O que a denúncia contra o Fernando Capez nos ensina?
Terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O que a denúncia contra o Fernando Capez nos ensina?

Foto:  Marcos Oliveira/Agência Senado 

Na faculdade de teologia, no meio de tantos autores bons, muitos dos meus colegas preferiam ler Augusto Cury – que nem teólogo é, mas tinha uma coleção de livros chamada “Análise da inteligência de Cristo”. Teologicamente fraco demais, mas a galera gostava. Fazer o quê?

Na faculdade de Direito, o que eu mais via era gente falando de Capez. Era o querido da maioria. Eu nunca gostei. E nem estou dizendo isso só porque ele foi denunciado pelo crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, ou porque ele é do PSDB. Não. Nunca gostei porque ele é ruim mesmo!

Queria entender o prazer que esse povo tem por literatura ruim. Deviam seguir o conselho do Schopenhauer:

“A arte de não ler é muito importante. Consiste em não sentir interesse algum por aquilo que está a atrair a atenção do público numa determinada altura. Quando um panfleto político ou eclesiástico, um romance ou um poema estão a causar grande sensação, não devemos esquecer-nos de que quem escreve para tolos tem sempre grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler os maus: a nossa vida é curta.”

Os livros do Capez são horríveis, pois não passam de compilação. É um amontoado de coisas que outros já disseram. Nem dá para chamar o Capez de doutrinador, pois, dado o perfil compilatório das obras, fica difícil saber o que ele acha das coisas.

Entretanto, falemos do Fernando Capez, o deputado

Depois de ter ido às ruas vestido de camisa amarela, protestar contra a corrupção, pedir o impeachment de uma presidente legítima e sem ter cometido crime, eis que o deputado foi denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

E então, como fica? Vamos relativizar a presunção de inocência agora, porque o importante é tirar logo os corruptos de circulação? Está vendo aí como é complicado levantar uma bandeira hoje que amanhã não tem condição de sustentar? Minha avó era sábia: “quem tem teto de vidro não pode jogar pedra na casa do vizinho…”

O Capez é dono de um projeto que visa acabar com festa Open Bar. Segundo ele – tomado por seu (falso) moralismo – é ruim para a sociedade ter festas onde o álcool é liberado. Deveria se preocupar com a merenda de pessoas pobres que ele, supostamente, desviava. Segundo a denúncia, a lei do Capez era: “quanto menos propina, menos merenda”. Deixa o Open Bar em paz, Capez!

Enfim! No mais, só um desejo: que ele não seja julgado conforme as coisas que escreve e fala. Que tenha, muito embora tenha demonstrado desgosto, direito à ampla defesa e ao contraditório.

Então, o que a denúncia contra o Fernando Capez nos ensina? Que hipocrisia não compensa e que a máscara dura pouco. E que o direito que a gente quer arrancar do nosso inimigo hoje, amanhã não existirá para nós.

E muito embora ele seja da turma do “condenar sem devido processo legal”, e tenha vestido camisa amarela para tirar a Dilma do poder e pedido a condenação do Lula, não vou chamá-lo, agora, de ladrão de merenda!

Wagner Francesco é bacharel em Teologia e Direito.

Terça-feira, 16 de janeiro de 2018
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