Nós, Cristãos, somos incoerentes
Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Nós, Cristãos, somos incoerentes

Imagem: Latuff/2012

Por Simony dos Anjos

 

Que o mundo padece por falta de interpretação de texto, não é novidade. A cada dia vemos pessoas vociferando horrores porque não sabem interpretar posts, falas e humor inteligente. Ironias a parte, o mal da interpretação equivocada acomete o mundo cristão há muito tempo, e parece que estamos longe de sanar esse problema.

Pois bem, a cada dia que passa vejo uma nova aberração defendida por cristãos: pena de morte; racismo; machismo; homofobia; etc. Essas posturas reacionárias e pouco amorosas me fazem chegar a uma conclusão: nós cristãos somos incoerentes. Temos várias opiniões que vão sendo manipuladas conforme a necessidade do líder em questão.

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Em outras palavras, se os líderes religiosos, do tipo fariseu, querem apoiar o armamento da população, mobilizam algum texto do velho testamento sobre “olho por olho”; se querem espancar gays, mobilizam Levíticos; se querem ser machistas, mobilizam os textos do Apóstolo Paulo; e por aí vai. Contudo, nunca fazemos uma interpretação do texto bíblico que dê margem para colocar em xeque a pedância e a “santidade” de certos grupos cristãos e das elites apoiadoras da “moral cristã”. Claro, porque defender pobre e minorias não interessa.

Passada essa época de festas e de Natal, e do enaltecimento dos pobres, pretos e periféricos: José, Maria e Jesus (e do ódio declarado ao Estado Romano representado por Herodes – o caçador do Salvador), achei por bem refletirmos sobre como algumas políticas de Estado presentes na Bíblia são vistas como desumanas e ilegítimas nos cultos de domingo à noite, mas se elas são aplicadas pelo Estado Brasileiro, aplaudimos de pé?

Por exemplo, a cada 23 minutos um jovem negro morre na periferia do Brasil (Dados da Flacso – Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais). Declaradamente, isso é uma política de Estado na qual se o jovem for negro, pobre e periférico o Estado mata para depois identificar; e tem muito cristão que aplaude de pé.

Quer ver uma política de extermínio homônima na Bíblia que a gente refuta veementemente? O nascimento do Cristo, sim, Herodes mandou matar (Mateus 2,16) todos os meninos para garantir que Jesus não nascesse e com certeza não era porque Jesus era de família rica e importante (assim como todos os meninos que morreram por causa dessa atitude genocida do Estado Romano, não eram ricos).

Outro exemplo muito pertinente é o repúdio e xenofobia que os brasileiros têm direcionado a uma categoria de estrangeiros. Achamos que os haitianos não devem estar aqui, os bolivianos, os peruanos, os árabes, enfim, eles estão aqui para que? Para roubar nossos empregos? Para sobrecarregar um Estado mantido por nossos impostos? Por outro lado, ficamos indignados com o que o Egito fez com o povo de Israel, né? Onde já se viu querer matar os bebês para controlar a população que se esforçava tanto para servir os egípcios (Êxodo 1:22)?

Nessa perspectiva, a nossa incoerência se dá quando nos indignamos com o genocídio dos Hebreus no Egito, com a perseguição de Herodes a Jesus, mas não nos importamos com a morte de tantos jovens negros nas periferias do Brasil.

Meus caros cristãos, vocês percebem um motivo em comum para os genocídios? Não? Vou dizer: Medo do Reino dos Oprimidos. Sim, o Faraó e o Herodes mandaram matar declaradamente, porque eles tinham medo do Reino dos Oprimidos. Medo de uma sociedade na qual seus privilégios fossem banidos. Uma sociedade que poderia ter a cara de um pobre na liderança.

Nós, cristãos, temos medo do reino de quem? Das feministas? Das putas? Das gay? Das trans? Das lésbicas? Dos negros e suas religiões de matrizes africanas? É isso? Temos odiado tanto por medo de uma insurreição daqueles que temos oprimido? Temos odiado a ponto de mandar matar cada bebê que nos ameace?

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
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