Carnaval e política: quando a folia faz rima séria em matéria de gênero
Quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Carnaval e política: quando a folia faz rima séria em matéria de gênero

Foto: Reprodução/Facebook 

Carnaval rima com política? Talvez não na simetria da nossa língua pátria, mas decerto na sua essência. Porque o Carnaval lida com liberdade, desejo, democracia e, também, com fantasia, sonhos, utopia – combustíveis para qualquer atitude política.

Em Pernambuco, existe o Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesco Eu Acho é Pouco, calcado nas cores que se alastram pelas ladeiras do Sítio Histórico e ajudam a tingir Olinda de vermelho e amarelo durante o reinado de Momo e em um ideário de compromisso social e político.

Assim tem sido desde a fundação, em 1977. Amigxs que queriam inventar um bloco para brincar no intervalo dos desfiles dos gigantes Elefante de Olinda e Pitombeira dos Quatro Cantos. Nasceu, então, o Eu Acho é Pouco; uma parte da história dessa anarquia harmônica séria e brincante se encontra na pesquisa biográfica que integrantes, todxs voluntárixs, disponibilizaram para leitura e download na rede mundial de computadores. 

Contudo, assim como a vida, o devir dessa nau foliã nada tem de estanque.

Há uma frase de Peter Pál Pelbert[1] que diz: “ter ética é estar à altura dos acontecimentos.”

Pois bem.

No Carnaval de 2018, o Eu Acho é Pouco, mais uma vez, ratifica o seu propósito de buscar sintonia ao que acontece, aliando a folia à política cotidiana. O cenário do feminino se apresenta e nele se destaca a fúria da Medusa. No plano de fundo, a necessidade de associação política das mais variadas lutas e das muitas injustiças e violações de gênero, classe e cor.

Sororidade em pauta e, por conseguinte, política em campo de folia, extremamente crucial ao propor como tema uma reflexão sobre um dos grandes males a assolar o Brasil e o mundo.

O mote: “Preconceito é uma arma que mata. Desarme-se”

Na camisa, a criação do designer e pintor David Alfonso – cubano de nascimento, mas que adotou o Brasil há uma década – apresenta uma versão contemporânea da figura mitológica da Medusa.

E o que nos diz o mito da Medusa? O próprio artista explica:

“Na mitologia, ela é uma donzela estuprada por Poseidon, Deus dos mares. A deusa Atena, sabendo que Medusa foi estuprada, decidiu puni-la, desterrando-a para uma ilha e convertendo-a em um monstro com serpentes no lugar dos cabelos. Isso me lembrou muito da luta atual da mulher em um contexto de feminicídios e estupros. Medusa era uma vítima e, no final, foi punida, como são muitas vítimas nesse contexto de feminicídios e estupros”.

O que acontece no Brasil de hoje? Enquanto o Eu Acho é Pouco se prepara para mais uma edição do seu Baile Vermelho e Amarelo, neste sábado (20), no Recife, o videoclipe da canção Só surubinha de leve, de MC Diguinho, ultrapassa 14 milhões de visualizações no YouTube. A letra, de versos que não merecem ser reproduzidos aqui, é uma apologia ao estupro. Dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco apontam que, em 2017, 33.188 casos de violência contra a mulher foram registrados, numa média de 91 por dia. Por essas bandas da nação, até nota em coluna social diária essa estatística assombrosa rendeu.

No manto vermelho e amarelo, Medusa surge com um gesto imperativo. No primeiro olhar, exige silêncio, petrifica, para, no momento seguinte, levar todxs à autocrítica. O designer David Alfonso pondera: “A Medusa somos nós, é a sociedade, não podemos nos dissociar disso tudo e temos que nos respeitar”. É o mesmo espírito que ecoa na frase ‘mote’ pensada pelo publicitário e folião vermelho e amarelo Fernando Lima, que bem traduz o estado de espírito de um bloco que, há mais de quarenta anos, sai em defesa da democracia e da liberdade de cada um poder ser e amar quem quiser.

“A crise e o caos não são apenas políticos. Há uma questão de valores e de identidade. O bloco, mais uma vez de maneira pioneira, tem capacidade e coragem de levantar bandeiras. Além de uma camiseta carnavalesca, estaremos vestindo uma causa”, diz Fernando.

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Imagem: Reprodução/Facebook

 

Ele vai além na costura da aliança entre um bloco, o Carnaval, a política nossa do dia a dia e a urgência de se posicionar: “A missão e o propósito do bloco são de ir além do Carnaval e da alegria. É um bloco forjado na luta e não podemos esquecer disso tudo no momento importante em que vivemos. Existem causas políticas que também são causas sociais, intrínsecas à realidade que nós vivemos”. É uma realidade em que as mulheres, tal qual Medusa, tendem a ser condenadas ao ostracismo quando se pronunciam para denunciar a violência.

Mas, enquanto as palavras seguem articuladas na cadência do frevo rasgado que a folia feminista e guerreira promete para sábado, 20 de janeiro de 2018, é fato que algo já mudou, está mudando e seguirá a mudar. As mulheres se organizam, os coletivos feministas alargam seus espaços, a sociedade percebe que abusos e violência de gênero não poderão ser silenciados e cada instante a orquestra se amplia de novxs integrantes e vai ganhando força.

Nessa toada de canto, grito e frevo, o Eu Acho é Pouco segue fazendo rima entre carnaval e política. Ao sair às ruas, com dragão e estandarte e a força de uma nação vestida em vermelho e amarelo, chama a atenção para toda forma de preconceito e opressão.

Quem ousa dizer que Carnaval não rima com política?

Desarme-se!

Luciana Veras é jornalista, mãe de uma filha de seis anos que já aprendeu com ela a gostar de Carnaval, militante de esquerda e pela democracia, foliã do Eu Acho é Pouco e repórter especial da Revista Continente (www.revistacontinente.com.br)


[1] Húngaro radicado no Brasil, Peter PálPelbarté filósofo, pesquisador, tradutor e referência nos estudos e nas reflexões sobre a obra de Gilles Deleuze, além de professor do Departamento de Filosofia e do Núcleo de Estudos da Subjetividade da pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.

Quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
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