, desde a década de quarenta. Dona Ester passeia com seu Rojão, um vira-latas muito amigo da Panda (perdoem-me a omissão, Panda é minha chow-chow, quase uma senhora). Possui um filho que mora, acho que na Austrália e outro, que somente lhe traz desgostos, por culpa de um casamento que jamais aceitou. Pois hoje, nem falou desse um; me olhou, me assuntou e ficou claro que sua ideia de prosa era outra.

Seu Hilário, que de hilário não tem nada, estava em sua barraca na praça, com a cara amarrada de sempre e me chamou, esforçando-se ao máximo para conseguir ser o que nunca foi, educado. Conseguiu. Doutor Hiroshi, um advogado que imagina entender de tudo, mas não sabe nada de nada, me olhou como se fôssemos dividir uma mesma cena teatral, até desacelerou o passo, quando o VILA MARIANA dobrou a esquina.

Eles queriam saber de Lula. Perguntavam-me de Lula como se fôssemos parentes. Estavam todos aflitos. “Tardelli, sem frescura, ele vai ser condenado?”

O julgamento de Lula é nossa prioridade. Mas, o dado mais sensível é que se trata de prioridade para quem jamais foi prioritário, gente que passa suada já às seis da matina, porque vem de muito longe para ganhar o que dá para comer por vinte dias. Gente que nunca pôde fazer coisas que fizeram quando tiveram Lula no poder. Gente que comprou um vestido para a filha, gente que, depois de séculos, entregou e recebeu presentes de Natal.

O Natal, há pouco encerrado, era uma data para infindáveis horas-extras, jamais pagas. Papai Noel neo-liberal retinha os empregados para o preparo da ceia, para a arrumação da louça de depois dos muitos regalos distribuídos. Papai Noel neo-liberal aparecia de Kombi, cumprindo promessas, distribuindo bolas de plástico e bonecas usadas para as crianças da favela. Papai-Noel polícia passava soando a sirene mais alto lembrando a todos que a coisa ainda era para ser decidida na porrada e no tiro.

Eles estão preocupados.

Pouco se importam com os juristas, os Ministros, os Desembargadores, os Juízes. Esses jamais os surpreenderam, sempre prenderam, desde o início dos tempos, sempre os prenderam. Sempre foram presos, sempre apanharam e nunca conseguiram provar que foram espancados. Suas casas sempre foram invadidas na madrugada, seus filhos ouvem desde que aprenderam a andar o encosta, vagabundo. Sempre souberam que as autoridades constituídas da República nunca estiveram ao lado deles, foi intuitivo, foi aos poucos, foi crescendo e se tornou um fato biológico: eles se converteram em caça. Por essa razão, dentre milhares de outras, é que morrem feito bichos e exibidos mortos feito troféus de safári.

A imensa maioria nunca viu um juiz imparcial, a maioria nunca viu um promotor de justiça. Estão acostumados com acusadores sentados em muitos lados da mesa. Estão acostumados ao olhar gelado das autoridades. Me lembro de uma delas, num júri, dizer que seu coração era de pedra peluda. Estão acostumados a agachar e serem humilhados nas visitas aos presídios. Estão acostumados a não ser atendidos nas repartições que carimbam as decisões das autoridades.

A novidade é que pareceu ser possível que alguém tivesse a mesma origem que a maioria deles, que tivesse o mesmo nível de escolaridade, que houvesse sofrido na pele e na alma os sofrimentos que somente eles experimentam, porque somente quem é muito pobre pode sofrer determinadas dores. Esse um fez o que jamais se pensou em fazer.

O filho da faxineira chega tarde, mas vem da Faculdade. Será engenheiro, professor, economista, advogado, até médico. A mãe, faxineira, tem o doutor, não mais como patrão, mas como seu filho, sua filha. A menina que ela jamais pôde levar à casa da patroa poderia tratar a filha e a patroa, defender (ou acusar ou julgar) a filha da patroa.

Eles estão com medo. Muito medo.

Sabem ouvir o discurso dos Sábios Burgueses e sabem extrair que algo horrível está por vir. Não precisam saber o que exatamente virá, mas sabem que serão os mais atingidos.

Sabem pela repetição dessas experiências que eles pagarão e lhes será caro, porque não custará apenas dinheiro, custará esperança, a pouca que restava e que guardavam em algum canto da memória. Como é ter esperança? Talvez seja encontrando pessoas iguais que saibam dividir e compreender nossas aflições mais cotidianas.

O líder popular está enredado na teia de aranha da Justiça. É verdade sabida: a Justiça os odeia. Sempre os condenou, sempre disse que os policiais falavam a verdade, sempre disse que não pode desvalorizar o depoimento de um agente público, que nos permite dormir à noite da súcia de malfeitores que assombram a sociedade ordeira e pagadora de impostos, sociedade na qual jamais foram aceitos, não obstante sejam os que mais sangram com a tributação indireta.

Temem que seja preso e que a vingança recaia feito uma tempestade sobre todos. Lula, preso, significa que eles irão juntos, trancafiados novamente no mesmo círculo, de onde apenas sairão depois de muito sangue escorrido nas ruas, deles, sangue de sempre.

Jorjão, sem dúvida, o mais ferrado de todos, com anos de Carandiru, anos de HIV, uma vida inteira na rua, olhou para baixo e disse:

– Só vai sobrar o Corinthians.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway.

Sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend