O pedido de desculpas, amanhã
Terça-feira, 30 de janeiro de 2018

 O pedido de desculpas, amanhã

Foto: Tuane Fernandes/Midia Ninja

O Professor GermanAller, em suas aulas de Mestrado em Criminologia[1], relembra fatos históricos dignos de fazer refletir e muito – sobre coisas que fizemos no passado e que hoje deveríamos pedir desculpas.

Impactante sua abordagem sobre a Guerra do Paraguai, onde a Tríplice Aliança, formada por Argentina, Brasil e Uruguai, praticamente exterminou a população masculina do Paraguai (cerca de 90%), isso, em razão de comércio, pois o Paraguai – que está entre os primeiros países Latino-americanos a declarar sua independência – procurou se independer do grande império da época – a Grã-Bretanha – e por isso, por não estar servindo aos interesses de impérios externos sofreu forte represália por não possuir saldo devedor com as grandes potências, e enfim, hoje, mal se percebe que temos, bem do nosso lado, um vizinho arrasado, que resiste em se reerguer e se construir a cada dia, pois ainda vive as ruínas desse arraso histórico causado por nós, argentinos, brasileiros e uruguaios. Então não façamos piadinhas com Lugo e seus filhos, afinal, há cerca de um século, o Paraguai era um país praticamente sem população.

Convenço-me de que cabe um pedido de desculpas ao povo paraguaio.

Isso me faz pensar em quantos pedidos de desculpas figuram em nossa história.

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Lembrar da Santa Inquisição Católica, onde em nome da permanência no Poder, ou seja, Ser o Estado, a Igreja também cometeu um genocídio ao exterminar um possível – estimado – número de aproximadamente 5 milhões de mulheres, tidas como Bruxas responsáveis pelas catástrofes naturais e todas as demais falhas ocorridas na sociedade.

Eugênio Raul Zafaronni anota que “em toda a Europa, a porcentagem de mulheres executadas por bruxaria varia entre 75% e 90%”[2], o que representa, em vários pequenos vilarejos, o extermínio de praticamente todas as mulheres.

Claro, as mulheres não tinham acesso aos ritos religiosos, e naturalmente, faziam os ritos às suas maneiras, com flores, guirlandas, velas, fogo e elementos da natureza. Para o Estado nasciam – oficialmente – as Bruxas, ou seja, para a Santa Sé (o Estado Católico, que inclusive tinha seu Exército conquistador) os grandes males – catástrofes naturais, doenças – ocorriam em razão das feitiçarias dessas Bruxas. 

Na mesma sintonia histórica e social, ainda hoje, pouco mudou em relação às mulheres, afinal, há quem diga que “o problema da sociedade está na mulher que engravida e, por isso, merece receber menos”, e a Igreja a procura impedir de tomar métodos contraceptivos, mas também não aceita permitir que Ela decida sobre a interrupção da gestação.

Convenço-me que a Igreja e a sociedade deveriam fazer um pedido de desculpa às mulheres.

A Igreja porque matou, e a sociedade porque delatou!

E caso a Igreja já o tenha feito, sugiro que o faça de novo, porque não deu muito resultado.

Enfim, após passarmos por tantas atrocidades como Guerras e Estados Genocidas, tivemos o privilégio de alcançarmos um Estado Democrático de Direito, que procura garantir um estado de bem estar a todos e, principalmente, proteger o cidadão do próprio Estado e, por tanto violações aos direitos fundamentais da população e abusos de poder só podem acontecer em Estados-Falhos.

Entretanto, causa certa estranheza observar membros da sociedade atentando contra esse Estado de Direito, e o mais injustificável é que costuma-se justificar esses atentados em razões que representam os seus próprios bem estares, o que poderíamos chamar de suas convicções morais.

E nesses atentados diárias, quando se busca satisfazer a moral e os bons costumes de determinados grupos, a Democracia corre o risco de ser revogada informalmente e isso pode resultar no surgimento de outra forma de Estado.

E um novo Estado, como seria? Talvez, igual ao Estado Católico, cuja maior bandeira era a Santa Inquisição e os maiores feitos foram o extermínio de um número estimado entre 4 a 8 milhões de pessoas (estimativas com base na população da época), que eram mulheres, estrangeiros, membros de outras religiões ou de nenhuma religião, hereges, estudiosos, visionários, entre outros que, ao ver do Estado, estavam todos errados, e seus erros causavam todos os males da sociedade.

Pois é, o que vem por aí, com a derrubada do Estado Democrático de Direito? Não sabemos que Estado virá, mas depois, certamente, virá um grande pedido de desculpas.

Fernando Rodrigo Mroskowski é Mestrando em Criminologia pela Universidad de la Empresa – Uruguay. Advogado Criminalista.


[1]Aula de Mestrado em Criminologia; 2° módulo, Universidade de la Empresa; Montevideo/Uruguay; 2018.

[2] ZAFFARONI, Eugenio Raul. CautioCriminlis (Cautela Criminal/Friedrich Spee); 1ª ed. – Ciudad Autónoma de Buenos Aires; Ediar, 2017.

Terça-feira, 30 de janeiro de 2018
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