As pessoas comuns estão confusas, cadê as provas?
Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

As pessoas comuns estão confusas, cadê as provas?

Foto: Ricardo Stuckert

Estamos paralisados e, prontos pra virar geleia, de coração na mão, em uma encruzilhada histórica. Três vetustos senhores, incontrastavelmente honestos, titulares de garantias celestiais de trabalho, cada qual tendo a seu redor um corpo de assessores que pôde escolher a dedo, que ganham um salário que lhes basta a não perder noites de sono com contas domésticas por pagar, que são respeitados e que recebem mesuras por onde passam, vão decidir a sorte do maior líder popular da história do país e, com ela, os desdobramentos da democracia que acalentamos, pois terão uma espada de justiçamento nas mãos e deles e apenas deles será a opção de vê-las ensanguentadas ou não.

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Esses três senhores, honestíssimos três senhores, podem definir a pauta nacional para os próximos anos. Parece uma loucura constatar-se que dependemos de três, ou melhor, de apenas dois desses senhores para que possamos imaginar qual projeto de país deverão os eleitores escolher nas próximas eleições.

Somente um pesadelo permitiria que a sorte de mais de duzentos e vinte milhões de pessoas pudesse ser decidida por dois desembargadores do TRF-4.

Pergunte a seu Uber de preferência se ele sabe o que vem a ser isso, TRF-4 ou à sua manicure ou para o tosador de seu cão. Teremos 99% de chances de não fazerem a menor ideia do que venha a ser essa sigla quase indecifrável.

Até hoje, vivemos do bombardeio da mídia e o brasileiro médio, enquadrado no Jornal Nacional, não tem dúvida de que Lula é culpado, mas não sabe de quê, não consegue explicar ao filho por que cargas d’água o mundo cai sobre a cabeça de Lula. Ele apenas ouve William Bonner repetir e repetir que, sim, ele é culpado.

O Juiz que o condenou já é uma estrela midiática, assim como são os procuradores que o acusaram. São todos jovens, atléticos, magros, vestem-se bem, quase uniformizados, falam como se fossem os anjos do apocalipse e asseguram, juram, garantem que Lula é culpado e que recebeu como propina um apartamento no Guarujá.

Ele também é culpado de um telefonema com Dilma, quando ela o escolheu – mas, não pôde nomeá-lo – para ser Ministro da Casa Civil. O apartamento e o telefonema vazado possuem tanta relação entre si quanto um cacho de banana e uma tomada USB, mas foram usados pela Globo para provar que Lula recebeu um apartamento de propina, aquele telefonema diz que ele recebeu o apartamento. Não diz? Mas, certamente, quando levaram Lula na marra para o aeroporto de Congonhas, foi para que ele entregasse ao delegado as chaves do maldito apartamento. Não? Não? Nunca houve isso? Sei lá, mas ter sido levado na marra, caramba, prova que ele recebeu o apartamento de propina. Ou não?

As pessoas comuns estão confusas.

A Globo tomou para si que, sim, Lula é culpado e outros jornais e revistas vieram no rastro de sua enorme audiência e do gosto sádico de ver um líder popular sangrando em horário nobre, todos os dias. A impressão é que o Brasil inteiro estava em uma plataforma da Petrobras: edições praticamente inteiras do Jornal Nacional foram descaradamente dedicadas à prova da culpa de Lula.

A TV Cultura de São Paulo, porta-voz do tucanato paulista, coloca todas as semanas, na bancada de seu telejornal, gente para dizer que Lula é culpado. VEJA e outras revistas passaram a semanalmente trazer tudo o que fosse possível para que Lula fosse condenado, por nada que fosse, “por saber de tudo”. Tudo o quê? Tudo, oras.

Até um longa-metragem, secretamente financiado, com a lindíssima Flávia Alessandra no papel de uma delegada federal, a mesma, que, no mundo em que vivemos, prendeu e jogou para a morte o reitor da UFSC. Flávia Alessandra segue linda e a delegada parece que foi promovida. Teve estreia com direito à presença de todos os galãs da Lava-Jato, de todo seu elenco robusto, de cabelos engomados, curtos, penteados de lado.  Tudo para provar que Lula é culpado.

Do juiz que o julgou, não se sabe exatamente por que raios foi dele essa tarefa: convenhamos, não é mole explicar para o motorista do Uber, para a  manicure ou para o tosador de cães, como é que um juiz de Curitiba julga o caso de Lula, que morava em São Bernardo do Campo, acusado de ter recebido um apartamento, no Guarujá.

Concordamos uníssonos que é muito chato exibir na televisão as provas de um processo, um treco complicado, burocrático, cheio de carimbos inextrincáveis; um depoimento de horas precisa ser convertido em segundos, trinta no máximo, para prender a atenção do telespectador. Dezenas e dezenas de depoimentos, então, nem se diga. E se todos forem desmentindo a acusação, pior ainda.

Um, ali, estranho no ninho, disse que Lula sabia. Pronto, o cara falou que sabia, sabia, te falei que sabia, ora essa. Alguma coisa, porém, fazia um xis nessa testemunha, salvadora da pátria condenatória: a delação de onde ele saiu para bombardear Lula não estava homologada pelo juiz respectivo, sendo uma espécie de sub-prova, apenas uma voz perdida no oceano. E, embora tenha recebido toda a atenção do JN, as pessoas desconfiaram. Estava esquisito.

As pessoas, que no começo se embalaram, se animaram, bateram panelas, começaram, nesse período, a ver o país degringolar e a gasolina bater cinco irreais, na bomba do posto. Dez litros de gasolina ultrapassariam a média do teto que os presentes de amigo secreto (em São Paulo) ou amigo oculto (no Rio) se fixaram, na imensa maioria dos escritórios. Cinquenta mangos, por dez litros de gasolina, uau.

Da mesma forma como não sabem que rabo de foguete foi esse que o preço da gasolina pegou, não sabem também que raio de prova é essa, que, de verdade, começaram a desconfiar, ainda não tenha aparecido?

A sensação que se percebe é que as pessoas começam a compreender que foram enganadas.

Quem poderá dizer por elas são os três vetustos desembargadores do TRF-4, que irão apreciar o recurso da defesa de Lula, contra a condenação em primeira instância. Pouquíssimos foram os juristas que defenderam a condenação, não enchem os dedos da mão. Uma parafernália, porém, de juristas, brasileiros e estrangeiros, todavia, estão escandalizados. De Ferrajoli até a Ministra da Justiça da Alemanha.

Há um sentimento coletivo de que a condenação é absurda e servirá para completar a ruptura institucional, iniciada na deposição de Dilma Roussef.

 Em outras palavras, o mundo, que assiste a uma global escalada do fascismo, vê no Brasil um exemplo eloquente de um claro golpe de estado, não mais com tanques de guerra pelas ruas, mas com canetadas de elegantes, magros, atléticos juízes, membros do ministério público, e, depois deles, dos tribunais superiores. 

O Brasil parece ter aberto a porta do inferno obscurantista.

Esses três senhores, porém, podem ajudar a recolocar a ordem jurídico-legal nos trilhos. Podem e apenas eles poderão fazer isso, ninguém mais existe a substitui-los, apenas eles, bastará que sejam dois deles, dois homens.

Dois agentes púbicos podem, por mais doido que pareça, colocar o Brasil de volta no Séc. XIX, repristinando a Corte alienada e racista, patriarcal, misógina ou acelerar o Brasil, para que saiamos definitivamente do Séc. XX, em que ainda nos encontramos, lá longe, bem no começo, trocando tiros, matando mulheres e negros, roubando, criando desemprego para encher as burras daqueles cujas burras sempre estiveram cheias.

Temos muito caminho até o Séc. XXI, sabemos disso, todos sabemos disso. Precisamos proteger nossas crianças e estabelecer com nossas mulheres uma relação de igualdade efetiva, precisamos abolir todas as limitações que os preconceitos nos produziram, precisamos de muita coisa, precisamos aprender a distribuir o dinheiro que produzimos, destruindo nossa maior vergonha que é esse apartheid que naturalizamos um pouco por dia.

O cabra que estava, até ontem, de panela na mão, saindo na rua com a camisa do 7X1, vidrado de ódio, cuspindo marimbondos, em virtude das notícias da Globo, começa a se coçar, algo está estranho, algo que ele não consegue compreender bem, mas consegue sentir, pressentir, algo o envergonha, algo o faz sentir-se feito de trouxa, por um bando de espertalhões.

Sente faltar alguma coisa nesse julgamento, tornando-o ainda mais explosivo. Sabe que algo está fora da ordem, que alguma coisa não deu certo. É natural que seja intuitivo prever também que esse julgamento não vai acabar no dia 24 de janeiro, mas irá seguir por décadas, muitas décadas. Começa se incomodar e é inevitável que pergunte a si mesmo e ao monitor de TV: cadê as provas?

Aqueles três vetustos senhores e apenas eles dirão. Nesse dia, serão julgadores.

A partir do dia seguinte, todavia, serão julgados. Eternamente julgados, queiram ou não.

Eternamente.

Roberto Tardelli é Advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway.

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
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